Fahrenheit 11 de Setembro: a Oceania é aqui! < Artigos < Duplipensar.net Português do Brasil  English 
 

 


 


Luciana Silva de Oliveira - Publicado em 02.08.2004




Publicidade


Não acredito que George Orwell tenha tido qualquer pretensão premonitória quando escreveu "1984". Certamente era só um esclarecido que ainda podia perceber que algo grande estava por vir.

Algo grande? Digo, algo grande e invisível capaz de abolir o valor de grandeza dos fatos, abolir nosso potencial de percepção. E Orwell já podia compreender esse "quê" de manipulação enquanto observador do surgir da Cultura da Desinformação que se perpetua século XXI a fora com os excessos de informação ou informações truncadas. Alguém como também o é Michael Morre, nadando contra a correnteza que leva o mundo a crer em meias verdades.

Michael Morre mostra em "Fahrenheit 11 de Setembro" que as transformações sociais e conceituais que Orwell temia há 54 anos poderiam ser fictícias, mas espelhavam uma tendência indefectível de subordinação a não sei que poder.

Não consigo apontar uma figura como Big Brother, o ser onipresente ou mero ícone que mobilizava as pessoas na Oceania a crerem em e viverem segundo um conceito de certo e necessário: certo agir seguindo as idéias do Partido, necessário pensar que há uma guerra, sempre alguma guerra.

Mas esse papel é tão bem desempenhado por agências de notícias, alguns dos "Construtores da Realidade" - para citar Bourdieu - quanto pelo Grande Irmão.

"Fahrenheit 11 de Setembro" nos dá uma noção de com quantos tubos pneumáticos se faz uma notícia de telejornal. Não que a BBC, a AFP e et cetera tenham o poder de apagar efetivamente o passado que lhes desagrada os interesses, mas nada mais fácil é do que encobri-lo com muita poeira até o ponto de não o podermos distinguir.

Inacreditável, mas sentados nas poltronas do cinema, por duas horas que sejam, nos chegam informações que não chegaram por quaisquer das emissoras de Televisão ou Jornais brasileiros em dois anos de Governo Bush, isso sem falar na cobertura que possa ter sido feita pela imprensa americana, quiçá tão grotesca quanto a nossa. Não vou fazer uma crítica ingênua e dizer que os media enganam seu público, que mentem sobre fatos sem o menor pudor, simplesmente por que, por razões econômicas, devem encaixar-se nos moldes de não contraventor. O falsete está em, para citar exemplos claros, nos mostrar suas imagens de luzinhas verdes nos céus de Bagdá, quando significavam não mais do que mortes de civis, ou pelo menos um bilhete de "Olá, estamos infernizando a sua vida" em inglês para iraquiano não ler; ou narrativas de dois minutos sobre estar sendo questionada a legitimidade da vitória de George W. Bush nas eleições para presidência estadunidense de 2000, quando uma fraude desmedida como a que tenta comprovar Moore só não é menos grotesca do que as que foram vistas em nosso memorável passado (passado??) político de disputas oligárquicas.

Em que momento a mídia levou a sério quaisquer das suposições de fraude nas eleições? E agora Michael Moore resgata as imagens que não sei que Grande Irmão fez a mídia lançar por tubos pneumáticos. E resgata imagens que esclareceriam a população que segue meneando a cabeça, abismada com a evolução tecnológica na comunicação e na industria bélica, que julgo terem representado maior parte do conteúdo das notícias sobre Guerra do Iraque em Março e Abril de 2003. Esclarecimento que não passa da função da Imprensa enquanto detentora do posto de informador do universo público.

E por falar em "Guerra do Iraque". Na época o questionamento seria devido: Guerra contra quem? Pelo que? Até quando? Soa improvável, mas essa Guerra pareceu mais inexplicável e ao mesmo tempo mais justificável quanto quaisquer das Guerras que pudessem existir entre Oceania e Eurásia, Eurásia e Lestásia, Lestásia e Oceania.

Em grande passagem do seu documentário, Moore entrevista pessoas cujo raciocínio nos lembra o duplipensar de Orwell, acreditando na importância da Guerra; soldados inconformados por perceberem que mesmo "levando o bem e a libertação para o povo iraquiano", eles seguiam com seus simbólicos movimentos de represália. Duplipensar? Não é para tanto. Para se desenvolver dois pensamentos contraditórios, Orwell deixa claro que é preciso ter consciência disso, só assim se tem convicção de ambas as idéias, mas ainda assim não agir com consciência de sua própria inconsciência, ou não se permitiria o pensar ambíguo. Chamaria o que a mídia nos impõe de Meiopensar, porque nem ao esforço de pensar com dois parâmetros fazemos. Simplesmente absorvemos e se um súbito lampejo crítico nos ocorre, não nos demos ao trabalho de cometer Crimedéia. Exemplo? Por quanto mais tempo eu e você estaremos falando sobre "Fahrenheit 11 de Setembro"?

Ficha técnica do filme Fahrenheit 11 de Setembro:
Filme: Fahrenheit 11 de Setembro
Título original: Fahrenheit 9/11
País: EUA
Idioma: Inglês
Ano: 2004
Direção: Michael Moore
Roteiro: Michael Moore
Gênero: Documentário
Elenco: Michael Moore, George Bush, George W. Bush, Dick Cheney, Al Gore, Osama bin Laden, Saddam Hussein, Condoleezza Rice, Paul Wolfowicz, Donald Rumsfeld, Britney Spears, Ben Affleck, Laura Bush, Stevie Wonder, Colin Powell, Jeb Bush, Ricky Martin, Robert De Niro, John Ashcroft, Bill Clinton...