| |
| |
| |
|
|
|
| |
|
|
Pão, circo e carnaval eleitoral
Márcio Salgues - Publicado em 28.09.2004

Publicidade

Sinceramente, algum de vocês, caros leitores, ainda agüenta esse formato de campanha eleitoral que temos assistido? Desde que se iniciou oficialmente a corrida pelas prefeituras e cadeiras nas câmaras de vereadores, ora sorrio, ora tenho acessos de revolta. Tudo porque a nossa democracia eleitoral autoritária nos empurra, goela abaixo, essa pabulagem falaciosa e teatral que vemos diariamente.
Com a volta do regime democrático, de fato, depois dos longos anos da falsa democracia, quase orwelliana, dos militares, as intenções, obviamente, foram boas ao se permitir que os candidatos produzam seus filmes comerciais como achem melhor, se xinguem mutuamente, componham aqueles jiglezinhos irritantes, mintam despudoradamente, manipulem números, etc. Porém, passados vinte anos do fim ditadura militar, talvez seja hora de se rever alguns pontos desse modelo eleitoral.
Poderia-se, por exemplo, começar abolindo as produções comerciais enganadoras. Ora, eu quero escolher o prefeito da minha cidade, não quero comprar uma caixa de sabão em pó. Ao invés de filmes com criancinhas, com fardamento impecável, numa sala de aula bonita e degustando uma apetitosa refeição na hora da merenda – imagens sempre forjadas para as gravações, os candidatos apareceriam no estúdio com a legenda e número ao fundo e falariam dos seus projetos e/ou feitos anteriores, também iriam às ruas mostrar e falar dos problemas, etc. Além dos debates, que são a parte mais importante e honesta do atual processo para com o eleitor. Nada de máscaras, fantasias, coros sorridentes ou efeitos especiais. Deixe-se o candidato falar por si só.
Outra contribuição importante ao processo eleitoral seria a proibição de ministros, parlamentares e, principalmente, Presidente da República interferindo no pleito. Apesar da minha simpatia pelo PT e das desculpas esfarrapadas do presidente Lula, no episódio do pedido de votos para sua partidária em São Paulo, esse tipo de atitude é bem parecido com o que se convencionou chamar de “uso da máquina administrativa”. É inconcebível, inaceitável, que o Presidente da República, não importa qual seja seu partido, faça o ridículo papel de garoto propaganda. O Poder do Estado deve se manter alheio. Não manifestar preferências ou tentar induzir a opinião pública. A preferência e a escolha cabem ao povo e somente a ele.
E ainda me pergunto: como o voto democrático pode ser imposto? Tolero, mais uma vez, que a louvável ânsia pela liberdade de votar tenha gerado esse mecanismo. Mas o processo eleitoral precisa e deve evoluir para uma democracia mais plena. Para uma mais nítida manifestação da vontade popular. Por que a orientação à população sobre a importância do voto se omite e não explicita a utilidade do voto nulo como instrumento democrático de manifestação da opinião? A noção popular de voto nulo causa até urticária em muita gente, mas, se meus candidatos a prefeito são, sabidamente, integrantes da casta podre que eu abomino e se revelam, invariavelmente, os mesmos repugnantes de sempre, eu quero votar nulo e dizer que não aceito “isso que está aí” nem “isso que pretende assumir”.
Enquanto nosso sistema eleitoral não exige, tampouco oferece, uma postura mais crítica aos cidadãos, nossos honoráveis políticos, já tarimbados na arte do engodo, assim como os aspirantes a políticos, que ainda engatinham nessa mesma arte, ludibriam os eleitores com promessas doidivanas, exploram a miséria e os miseráveis e lhes oferecem pão, circo e carnaval para, mais tarde, cobrar a fatura dos cofres públicos. Do nosso dinheiro. Alguma coisa parecida com o dito popular “atingir o orgasmo com o órgão sexual alheio”. Haja paciência.
Leia também:
• Carnaval - pelado sim - pelado não - Antonio Brás Constante
• Carnaval: de culto pagão à festa popular - Eduardo de Araújo Carneiro e Egina Carli de Araújo Rodrigues Carneiro
• Chegou o Carnaval - Mário Souza
• Um rei do carnaval - Adilson Luiz Gonçalves
• Entre o carnaval e os carnavais - Márcio Salgues
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|