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A religião de Deus e o natal dos homens
Joe Rocha Rangel - Publicado em 24.12.2004

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“Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, por que serão saciados”.
Em 1954, a Corte Suprema dos EUA concluiu, em decisão unânime, que segregação racial em escola pública, prática corriqueira em dezessete estados no sul do país, infringia a Constituição Federal. Foi o famoso caso Brown contra a Junta Estadual de Educação. O critério, por força da lógica associativa, se expandiu para outras realidades. Transportes públicos, habitação, estabelecimentos comerciais, e praças públicas foram sendo aos poucos dessegregados.
O processo foi longo e traumático com a ascensão da Ku Klux Klan, a disseminação de atitudes humilhantes contra pessoas negras, e a exacerbação de tensões raciais. Muitos temiam a deflagração de uma nova guerra civil, evitada, em grande parte, por que o Dr. Martin Luther King Júnior apostava na eficácia da resistência pacífica e na revolução sem fuzis.
Tudo isso aconteceu há meio século. Razoável presumir que hoje, pelo menos na letra da lei, segregação racial seja uma convenção bizantina, devidamente expurgada da ordem social que rege essa exemplar democracia.
Não no estado do Alabama.
O estado possui antecedentes históricos que inspiram desconfiança e animosidade: em meados do século retrasado, sua capital, Montgomery, tornou-se também capital provisória dos Estados Confederados, coração e alma do antiabolicionismo, berço da resistência ao humanismo desvairado do Presidente Lincoln—o incendiário conceito de que ser humano algum deveria ser propriedade de outro.
Em 1964, o governador George Wallace despencou-se para o campus da Universidade Estadual do Alabama, para barrar, pessoalmente, a entrada dos primeiros alunos negros em seus prédios. Foi preciso a intervenção de tropas federais, por ordem do Presidente Lyndon Johnson, para impor o cumprimento da lei. Os alunos foram, enfim, admitidos nos edifícios da faculdade, sob proteção militar, debaixo de vaias, cusparadas, e insultos étnicos.
George Wallace, um homem que se apegava a seus princípios com ardor, e os defendia com energia revolucionária, alcançava, então, um índice estratosférico de popularidade no Alabama. “Risco uma linha no chão e lanço um manifesto em face à tirania [do governo federal ao impor o fim da separação racial]: —segregação hoje, segregação amanhã, segregação para sempre.”
Resíduos da vergonha conservam-se nas páginas da Carta Magna do Alabama. Uma de suas provisões declara, com frieza verbal nauseante, que “o Estado deverá fornecer escolas separadas para crianças brancas e crianças de cor, sendo que criança alguma de uma raça será admitida em escolas de outra raça.” A decisão da Corte Suprema Federal de 54 já tornara a cláusula segregacionista inepta. Ou seja, trata-se de uma lei desdentada—o sorriso banguela da ignorância refletido no espelho retrovisor dos tempos. No entanto, ela permanece lá, como uma nódoa asquerosa, um esqueleto apodrecido no armário de um laboratório de indignidades: a radiante memória da insensibilidade humana.
Assim é que entidades progressistas do brioso estado sulista introduziram uma emenda que viria a extrair o infame parágrafo da declaração de princípios do seu regimento maior.
Já estava na hora, imaginavam.
No dia 2 de novembro de 2004, os eleitores do Alabama fizeram sua escolha para Presidente da República, e, adicionalmente, responderam a um plebiscito direto e objetivo: o Alabama deve retirar a linguagem segregacionista de sua Constituição? Sim, ou Não?
O Presidente Bush venceu disparado no Alabama, mas a mudança constitucional, cujo objetivo era tão somente remover de seu código legal o resquício de seu passado racista, foi rejeitada, ainda que por margem estreita.
Com minha limitada capacidade de entender o pensamento humano, não encontro razão justificável para o fenômeno. Talvez a expressão velada daquilo que não ousam declarar de público, e manifestam protegidos pelo anonimato do voto: que a convivência inter-racial é um desconforto, eles a toleram como uma imposição irremediável das cortes legais, mas no íntimo a deploram. Deve ser muito estranho para os descendentes de africanos, trazidos a esse país na marra, viver no estado do Alabama. A doutora Condoleezza Rice, Conselheira de Segurança Nacional, e futura Secretária de Estado do Presidente Bush (em substituição a Collin Power, outro negro) nasceu em Birmingham, Alabama, no mesmo ano da histórica decisão da Corte Suprema de tornar segregação de raças um caso de polícia.
Ironicamente, os estados do baixo sul, Geórgia, Louisiana, Mississipi, Carolina do Sul, e, claro, o Alabama, é a região do país mais intensamente religiosa, composta de cidades onde há mais igrejas do que restaurantes, pois o espírito requer mais alimento do que o estômago. Elas abrigam a celebrada “maioria moral”, a militância cristã organizada, que hoje se vangloria de ter reeleito o Presidente Bush, pleiteia obséquios políticos da Casa Branca, e tenta modelar a sociedade inteira conforme seus escrúpulos dogmáticos.
Acreditei, ingenuamente, que a Associação das Igrejas Evangélicas do Sul, altamente prestigiadas em termos políticos com a vitória de George Bush em 2 de novembro, estaria na linha de frente do combate ao racismo. Mas a prioridade da direita religiosa, nessa época de compras de fim de ano, não são os oprimidos, ou os que têm “fome e sede de justiça”, mas o secularismo e as lojas de departamento.
Uma igreja na Carolina do Norte publicou um anúncio de página inteira nos jornais locais, financiado pela congregação, recomendando aos cristãos um boicote às lojas Macy’s.
Material pornográfico no departamento infantil? Nada disso. A rede deseja aos seus clientes boas festas, ao invés de feliz natal. O happy hollidays dá um tom abrangente a uma comemoração que, na verdade, se tornou quase que universalmente neutra na Europa e nas Américas, algo desprovido de conotações religiosas, em que judeus, budistas, e ateus participam, sem crise teológica. O repicar dos sinos de Belém mistura-se ao som da caixa registradora, e a mensagem do filho do carpinteiro confunde-se com o anúncio de equipamento eletrônico das lojas de computadores.
E confundimos os símbolos com o significado; a liturgia com a doutrina; Deus, com um slogan.
A suntuosa árvore de natal nos quintais da Casa Branca ilumina o inverno áspero de Washingon DC, mas quando o “rei dos judeus” nasceu, não houve fenômeno óptico algum na atmosfera terrestre: uma escassa estrela encravada no céu do oriente guiou os Reis Magos a Judéia. E foi só.
Enquanto esteve entre nós, o nazareno nunca curtiu a amizade dos fariseus, grupo religioso que vivia na mais estrita observância das escrituras e da tradição.
Atormentados pelo “Código de da Vinci”, e uma cultura em permanente transformação, os fariseus de hoje, revigorados pelo resultado de 2 de novembro, mobilizam a patrulha moral contra alvos equivocados. Para eles o peito da Janet Jackson, as vitrines da Macy’s, e bichas se casando em São Francisco, são transgressões infinitamente mais graves do que pessoas catando restos de comida nas latas de lixo do país mais rico do mundo, ou a singela noção de que preto tem mais é que viver do lado de lá das cidades dos brancos, na periferia encardida, no limbo social.
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