A história dos ícones < Artigos < Duplipensar.net Português do Brasil  English 
 

 


 


Paulo Alexandre Filho - Publicado em 17.07.2004




Publicidade


Os poemas de Homero eternizaram os heróis guerreiros e políticos. Na Ilíada, narrativa homérica da Guerra de Tróia, além das ambições políticas e militares, os imortais personagens vislumbravam exatamente o propósito de figurar na história. Queriam que as gerações vindouras consagrassem seus nomes e, deste modo, teriam vencido o esquecimento trazido pela morte sem glórias – morte de qualquer homem comum.

Ainda entre os gregos, seria inconcebível, evidentemente, que Leônidas, o grande rei espartano, deixasse de ser percebido pelo feito de ter enfrentado o poderoso exército persa e ajudado a impedir que a Grécia fosse conquistada pelas forças de Xerxes. Leônidas morreu em combate na memorável batalha das Termópilas e no seu túmulo, no campo de batalha, foi registrado: “Viajante, dizei aos espartanos que aqui morremos para cumprir suas leis”. Esta frase lapidar deixa clara a intenção: os heróis de Termópilas não teriam tombado à toa, pois os espartanos reconheceriam seus nomes e o sacrifício ao qual se sujeitaram antes (e para) entrar para a história. Os exemplos de grandes ícones que consagraram seus nomes e existências à eternidade são diversos e a ocorrência de tais figuras emblemáticas na história é significativa para que possamos perceber que o impulso por tal consagração foi sedutor tanto para os ícones quanto para a própria historiografia.

Deixar a vida e entrar para a história parece pretensão, mas o passaporte para o solene ingresso na eternidade histórica é bastante peculiar. Durante muito tempo somente grandes lideranças políticas e os notáveis heróis possuíam a distinção que permitia com que viessem a se tornar “vultos históricos”. De fato, boa parte da história produzida até hoje possui um caráter de história política ou registros, narrativas e análises de acontecimentos singulares e notáveis. O “comum” somente veio a ser incorporado à história escrita há poucos anos, embora seja evidente que a história política não veio (e nem deveria) ser abandonada por completo.

Os historiadores marxistas tentaram subverter (atitude típica entre nós, marxistas) a lógica da historiografia política e bélica ao intensificar estudos que não contemplavam os mesmos objetos que chamavam a atenção dos historiadores tradicionais e decidiram manter suas atenções voltadas para o problema da análise do processo de transformação e situação das sociedades a partir da relações estabelecidas pelas estruturas sociais, notadamente pela infra-estrutura econômica. Se a história da humanidade, como afirmava o velho Marx, tinha como “motor” a luta de classes, então este deveria ser o foco na análise histórica e os homens isolados, os heróis, os soberanos e suas peripécias inesquecíveis eram apenas atores em cena e não o próprio enredo da história.

A historiografia marxista ofereceu uma série de perspectivas importantes para a compreensão de nosso passado, ajudando a derrubar a ilusão de que os grandiosos homens que inspiraram epopéias e estátuas em locais públicos construíram a história sozinhos. Mas o enfoque de ênfase econômica dos estudos realizados pelos historiadores marxistas não abarcou, como seria evidente, todos os aspectos da vida das sociedades ao longo da história. Muito embora o marxismo tenha conseguido perceber as massas populares como integrantes ativos na construção da história, embora dominados ou alienados, não empregou um olhar que ia muito além das balizas teóricas e ideológicas pertinentes ao que se tinha como quase dogma entre os inspirados seguidores de Marx. O fato é que aspectos também importantes da vida cotidiana das sociedades na história não estavam dentro do foco marxista e uma nova história passou a ser escrita. Com novos e ousados métodos de estudo, os aspectos ordinários e não apenas os singulares também interessaram aos novos historiadores e aos historiadores pós-modernos, embora tenha sido implantada uma postura francamente improdutiva de se partir para o desprezo a qualquer coisa que “pareça” marxista desde o “fim” da esperança do socialismo real. Seja como for, o fato é que a história que se produz hoje atingiu um espectro de abrangência fabulosa e colocou quase todos os seguimentos sociais em seu âmbito.

Ainda assim, a história do cotidiano e do ordinário não inibiu a evidente constatação de que não há mesmo como deixar de notar os ícones históricos como aquilo que são – ícones. O eminente historiador francês Fernand Braudel, grande nome da chamada “Escola dos Annales”, afirmou em sua última conferência, em outubro de 1985 (um mês antes de sua morte), que “muitos políticos têm a impressão de que os historiadores de amanhã têm os olhos fixos neles”. Deixando de lado a idéia de que há entre estes políticos muitos que terão que se contentar somente com a impressão de que merecerão ser notados pelos historiadores e mesmo sabendo que os ícones são frutos de seu tempo e das contingências objetivas e subjetivas de suas épocas e circunstâncias históricas, há como ignorar que alguns indivíduos conseguem reunir em si uma série de atribuições (positivas ou não) capazes de torná-los, para a história, singulares e, por isso mesmo, ícones? Os futuros historiadores falarão dos conflitos entre EUA e Iraque sem destacar a atuação dos Bush (pai e filho) e do ditador Saddan Hussein? A história escrita do Brasil deixará de registrar a singularidade de um torneiro mecânico alçado à presidência? O propósito de “deixar a vida para entrar para a história” de Getúlio Vargas ante a decisão do suicídio não foi plenamente cumprido?

Há os grandes ícones para os antigos, os atuais e os futuros historiadores. Embora cada um e todos nós tomemos parte da história, precisamos reconhecer: haverá sempre alguém mais intensamente disposto e pretenso a ser eternizado que a grande maioria da população e estes continuarão a ser tomados como ícones. Sinal de que outras epopéias serão narradas e que novas estátuas serão construídas. Assim segue a história.