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Márcio Salgues - Publicado em 25.08.2004




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Eu fico feliz em saber que também faço parte deste imenso Brasilzão.Só uma coisa me incomodava: o fato de não saber em qual das tantas estatísticas feitas por aí eu poderia me enquadrar.

Não consegui me encaixar entre fumantes, alcoólatras, compulsivos sexuais, obesos, nem em classe social específica, que aliás é cada vez mas difícil de se distiguir, já que a divisão mais notória é entre os que tem dinheiro e os que não tem dinheiro. Esse negócio de classe A, B, C, D e E não passa de uma forma simbólica para separar ricos e pobres. No fim de tudo, são só essas duas classes que existem no Brasil. Sendo assim, estou na segunda categoria. E, sei lá, essa coisa de não se enquadrar em nenhuma estatística é um troço meio chato. É como se você não existisse; não fizesse parte da população; fosse um não-cidadão.

Qual não foi minha grata alegria quando, recentemente, descobri que fui demitido. Enchi o peito e assinei minha rescisão de contrato de trabalho todo sorridente, todo orgulhoso. Agora sim, sou um verdadeiro cidadão brasileiro. Daquele que vai ao banco enfrentar uma fila para solicitar o saque do FGTS, depois pega mais uma fila para realizar o saque e ainda outras filas para receber a Esmola-Desemprego, digo, Seguro-Desemprego. Enfim. Agora eu existo. Faço parte da estatística de desempregados. Acho até que mereço alguma homenagem. Devo ser o desempregado de número 12.000.001 do maior país pobre da América Latina; um dos maiores do mundo. Como aquele cidadão idoso que aparece cheio de orgulho na propaganda da Petrobrás como sendo o funcionário número um da empresa.

O engraçado é que estou estudando para um concurso público federal, aproveitando o surto presidencial de engordar a máquina estatal. Mas tenho lá minhas dúvidas. Se eu me tornar um funcionário público federal honesto não terei essa sensação maravilhosa de tomar um pé na bunda. Isso é um privilégio dos mortais da iniciativa privada, onde o que conta na hora da degola não é a competência profissional, mas a manuntenção dos lucros da empresa. É a história de sempre: a carga tributária está sufocando, os lucros estão diminuindo, o quadro de funcionários precisa ser enxuto ou a empresa vai à falência, etc. Ainda tem aqueles dilemas dos chefes que vêem no subordinado um rival em potencial e passa a hostilizá-lo. Ah, eu adoro a iniciativa privada!

Mas vamos adiante. Talvez, dentro de alguns meses, eu me torne um um funcionário do governo e vou ter que arranjar outros argumentos para reclamar. Poderei fazer greves daquelas que só prejudicam a população – que sempre paga o pato –, como as pobres almas condenadas que estão à penar nas filas dos postos do INSS neste exato momento. Poderei também reclamar dos míseros reajustes salariais a cada oito anos, ainda que meu salário seja bem superior aos microscópicos R$ 260,00 do povão; e também da minha futura aposentadoria, que apesar de já devidamente ajustada às novas regras da previdência, ainda assim me farão um cidadão privilegiado em relação àqueles passaram a vida inteira trabalhando na iniciativa privada. Sei não. Acho que deve ser um saco ser funcionário público. Ouvi um outro candidato bastante empolgado outro dia. Ele dizia que era bom, o salário era interessante e ainda tinha os “por fora”... Com candidatos dessa estirpe o país não precisa de bandidos.

Mas estou num momento de reflexão, de tomada de rumos. Estamos em ano de eleições municipais e o país anda meio mal-assombrado, ou melhor, bem-assombrado por Anacondas, Vampiros, mercenários públicos, digo, funcionários públicos que recebem dinheiro de Shoguns, bandidos de uniformes militares... A coisa está feia. Acho que o mais seguro mesmo é dedicar-me à mendicância profissional, como o aleijadinho que fica em frente de uma agência bancária lá no centro do Recife. Tem casa própria, dois filhos estudando em escola particular e no fim do dia, com a féria no bolso, pega seu Gol ano 1999 e vai para casa. Para o descanso do guerreiro.


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