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Márcio Salgues - Publicado em 06.11.2004




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Nossa vida é a moeda de aposta no tabuleiro do jogo sobre o qual nossos digníssimos políticos lançam os dados diariamente. Quer dizer, diariamente também não. Digamos, duas vezes por semana em média, dependendo da disponibilidade dos cavalheiros ou do volume de MP’s trancando o jogo.

O problema da política talvez seja, justamente, essa perfeita analogia a que se permite com a jogatina. O investido de um cargo político é, sobretudo, um jogador viciado e compulsivo, cujo único intuito é amealhar a maior fatia de poder que lhe seja possível. E para isso ele não poupará esforços, dinheiro ou mesmo antigas convicções éticas e morais. Tudo é negociável nesse jogo.

Todos são políticos enquanto não investidos de cargos políticos. Depois disso são jogadores.

Não interessa a legenda a qual pertençam esses cidadãos. Por mais bem intencionados, preocupados com a gangrena da injustiça e desigualdade social e engajados na luta por uma sociedade igualitária que tenham sido outrora, uma vez dentro do cassino, sua prioridade é a manutenção do poder e a expansão dos seus territórios.

Esqueçam as ideologias. Elas existem apenas nas nossas cabeças. A ideologia político-social que impulsionou grandes movimentos sociais históricos morreu. Os líderes revolucionários do passado são os jogadores de hoje. Talvez por falta de uma baioneta a espetar-nos as costas, a arte política se tornou a arte do jogo e o país uma grande Las Vegas com jogadores de todos os tipos. Uns fazem pequenas apostas em caça-níqueis outros apostas vultosas nas mesas de pôquer.

Em segundo plano, sobre as feridas apodrecidas da sociedade se apõem inócuos curativos coloridos, que possam estar sempre à mostra como uma espécie de prova do bom trabalho executado. Ora, o bom trabalho executado deveria proporcionar um maior bem estar social e não manter os condenados no limiar da sobrevida, ou da quase morte.

Alguns dirão que ninguém pode curar um câncer social em quatro ou oito anos. Estarão certíssimos os que assim afirmarem. E, apenas corroborarão minhas palavras: os investidos se sucedem e sua única preocupação consiste em mudar a cor do curativo; verde e amarelo, azul e amarelo, vermelho e, sabe-se lá quais serão as próximas cores. A carne, porém, continua sendo carcomida sob as cores alegres dos slogans nacionalistas.

O presente momento histórico nos joga diante dos olhos essa ambição desenfreada pelo controle das principais capitais brasileiras. Pelo controle dos cofres públicos. Pelo controle das maiores massas de eleitores. Certamente não é o bem estar social que está em jogo. O que está em jogo é a manutenção dos interesses partidários e do poder pelos próximos anos, bem como o proveito que um grupo pequeno de pessoas auferirá dele.

As propaladas parcialidades individuais de quaisquer setores da sociedade, assim como a eterna queda-de-braço entre situação e oposição só revelam que são interesses de grupos que estão em jogo. Afinal, se fosse o interesse coletivo, não haveria tal tensão de forças antagônicas, mas, divergências racionais para o aprimoramento desse mesmo interesse, pois, só para dar um exemplo mínimo de interesse coletivo, todos hão de ser unânimes quanto à necessidade urgente de saúde e segurança pública.

Tomem nota em suas memórias: daqui a vinte anos, na melhor das hipóteses, o país ainda estará com sua média de 10 milhões de desempregados, além dos muitos milhões de sub-empregados, empregados temporários e biscateiros; ainda terá seus 50 milhões de cidadãos vivendo na indigência material e os nossos políticos ainda estarão prometendo 10 milhões de empregos, crescimento sustentado, fome zero e economia estável com juros sufocantes. Esses são requisitos básicos para a manutenção do poder. Que se lancem os dados!


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