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Tragédia na Ásia: somos uma comunhão de mortos
Mark Manahan - Publicado em 30.12.2004
“O que é mais forte: a morte ou a vida”, perguntou Alexandre.
“A vida”, responderam os sábios hindus, “pois consegue resistir apesar de todas as vicissitudes”.
Os dias em que vivemos são daqueles em que o diálogo acima, retirado das Vidas Paralelas de Plutarco, é tanto mais verdadeiro. Alexandre o Grande propôs 10 questões aos gimnosofistas da Índia, e essa foi uma delas.
Eu penso na Ásia. Penso no que eu estava fazendo às 10 horas e 20 minutos da noite de um sábado de Natal, um como tantos outros. E pensei num enorme grito em que milhões de bocas gritaram, muitas delas pela última vez.
Números? Eles são frios mas necessários. Pensar nos 70 mil mortos confirmados ou nos possíveis 100 mil não consegue dar a dimensão da tragédia. Pensar em 1 milhão e meio de pessoas que perderam as casas apenas no Sri Lanka, em minutos, ao mesmo tempo exprime e esconde a realidade do que aconteceu.
Penso no que esses números significam, mas eles não alcançam a perda. Nem a dor dos que ficaram. É como se de novo, eu sentisse a dor da floresta quando uma planta é arrancada. 2004 ficará para a história como um daqueles anos em que a natureza, ou o acaso, ou deus ou deuses se existirem, investiram contra a nossa espécie. Como em Si Xian no século XVI – o terremoto recorde em vítimas – com seus 830 mil mortos. Como em 1976, de novo na China, com 249 mil vítimas fatais.
De todas as cores, credos, tipos. O oceano da dor numa metáfora crua por que verdadeira. No Sri Lanka, mais duramente atingido, a tragédia adicional de epidemias e traumas não virá sozinha. Numa terra em guerra civil há 20 anos, dois milhões de minas terrestres foram desenterradas pelas tsunamis e não dá para saber onde foram parar. Até que façam mais vítimas.
Será difícil a tragédia superar as tragédias chinesas, em primeiro lugar porque o epicentro foi no mar e não numa zona densamente povoada. A China têm uma tendência natural a ser recordista em tragédias humanas, pelo simples fato de que qualquer fagulha ali põe em risco muita gente ao mesmo tempo. É o fator de risco da densidade populacional. O maior terremoto da História em intensidade no Chile em 1960 matou cinco mil pessoas. Recuso-me a dizer “apenas” porque cada morto é uma tragédia em si, mas os efeitos foram menores no Chile porque a área tinha pouca densidade demográfica.
Virão os próximos, que é uma tendência nos terremotos. E não temos como evitar. Talvez prever, mas são coisas que em segundos minutos e poucas horas se consumam. Só podemos nos preparar para minorar os resultados catastróficos. O governo chinês gastou extensos recursos pesquisando sobre terremotos para conseguir prevê-los com algum grau de razoabilidade científica nos anos 1970. Conseguiram evitar um grande terremoto desocupando uma extensa região e comemoraram o resultado. Depois veio a grande tragédia de 1976 e o programa foi ridicularizado.
De toda a dor, me vêm por fim um sentimento de orgulho. Orgulho pela nossa espécie. Que persiste, que renova-se, que vence, que se ajuda. Bem ou mal, continuamos a nos espalhar pelo planeta, como um vírus para alguns, como conquistadores para outros. Eu digo que apenas fazemos o que todas as espécies fazem. Penso em quantas vezes regiões inteiras sofreram e superaram tragédias como essa e penso que nem mesmo uma coisa estúpida como o maior maremoto da história pôde nos vencer. Sobrevivemos enquanto espécie e a dor une aqueles que se sentem parte dela. O eixo da terra foi deslocado? Um dia o colocaremos de volta, se for preciso Claro, há a chance de uma tragédia maior, de morrermos todos antes disso, mas não é próprio da espécie humana deixar de construir o futuro por medo do que possa acontecer. A energia liberada pelo terremoto foi equivalente a de milhares de bombas A, o que me leva a pensar que existe a chance de sobrevivermos até mesmo a isso.
Venceremos. Ou morreremos tentando, que é o que cabe a cada ser vivo fazer.
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