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Depois do Império. Se ele cair, o que acontece?
Mark Manahan - Publicado em 16.12.2004

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“Quanto a nós e ao nosso Império, ainda que ele deva deixar de existir não olhamos para esse fim com aflição”. Atenienses aos Mélios, Tucídides, Livro V.
Resposta para a pergunta do título: não sei. A futurologia não é um exercício sério, embora quase todo comentarista o faça...“se Bush isso, então aquilo...” “se os EUA atacarem x então o mundo explode...” etc. No fundo, previsões sobre o futuro, ou análises como gostam de nomeá-las, são sempre posturas sobre o presente. E aqui não será diferente ao tratarmos o problema de uma possível sucessão do domínio americano.
Também não tenho a menor certeza sobre quem – grupo, povo, religião, comunidade, ideologia, nação – o sucederá, mas tenho certeza de uma coisa: no jogo político da dominação mundial os próximos impérios não arriscarão tanto quanto os americanos, investindo largas somas em fundos humanitários e permitindo imprensa livre, cobertura dos campos de batalha. Deverá ser algo mais próximo do que os russos fizeram. Um regime fechado, censura sobre as notícias, privilégios aos membros do partido e controle do mental sob todas as formas, embora preparados para vazamentos de notícias e com uma aparência maior de liberdade. Nunca estive na Europa Oriental nos tempos do Comunismo mas um tio meu, diplomata por muitos anos em um país do leste europeu, costumava me dizer que a liberdade sexual era estimulada, havia um incentivo a que os jovens se dedicassem ao sexo, para não ter grandes preocupações políticas, ou grande energia para se dedicar a política. Funciona com a maioria.
Reconheço nos EUA assim como em Roma da antiguidade uma força positiva para o engrandecimento do gênero humano, para o estímulo do potencial máximo da humanidade e mesmo para um reconhecimento das forças contra ou a favor desse potencial. É por isso que não acredito que um dia haverá uma comunidade mundial de estados ou grupos formada numa base totalmente igualitária. As atuais convenções de tratados já são um avanço muito grande nesse campo, mas não penso ser possível avançar mais na igualdade de direitos sem uma unificação mundial. Aliás, quando falo da sucessão de impérios, não estou sendo de modo algum original. A idéia já foi manifesta em forma de pensamento político pelo grande Tucídides, no século V a.C. conforme segue:
“Dos deuses nós supomos e dos homens nós sabemos, que por uma imposição de sua própria natureza, sempre que podem eles mandam. Em nosso caso, portanto, não impusemos esta lei nem fomos os primeiros a aplicar seus preceitos. Encontramo-la vigente e ela vigorará para sempre depois de nós. Pomo-la em prática então, convencidos de que vós e outros, se detentores da mesma força nossa, agiríeis da mesma forma.” . Atenienses aos Mélios, Livro V.
O trecho acima é parte do Diálogo Mélio. Nome pelo qual ficou conhecido o trecho final da História da Guerra do Peloponeso. A discussão se trava entre desiguais. Atenienses pedindo a rendição dos Mélios sem luta e os Mélios pedindo aos atenienses que os deixassem livres, condição impossível para a estratégia naval do Império Ateniense, sendo os Mélios uma ilha.
Apesar de ter usado a discussão sobre o Império a partir da perspectiva ateniense, ressalto aqui, que a comparação entre os impérios ateniense e americano é um tanto falha, sendo mais adequado comparar o império de Roma com o dos EUA. Pois ambos são impérios baseados na inclusão, na base da troca de pessoas. Parte dos romanos ia para os países conquistados e parte dos conquistados era mandada para Roma ou tinham livre acesso para lá ir e residir. Os atenienses, assim como os gregos em geral eram profundamente xenófobos, restringindo de todas as formas possíveis a concessão de cidadania. Assim como o tema da religiosidade e manifestações culturais que em Roma era livre, escolhesse você o deus que quisesse. Caso raro na antiguidade. Assim como nos EUA tal escolha é livre, ao passo que em Atenas a religião serviu como pretexto – um forte pretexto – para a condenação de Sócrates.
Voltando então ao problema de uma possível sucessão. Russos, Chineses, Árabes? Uma extrema-direita americana? Essa última alternativa é amplamente ignorada pelos que comparam Bush a Hitler, aliás um absurdo que por si só mereceria um artigo. Peguem o texto de algumas leis promulgadas pelos nazistas sobre os judeus. Não é nem será possível encontrar qualquer lei americana, desta administração e mesmo de muitas anteriores apoiando leis raciais. Ao contrário, os EUA têm progressivamente investido na inclusão, e Bush tem mesmo propostas no sentido de legalizar a situação de vários imigrantes ilegais. Coisa que é preciso ressaltar: desagradou muito a verdadeira direita xenófoba. E mais ainda a esquerda, pois cada ação positiva de um republicano transforma-se num tijolo contra o muro de ignorância que a mídia tenta erguer em torno deles. É confuso dizer que um presidente bilíngüe – normalmente chamado de ignorante e QI limítrofe – que busca incluir os imigrantes pobres que trabalham, possa ser comparado a Hitler. Onde estão as câmaras de gás? Os campos de concentração? Guantánamo? O tratamento ali dado reserva-se não a uma minoria racial ou nacional, mas a todos os envolvidos em atos de terrorismo ou suspeitos disso, apanhados em operações militares. Ou seja, quem está preso ali não o está por sua condição de nascimento ou religião, mas por suas ações. E acrescento que não merecem de forma alguma o status de prisioneiros de guerra, pelo simples fato de que as operações militares regulares foram unilaterais, realizadas pelos EUA. Os “combatentes” do Terror, utilizavam-se de táticas de banditismo, como explodir pessoas, seqüestrar e assassinar civis. E como bandidos devem ser tratados (não como bandidos brasileiros porque aí vira bandalheira, sacanagem e privilégio).
Hitler conseguiu isolar os milhões de judeus da Alemanha, impondo-lhes até símbolos como os da estrela amarela nas roupas e um regime de trabalhos forçados. Quanto aos 6 milhões árabes dos EUA, eles vão muito bem, obrigado. Pergunte a qualquer deles se querem voltar para os países de origem? Nenhum deles é obrigado por lei a esconder seus costumes, símbolos etc. Ao passo que na França – consciência e palmatória do mundo – a proibição já está em vigor. Não sei dizer quantas mesquitas existem nos EUA tal o seu número. Mas na Arábia Saudita templos cristãos estão proibidos por decreto. Ok, lá é a sede da religião muçulmana, terra sagrada, etc... Bem, em Jerusalém há mesquitas e na sede da cristandade também há. Diga-se de passagem, que o Papa fez campanha pessoal para qe houvesse diante de protestos de alguns cardeais. Falo tudo isso não preocupado com a religião, mas preocupado com a tolerância e principalmente com mentiras sobre a intolerância. Criadas pelos intolerantes para minar o Ocidente. E infelizmente tais mentiras encontram eco em pessoas tão frustradas de não conseguirem regrar tudo pelo próprio nariz que são capazes de divulgar qualquer coisa na sua amargura existencial.
A lista de sucessores nomeada acima é bastante infeliz, russos árabes chineses e a ultradireita americana, todos se parecem. Tentemos a União Européia. União? Bem, quando a idéia surgiu em embrião a partir da década de 1950 era boa, e seguia os padrões do modelo federal americano, coisa que muitos não sabem e outros fazem questão de omitir. Atualmente alguns países fazem questão de se alinhar contrários ao que chamam de “unilateralismo americano”. É bobagem, são países que acusam os EUA de imperialista para exercer também seu poder de império sossegados, como a França. Sim, seis explosões nucleares em 1998, apesar de no mundo inteiro – de forma surpreendente – terem havidos protestos. Claro que nada na escala das manifestações antiamericanas, mas para os franceses é fácil ser imperialista...não há franceses para protestar !
Claro que isso é uma piada americana, alguns dos críticos mais audazes da França e da Europa vêm da própria França como Jean-François Revel. Mas de certo modo o barulho feito contra os EUA é sempre maior embora os franceses continuem na corrida armamentista, vendam armas aos montes – o próprio Iraque estava cheio delas – continuem como patrulha “polícia do mundo” na África, onde foram a 2a. maior potência colonial e por aí vai. Poucos países combateram tanto para manter o seu império colonial pós 2a guerra mundial como a França. Vietnã, a chamada Guerra da Indochina (1946-54), Argélia, onde enfrentaram os primórdios do terrorismo árabe (1954-62) e vários outros pequenos conflitos na África.
Enquanto EUA x URSS se enfrentavam na Guerra Fria, a França travava suas próprias guerras sossegada, sem o risco de ser chamada de imperialista perto dos dois grandões. Há menos de duas semanas, em Serra Leoa, torna a acontecer o mesmo. A morte de nove soldados franceses em um ataque de surpresa do governo, levou à resposta rápida de Chirac – tão pacifista ele é - e destruiu a força aérea dos africanos. Sem consulta à ONU, nada. Serviço feito, conflito retomado após 18 meses de paz. Americano é idiota mesmo, tem muito que aprender com a França no tópico imperialismo!
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