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Dirceu, Robô!
Adilson Luiz Gonçalves - Publicado em 16.09.2004
O ministro-Chefe da Casa Civil, José Dirceu, deu uma inequívoca e bem articulada manifestação de liberdade de pensamento, ao questionar a política de juros praticada pelo Copom.
Numa conjunção, antes, impensável, ele somou sua grita aos argumentos do deputado federal e economista, Delfim Neto, contra o excesso de zelo dos "falcões" monetaristas. Antes deles o vice-presidente José Alencar era, praticamente, o único porta-voz dessa linha, partidária da redução da taxa Selic como forma de incentivar investimentos internos e a retomada do desenvolvimento.
O que mais impressiona é que José Dirceu reconhece que, como ministro, deveria ter muito cuidado com suas declarações; mas que, como deputado federal por seu estado, cidadão e membro de um partido com uma história, não poderia se calar perante algo que ele considera incoerente. Afinal, isto é uma democracia ou não?
É esse o tipo de atitude que se espera de um homem público realmente comprometido com os interesses da nação: Não tolerar patrulhamentos – sejam de “Gestapos” ou não – e não agir como um robô!
Isso ajuda, um pouco, a mudar a imagem de eminência parda, incontinente, que Dirceu assumiu, como articulador político intempestivo - espécie de Sérgio Motta do PT -, que, algumas vezes, quase levou os esforços conciliadores do Presidente Lula à iminência de desastres, com impacto negativo sobre a imagem do governo e agitação do mercado. Furacão Dirceu! Ou ciclone extratropical, se preferirem.
Dirceu é um homem voluntarioso e não aceita o ostracismo. Quando tentaram conter seu ímpeto ou “desligá-lo”, temporariamente, seu comportamento sempre foi o de um siri na lata. Parece crer que não nasceu para obedecer, só para liderar! E acredita ser um líder nato, opinião que parece ser comungada por vários de seus pares, pois nada abala sua liderança, intocável e implacável, no PT. Só que não é o fato de ser líder dentro de seu partido que o coloca como articulador ideal do governo ou como paradigma de homem público. Essa insistência e inconformismo, em alguns momentos, chega a transparecer uma certa compulsão por estar na mídia e a impressão de que ele não aceita ser, apenas, coadjuvante, como se sua estrela devesse brilhar mais que a do partido e do próprio Presidente. Salvo engano, nosso sistema de governo não é parlamentarista.
Mas sua atitude ao defender a liberdade de expressão, a democracia, a representatividade de seu mandato - embora não o esteja exercendo, em nome de suas funções ministeriais - e a história de seu partido resgataram-no do limbo em que suas atitudes anteriores o haviam colocado.
Parabéns ministro, antes de tudo pela dignidade e coerência!
Coerência...
Pena que a senadora Heloísa Helena e outros parlamentares, expulsos do PT - antes deles a atual Deputada Luíza Erundina - por defenderem a mesma história de partido e manifestarem suas opiniões, acreditando na mesma democracia, e por respeito ao voto de seus eleitores, não tiveram a mesma sorte.
Eles também acreditaram que não deveriam ficar calados, apesar de serem parte do governo... E pagaram muito caro por sua obstinação e coerência! Foram descartados como robôs renegados, ultrapassados ou defeituosos.
Dirceu, seguramente, não terá o mesmo triste destino, pois permanece eminência, apesar de manter sua previsível - e infinitamente tolerada - instabilidade.
Mas tem méritos inegáveis e, desta vez, acertou em sua postura!
Só que ainda resta uma dúvida: Ele não é um robô por convicção democrática, extensiva a todos os mortais, ou porque, na verdade, só quer e aceita programar e operar o controle remoto?
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