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Adilson Luiz Gonçalves - Publicado em 03.09.2004




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Diz a lenda que os aliados venceram a II Guerra Mundial, porque conseguiram desvendar um código secreto considerado indecifrável pelos nazistas, sem que eles soubessem disso. Além disso, também criaram e aprimoraram seus próprios códigos, transformando a criptografia numa ciência respeitada: a ciência do engodo.

A necessidade de iludir os inimigos não ficou só por aí: idiomas e dialetos desconhecidos também foram utilizados com o mesmo propósito. Assim, o sucesso no embate direto era obtido fazendo o adversário não entender nada do que estava sendo planejado ou entender tudo errado. Às vezes, nem embate havia... A única forma de evitar ser ludibriado vinha da espionagem, treinada ou cooptada, esta última também conhecida como traição.

Bom, alguém me decifre o discurso político, por gentileza!

O apelo se justifica por vários motivos:

Primeiro: Todos os candidatos fazem discursos extremamente parecidos, mesmo os que afirmam estar, ideologicamente, em extremos opostos;

Segundo: Depois da posse, com raríssimas exceções, eles esquecem os compromissos assumidos com os eleitores, mas nunca admitem isso;

Terceiro: Diante das câmeras e microfones afirmam uma coisa, mas nas votações fazem o contrário, sem perder a pose;

Quarto: Depois de fazerem o oposto do que prometeram, voltam a pedir votos, com o mesmo discurso; tripudiando com o eleitor ao afirmar: "- Você me conhece!".

Será que política é algo claro ou é mais uma linguagem cifrada da criptografia do engodo? Promessa política é dívida ou dúvida?

Digo isso porque duvido que algum eleitor vote num candidato que prometa apoiar o aumento de alíquotas de tributos ou a criação de novos. Não vota, tampouco, naqueles que falam de austeridade financeira, para nós; mas aumentam, sem o menor escrúpulo, seus próprios proventos, ou só de quem interessa.

Votar, até, vota... Mas por acreditar em promessas de campanha que, invariavelmente, viram desculpas de mandato, de candidatos que acham normal prometer o que não podem ou não irão cumprir, sem que isso abale sua "credibilidade". Prova disso é que os que votam contra os interesses do eleitorado, insistem em afirmar que estão cumprindo, fielmente, suas plataformas de campanha e os anseios de suas "bases"...

Mas, afinal, quem são essas "bases"? E os interesses do povo? Eles estão representados nos "lobbies" que exercitam tão habilmente seu poder de convencimento?

Não sei... Mas enquanto a correção da tabela do Imposto de Renda não evolui, o que é de interesse do povo; a taxa de inspeção veicular e outras investidas no bolso popular encontram respaldo, convicto, entre "má" parte dos congressistas. Enquanto os "lobbies" prosperam, o povo só "leva chapéu"...

Será que os políticos não se incomodam com a nódoa de "balcão de negócios" que circunda as casas de leis do país? Será que acreditam de fato que estão representando e cumprindo a vontade do povo? Ou será que já assumiram a criptografia como linguagem formal: dizer uma coisa pensando noutra?

Se a última opção for a correta, então o povo, que ainda não entende essa linguagem cifrada, esse dialeto político, precisa de mecanismos mais efetivos e diretos, para controlar seus eleitos durante os mandatos. Se não for pelo decoro e coerência - que é facultada a eles próprios - que seja por outros dispositivos disponíveis na Constituição. Assim, se matéria orçamentária - incluídos os aspectos tributários - só pode viger para o exercício seguinte, que propostas de taxas, tarifas e tributos sejam objeto de plebiscito!

O quê? Como isso vai ser impossível governar? Os políticos eleitos já são legítimos representantes do povo?...

Mas que legitimidade é essa? Apenas do voto, sem representatividade ou coerência efetivas?

O atual momento democrático tem mostrado que, se a eleição é legítima, o exercício do mandato raramente é coerente. Prova disso é o nível abissal da credibilidade da classe política brasileira.

Os plebiscitos e referendos são instrumentos democráticos, embora caros, em princípio; mas nada impede que sejam associados a processos eleitorais regulares, reduzindo os custos.

A maior rejeição a essa proposta virá, obviamente, de membros própria classe política, que não apreciarão ver sua influência reduzida ou desautorizada, pelo exercício direto da democracia; mas, quem sabe essa luz sobre a sombra acabe com esse dialeto incompreensível, que distorce e adultera os anseios populares. Talvez, afinal, esses dispositivos nem sejam necessários, desde que essa casta renitente de políticos volúveis deixe de ser mera atravessadora e cambista, para ser, efetivamente, porta-voz dos eleitores. E alguém disse, há muito tempo: "- O poder emana do povo e em seu nome deve ser exercido!".


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