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Ricardo Boessio dos Santos - Publicado em 03.12.2004


Após ouvir tanto o famoso bordão “a tecnologia está acabando com os empregos” resolvi defender a área que bem conheço. Não se trata de pura defesa de interesses, mas de elucidação de alguns fatos que passam despercebidos quando se faz este tipo de afirmação que já virou lugar-comum.

A afirmação é feita com tanta propriedade que alguns fatos importantes são completamente esquecidos, ou são ignorados (por ignorância mesmo), ou ainda são simplesmente deixados de lado pelos críticos de plantão.

É importante se estabelecer uma coisa, antes de qualquer coisa. O significado de tecnologia e de emprego. Você está se perguntando onde eu quero chegar? Explico.

O emprego, tal qual conhecemos hoje em dia, só ganha este status após a sociedade se industrializar. Antes era trabalho. Qual a diferença? O emprego é quando você vende seu trabalho para alguém ou alguma empresa.

A sociedade industrializada aconteceu graças à tecnologia. Acredito não haver nenhuma dúvida neste ponto, ou a Revolução Industrial pôde existir graças a algum outro fator que desconheço. Por isso acredito que seja até surreal a afirmação que tecnologia causa desemprego, uma vez que ela é quem criou o emprego nos moldes atuais. Logo, pode-se afirmar com convicção que sem tecnologia não há emprego. Ou seja, o inverso da afirmação é fácil provar.

A esta altura já posso ouvir os brados de alguns críticos “Não é bem isso que queríamos dizer!!”. Então começa-se por uma alteração na famosa e surreal frase. De “tecnologia causa desemprego” para “automação causa desemprego”.

Este campo é mais fértil ainda para longos debates sobre as causas dos atuais níveis das taxas de desemprego. Ainda mais porque a afirmação é colocada de tal forma que parece que a automação industrial é a única, ou a maior, vilã do trabalhador.

Uma argumentação contra isso pode ser dada pelo professor da Unicamp Hélio Waldman: “A destruição se dá hoje pela substituição do Homem pelas máquinas em tarefas programáveis: em princípio, a programabilidade se aplica a mais da metade dos postos de trabalho de uma sociedade industrial típica. A criação de empregos, pelo desenvolvimento e implantação de novas tecnologias, e pela geração de novos negócios propiciados pelo aumento do ‘tempo livre’ resultante (por exemplo, turismo, entretenimento, educação continuada, etc)”. O material inteiro de onde o trecho foi retirado pode ser lido nesta página. No mais caberiam algumas perguntas, tais como: se a automação é vilã, porque nos países com os parques fabris mais modernos as taxas de desemprego não são tão altas? Ok, o robô tira emprego do montador de peça, mas quem monta o robô, quem fabrica as peças deles e quem programa ele? Problemas anteriores, como o sucateamento do parque fabril brasileiro e a falta de estabilidade econômica até poucos anos atrás não têm nenhuma influência no desemprego? A recessão mundial que enfrentamos, principalmente dos Estados Unidos (recessão deles é igual a crise em todo o globo terrestre) também não influencia?

Em separado das outras, faço uma pergunta que acredito ser a principal dentre todas as outras supracitadas: o fato do nível da mão-de-obra brasileira ser de péssima qualidade não influenciaria nesta taxa de desemprego?

Acredito ser esta a mais importante das perguntas porque a cada emprego perdido no “chão de fábrica” é criado outro especializado para produzir o robô que “roubará” este emprego.

O problema maior aqui é que no “chão de fábrica” o “peão” não precisa ser muito especializado (em muitos casos não precisa ser nada especializado), porém para produzir peças de alta tecnologia é primordial. É exatamente neste ponto que o Brasil perde empregos. Ou alguém realmente acredita que as peças e os robôs são produzidos em outros países porque? A resposta é encontrada a cada procura por empregados no Brasil: falta de qualidade de mão-de-obra.

O que eu desejaria que os críticos da tecnologia, da computação, da automação, enfim, do moderno, fizessem era voltar seu foco para onde está o problema. Cobrar das autoridades competentes a melhora na educação do brasileiro. A melhora na qualificação da mão-de-obra tupiniquim.

Vou ilustrar melhor esta minha afirmação com um dado de fonte segura e que pode mostrar como existe fundamento.

Segundo estudo do professor da Faculdade de Economia e Administração da USP José Pastore, nos países em desenvolvimento e no interregno de 1994 e 1996, dos trabalhadores demitidos 90% não possuía o ensino fundamental (antigo primeiro grau) completo.

Coincidência, ou será que a culpa é da tecnologia?

O que eu pretendo com este texto é conclamar a todos que vociferam contra a tecnologia a pensarem melhor no que falam, antes de fazerem afirmações levianas. Talvez possam ter ficado assustados e gritem “que queimem todos os computadores”. Mas não é este o caminho.

Um país só se desenvolve com tecnologia de ponta e só teremos tecnologia de ponta quando passarmos a investir em tecnologia no Brasil. Entenda-se por investir desde uma política de software, leis claras quanto á informática e mão-de-obra qualificada.

Não há como dar um passo atrás e fingir que não existe nada disso no mundo, que os computadores não existem, que não há nenhuma automação industrial e tentar sobreviver neste mundo globalizado sem nada disso. Não adianta tentar voltar ao tear porque ele já foi aposentado.

“O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado; é este pressentimento de que ele venha a ser nosso futuro.” (Mário Quintana)

Ou nós nos adaptamos, ou as taxas de desemprego continuarão altas e os empregos continuarão longe daqui e as peças que usamos continuarão tendo uma etiqueta escrita Made In Taiwan ou Made In China.

Sabe o que é interessante e chega a ser um exercício mental fascinante para mim? Saber que a maioria das pessoas que critica a tecnologia, o faz digitando suas críticas em modernos computadores (provavelmente mais modernos do que o meu) e enviam por e-mail suas críticas.

“Ah! Que bom não ser mais obrigado a jogar fora o papel quando cometo qualquer erro de datilografia, nem precisar levar em mãos ou ir até o correio para enviar meu material...”

A propósito, a máquina de datilografia também é uma inovação tecnológica!

Um ‘viva’ à hipocrisia!


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