Imagens - Desenhos de crianças chechênas sobre a guerra
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Abominável Mundo Novo O seqüestro da escola em Beslan na Rússia
Márcio Salgues - Publicado em 09.09.2004

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O saldo da desgraça russa oscila entre pouco mais de trezentos – segundo o governo – e mais de quinhentos mortos, de acordo com repórteres que estiveram no palco da tragédia. Não importa aqui a precisão dos números. Mais de trezentos mortos, talvez mais de duas centenas de crianças, já é um número capaz de provocar um embrulho no estômago de qualquer pessoa sã. Causa náuseas, torpor, choque, desespero, assim como saldo do 11 de setembro americano e as tantas contabilizações menores de todos os dias.
Apesar da referência óbvia à obra de Aldous Huxley, não é o caso parafraseá-la senão o título. O clássico de Huxley, Admirável Mundo Novo, figura ao lado de 1984 de Orwell como uma obra que retrata um futuro sombrio, ainda que por meios diferentes do que proponho aqui. Huxley nos mostra uma sociedade onde os seres humanos são fabricados em linhas de produção e são predestinados geneticamente para exercerem determinadas funções nessa mesma sociedade, ao passo que Orwell expõe uma sociedade manipulada pelo regime totalitário do Grande Irmão, que controla a tudo e a todos.
A realidade histórica, não menos sombria, nos mostra que, por enquanto, o mundo é um lugar onde ninguém está a salvo da loucura inquisidora, da insanidade bárbara das mentes doentias dos destroçadores de corpos, empaladores de almas, que não hesitam em lançar mão das táticas mais abomináveis e insuportáveis ao ser humano para a obtenção dos seus fins, sejam eles justos ou injustos. Este é o nosso Abominável Mundo Novo.
Perguntamo-nos atônitos como algumas pessoas são capazes de maquinar a auto-imolação e o sacrifício de pessoas inocentes, até mesmo crianças, sob o pretexto de angariar sua própria liberdade, a independência política, seu próprio naco de terra, sua nacionalidade ou o que quer mais que seja. Para questões como essas existe a guerra convencional que, apesar de bruta, é aceita universalmente na resolução de conflitos onde a diplomacia falha e que, pelo menos em teoria, só deve envolver as forças militares e não civis inocentes.
Porém, parece-me que não há solução racional que ponha um basta a insensatez desses soldados obscuros. A princípio, a única coisa que se poderia utilizar como argumento lógico de negociação, seria o respeito e a valorização da vida humana. Porém, a vida humana nada significa para os insanos. E isso vale não só para os fundamentalistas religiosos, mas, também para fundamentalistas políticos. Para o fundamentalismo político, contudo, ainda existe a tênue esperança diplomática. Ao passo que para o fundamentalismo religioso, diplomacia, assim como vida, é um conceito inexistente.
Dê-se aos bárbaros da Chechênia a sua justa independência e logo estarão procurando mais causas para praticar o terror. Dê-se aos dementes da Palestina seu justo quinhão da terra e logo estarão procurando mais razões para explodirem ônibus lotados de crianças. Dê-se aos truculentos de Israel uma oportunidade e logo os palestinos serão dizimados ou escorraçados. Aniquile-se o capitalismo selvagem e opressor do mundo e ainda assim haverá a cruzada purgatória contra a infiel civilização ocidental (Referi-me aqui aos bárbaros, aos dementes e aos truculentos, não aos cidadãos comuns).
Nisso consiste o nosso Abominável Mundo Novo: no terror. Seja o terror fantástico e espetacular financiado com dinheiro – muito dinheiro – das partes interessadas na desestruturação e no caos de uma sociedade, seja o terror silencioso que flagela e dizima crianças e adultos, pela falta desse mesmo dinheiro, na miséria epidêmica da África e nos incontáveis bolsões espalhados pelo planeta onde se isolam pequenas e grandes populações, como numa quarentena infindável, eterna. Purgatórios que não redimem, apenas proporcionam o sofrimento que será recompensado com a morte, às dezenas, às centenas, aos milhares, de forma genocida.
Longe de nós esteja a omissão ou a indiferença na busca incessante por um mundo mais justo para todos. Afirmo que todos nós podemos e devemos nos esforçar para isso. Entretanto, tudo indica que não desfrutaremos desse idealizado mundo melhor, nem nós nem nossos filhos. Com muita sorte, talvez, nossos netos o desfrutem.
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