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Imagens - Desenhos de crianças chechênas sobre a guerra
© Human Rights Watch

 


Paulo Giardullo - Publicado em 06.10.2004




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Na verdade, o texto anterior, a parte I deste artigo, foi feito originalmente para um pequeno jornal regional, para o qual eu escrevo e cujos leitores e conseqüentemente, os artigos, têm um perfil diferente do DUPLI. Por isso o artigo é mais “raso” e sentimental. Poderia dizer que é unidimensional, lembrando Herbert Marcuse, assim como unidimensional, é, em maioria, o nosso “homem médio”, se é que os homens médios existem.

Porque é um espaço e um tipo de leitor, que não comportam análises de vários ângulos da questão simultaneamente, como fazemos aqui ou em outros círculos. Para continuar sendo lido e quem sabe compreendido, tenho que equilibrar reflexões mais profundas com artigos mais emocionais, com um ângulo só, pelo menos na superfície, podendo conter ainda alguns chamados à reflexão nas entrelinhas. Apesar disto, pela oportunidade e carga emocional do caso em questão, eu senti a necessidade de divulgar paralelamente o artigo em outros espaços também.

Mas não só por isso, também porque naquele momento, quando eu tomei conhecimento daquela notícia trágica, pela imprensa, eu fui tomado por uma intensa emoção, uma tristeza enorme com a perda inútil de tantas vidas e naquele momento, eu necessitava de simplesmente falar sobre a tragédia, independente de análises políticas e filosóficas mais profundas. Eu só queria registrar a morte de centenas de seres humanos, a maioria crianças e lamentar o quanto a humanidade se enfurna cada vez mais pelos caminhos, talvez sem volta, da barbárie. Uma barbárie civilizada. Vivendo um paradoxo: quanto mais civilizada, mais bárbara. Mais progresso, mais tecnologia, mais exclusão, mais intolerância, maiores desrespeitos ao ser humano e ao meio ambiente. Eric Hobsbawm, historiador inglês, salientou em sua obra, que nunca antes da era moderna e contemporânea, se registrou tantas mortes em guerras, não mais em centenas, mas em centenas de milhares e em milhões, como passaram a se registrar. Também em outro ponto de sua obra, o historiador disse que nunca se teve tanta miséria e tanta exclusão.

Eu sei que o evento em Beslan tem outros desdobramentos, outras causas que não foram abordados em meu artigo anterior. Eu sei que existe a questão da ingerência e truculência russa para manter, artificialmente a dominação da Chechênia, muito semelhante à questão basca, na Espanha, dos Irlandeses no “Reino Unido” e quanto aos palestinos, por Israel. Embora, aqui com um diferencial, é um grande país, até pouco tempo socialista, ainda com resquícios deste sistema, que aparece em cena, como o opressor. Isto dá contornos inusitados para a questão. Pois estamos acostumados a criticar potências capitalistas quanto a opressões de minorias.

Porém, em meu artigo inicial, eu deixei em aberto a responsabilidade com a barbárie da escola russa, pois em nenhum momento eu culpei explicitamente os terroristas especificamente sobre a tragédia. Quando digo que as crianças não foram mortas por golpes de faca, mas por tiros de fuzil e bombas, estes armamentos letais tanto podem ter sido acionados pela força oficial russa, como por terroristas. E creio que o foram por ambas partes. Não importa. Centenas de crianças foram mortas, estupidamente. Não interessa se os disparos, ou a “culpa” partiram da esquerda ou da direita, dos oprimidos ou dos opressores, de mulçumanos ou cristãos. Ou ainda de ateus. Eu apenas fiz uma constatação, na relação: crianças-mortes-centenas-inútil-fútil-insanidade-civilização-barbárie.

Além do mais, a tragédia tanto pode ser imputada à insana e desesperada invasão dos terroristas em sua luta contra a opressão, ou pela ação desastrosa dos russos, que fizeram a incursão final no prédio, de maneira equivocada.

Quanto ao fato de que os russos podem ter matado milhares de pessoas e também crianças, em ofensivas genocidas anteriores no território “rebelde”, realmente isto é lamentável e tais fatos devem ser lembrados e tais mortes igualmente choradas. Alguns relatos falam em 30.000 mortos em uma ofensiva russa na Chechênia. Portanto, pelo lado humanístico, de perdas humanas, que é o que me interessa em primeira mão, o fato deve ser lamentado, em uma proporção 100 vezes maior do que a tragédia em Beslan, a menos que raciocinemos na lei do dente por dente, olho por olho, aliás, tão comum no ocidente cristão e no ideário bushiano. Neste caso, os terroristas chechênios ainda têm um déficit de milhares de mortes, em relação aos russos. Teriam que trabalhar muito para “fazer a justiça completa”.

Que estas opressões existem no mundo, isto é inegável. O caso palestino, por exemplo e os demais citados são realmente dignos de nossa sensibilização e preocupação. Mas será mesmo o terrorismo uma saída eficaz e desejável, em termos humanistas? Seus resultados são mesmo eficientes? Será que os fins justificam os meios? Será mesmo que a opressão de um estado forte a minorias étnicas, religiosas ou territoriais justificam mortes de inocentes, totalmente alheios ao que se passa?

Sim, é claro, que em praticamente todos esses casos de opressão, são muitos drásticas as relações e a diferença de força entre oprimidos e opressores é gritante, o que não parece deixar, segundo os que justificam o terrorismo, outra alternativa aos oprimidos, senão a guerra “suja” e não convencional do terror, ou seja, ataques imprevistos e pulverizados a inocentes, que muitas vezes nada têm a ver com o “peixe”.

Mas, parece-me que tais ataques nunca chegaram a resolver os problemas, embora possam apresentar algum efeito quanto à chamar atenção para causa, como denúncia. Acho discutível que a injustiça a nível macro e contínua dos opressores possa justificar a morte de dezenas ou centenas de pessoas inocentes. Minha preocupação humanista, me leva a computar uma única morte inocente e injustificável, nestes casos, como um fato lamentável, considerando-se o direito de viver, de ser feliz, de cada homem e as potencialidades únicas de cada ser. O ser humano é algo incomensurável, devido a sua originalidade. Como posso dizer que uma senhora gorda, morta em um mercado em Israel é desprezível e justificável, perante a opressão estatal de seus governantes em relação ao minúsculo povo, dono original do território? Ou a morte de uma família espanhola seria justa, porque uma parte do povo que forma aquele país não tem sua cultura e autonomia respeitadas?

A vida humana não pode ser quantificada.

Mas, voltando ao caso do terrorismo, vemos que a maioria desses casos, está ligada ao modo como se formaram, artificialmente, os estados nacionais, em geral, não respeitando as questões étnicas, religiosas e regionais. Pelo contrário, o traçado dos países parecem fomentar ao máximo as contradições e antagonismos regionais. Vide os casos da África, com suas guerras intermináveis por rivalidades tribais, que o dogmatismo capitalista/socialista acabou por exacerbar. A questão da Índia e do Paquistão, que parece chegar a um limite perigoso no campo nuclear, por um pedaço de terra, a Caxemira e por rivalidades religiosas. E os casos dos ricos europeus, opressores em seus quintais, como na questão basca e irlandesa? Notem, que este traçado do mundo moderno foi feito pelas potências imperialistas, na colonização e no processo de “libertação das colônias”. Muitas vezes, era usado como arma de controle das colônias, justamente o aquecimento das rivalidades tribais.

O problema da maioria destes conflitos étnicos e territoriais tem raízes no quadro macro da divisão do mundo, de responsabilidade das potências hegemônicas, que “construíram” nosso mundo contemporâneo. É justo que se busque soluções, ao nível micro, com o sacrifício de indivíduos, isoladamente, geralmente alheios às decisões que formaram o quadro político? Não seria mais apropriado e eficiente se buscar formas mais amplas e definitivas de solução, como novas divisões territoriais que atendam aos oprimidos, reservando-se algumas vantagens conciliatórias aos opressores? O mesmo quanto à conservação da cultura e identidade dessas minorias.

Mas, aí a lógica utilitarista do sistema não permite soluções definitivas e conciliatórias. Os casos envolvem posições estratégicas e riquezas naturais, como reservas de petróleo e água. Não se pensa em termos humanos, mas econômicos e militares. Os problemas não caminham para solução. Estão estacionados a um nível em que continuam os conflitos.

Então continua a repressão dos fortes e a resposta não convencional dos oprimidos. Ou seja, inocentes continuarão a morrer estupidamente, sem nem mesmo saber ou entender porque. É como aquela imagem tradicional de um soldado, tomando um tiro, com os braços abertos, caindo para trás, com o fuzil no ar e a palavra inscrita em baixo, seguida do ponto de interrogação: Why? Embora armado e com uniforme, ele é um ser humano... que perdeu a vida.

Quanto ao fanatismo religioso e étnico, isto tem sido desmerecido pelas correntes esquerdistas ou libertárias. Mas estes radicalismos são relevantes sim e devemos refletir sobre eles. Podem ser obstáculos a um utópico mundo pacífico e verdadeiramente global, no sentido de uma convivência harmoniosa entre os povos. Por um lado, é claro, que as opressões dos dominadores a estas parcelas mais fracas são claras.

Mas, o componente da intolerância religiosa, como no caso dos muçulmanos, não é desprezível. Os conflitos étnicos-nacionalistas-religiosos são um barril de pólvora, levando-nos à barbárie antiga, a uma intolerância semelhante a anterior ao século I da vida cristã, como tão bem Aldous Huxley citou em Macaco e a Essência. No exótico romance, o autor simboliza dois generais gorilas antagônicos, exaltando cada qual seu exército de gorilas, com refrões étnicos-nacionalistas-religiosos, imagem que poderia se referir a qualquer chefe de estado, que lança milhares à morte, com base na estupidez e intolerância, com justificativas no patriotismo e fé.

Hinos e símbolos. Livros sagrados e palavras de profetas. Solo amado, pátria, povo, tradições. O eu e nós, expressão máxima do bem. O outro, eles, o mal satânico. O bem e o mal. O certo e o errado. O tudo e o nada. Não há meio termo. Vide o discurso de Hitler. Só uma religião. Um só povo herdeiro! Palavras de ordem. Cânticos. Exaltação. Ódio, virilidade, armas, força, violência, guerra, guerra! Morte aos inimigos, diabólicos, usurpadores!

Tudo depende do lado em que você está. Do pequeno espaço quadrado em que você nasceu na terra ou da cor de sua pele. Tudo depende de qual Deus você cultua. Então você poderá estar de lá ou de cá. Será bom ou mal. Tudo isto são ingredientes que enchem um gigantesco barril de pólvora, que um dia, explodirá e matará a todos, gorilas de cáqui ou de verde oliva, filhos de Deus ou Alá. Ou quem sabe não, tudo isto não passa de exagero da paranóia nuclear e teremos esse nosso mundo por séculos, em que o sangue desses gorilas manchará o chão, em gotas rotineiras, ainda por muito tempo?

Porém, não podemos esquecer que não só os árabes e muçulmanos, são praticantes de um fundamentalismo unidimensional, mas os civilizados ocidentais também se orientam, muito ainda, infelizmente, por resquícios do caldo de cultura mesopotâmio, na lei do olho por olho, dente por dente, oriunda do cristianismo, com raízes de intolerância e dogmatismo, muito semelhantes ao islamismo. Vide Bush, o evangélico. Enquanto os nazistas também se diziam abençoados por Deus e os adeptos da ultra direita contemporânea também se baseiam no fervor da crença na raça branca, ocidental e cristã.

Na verdade, se faz premente uma revisão dos conceitos de nacionalismo e dos limites da fé religiosa. Precisamos privilegiar formas mais plurais de ver o mundo, como terráqueos, suplantando a lógica tribal, no seu sentido mais intolerante.

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