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Intolerância humana em Hiroxima Intolerância humana na tortura Intolerância humana em Hiroxima Intolerância humana na tortura Intolerância humana em Hiroxima Intolerância humana na tortura Intolerância humana em Hiroxima Intolerância humana na tortura  


Márcio Salgues - Publicado em 16.10.2004




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"As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras”
Friedrich Nietzsche

O mundo seria mais justo e mais seguro se não houvessem surgido inúmeras religiões e fosse regido tão somente pela razão e a ética. É óbvio que isso é um delírio de minha parte, visto que o homem se diversifica culturalmente de forma dinâmica e, com essa diversificação cultural, sua capacidade criadora de pensar o leva também aos seus próprios delírios. Voltaire, em sua obra “Deus e os Homens”, afirma que não houve idéia melhor que pudesse por um freio aos homens, a fim de julgar seus sentimentos mais ocultos, do que a idéia de um deus que pune e recompensa a cada indivíduo. Por outro lado, essa mesma idéia que nos julga a nós mesmos, leva-nos a julgar aos outros segundo os nossos próprios parâmetros culturais e religiosos.

As nossas religiões monoteístas principalmente, cada uma a seu tempo, foram as mais intolerantes, xenofóbicas, sanguinárias e vingativas na história. Foi assim com os antigos judeus que, sob a promessa do seu deus, saquearam, dizimaram, assassinaram, estupraram e cometeram tantos outros atos bárbaros, contra tantos outros povos, para lhes tomar a terra sobre a qual eles tinham o “direito divino”, não importando o que pensavam os deuses dos demais povos. Afinal, todos os demais povos e deuses eram o “mal e a corrupção”.

Séculos mais tarde, foi a vez dos cristãos perpetrarem os mesmos crimes hediondos, com todos os requintes de crueldade inimagináveis, contra aqueles que representavam o “mal e a corrupção”: judeus, mulçumanos, índios americanos, negros ou quem quer que fosse contrário as suas convicções; que agora misturavam a fé, o pior de todos os males, e os interesses políticos escusos. Tudo praticado em nome do “direito divino”. Crimes que até hoje atormentam a consciência do nosso Papa, que vive a desculpar-se pelo que ele chama de “erros cometidos no passado”, utilizando um eufemismo para responder pelos crimes dos outros.

Hoje, em pleno século XXI, assistimos diariamente na TV loucos que lançam mão da bandeira do Islamismo para promover a barbárie também em nome do “direito divino”. A despeito da arrogância do império cristão de George W. Bush e do sadismo judaico de Ariel Sharon, são os fanáticos mulçumanos que estão moldando a imagem do Islã na opinião pública mundial, com seus homens-bombas e verdugos para quem a morte e a vida não tem nenhum significado. Eles tentam convencer e se impor ao ocidente por meio do medo, do terror, desprezando qualquer possibilidade diplomática, simplesmente porque o ocidente é o “mal e a corrupção”. Talvez contribua com isso a omissão de uma voz mais racional a falar em nome do mundo islâmico contra a mensagem de terror do fanatismo. Com isso, causas nobilíssimas, como o direito do sofrido povo palestino a seu próprio Estado livre e independente e o direito do povo iraquiano de não viver na miséria nem sob ocupação estrangeira, são banalizadas, servindo ao terror como ferramenta demagógica e destituída de qualquer senso, pois, afinal, não existe senso no terror; existe fé e, conseqüentemente, fanatismo religioso.

Se fosse possível, como sugere o biólogo inglês Richard Dawkins, “... abolir a religião... provavelmente não teríamos mais atentados suicidas”. Eliminaria-se o fanatismo religioso que deseja “impor sua crença aos outros, não importa como”, nas palavras do escritor israelense Amós Oz.

O judaísmo evoluiu como foi possível após sofrer séculos de exílios e diversas investidas genocidas. O cristianismo evoluiu como foi possível, após separar-se definitivamente do Estado e de ter sofrido também suas baixas em vidas. Os tormentos a que povo palestino é submetido e as diversas investidas genocidas que várias etnias do chamado mundo árabe tem sofrido, já deveriam ser suficientes para que o Islamismo evoluísse.

Estou consciente de que esta é uma abordagem demasiadamente superficial e simplista sobre uma questão tão abrangente e complexa. Mas esse texto não é uma tese, é apenas uma reflexão sobre essa nova sensação de “Guerra Fria” que volta a tirar o sono do planeta. Imagino que, enquanto tivermos esses dois terríveis tumores: fé e fanatismo; seja cristão, judaico ou islâmico, não haverá espaço para a diplomacia laica, a razão e o bom senso em favor de um mundo melhor para todos, pois sempre prevalecerá a máxima de Sartre: “O inferno são os outros”.


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