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Maurício Gomes Angelo - Publicado em 19.03.2005




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Educação é a palavra chave para toda nação que deseja prosperar em todas as áreas. É a base sólida e firme que garante a um Estado a excelência de sua administração. E é também um dos pontos mais críticos da nação brasileira. Dados aterrorizantes não faltam: Num exame entre 40 países realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), avaliando o rendimento escolar, o Brasil obteve a última colocação em matemática e a penúltima em ciências. Segundo o MEC, 91% dos estudantes brasileiros terminam o ensino fundamental tendo dificuldades em reter e interpretar textos básicos de acordo com o nível desejado. A taxa de analfabetismo é de 13% (ou seja, 23,4 milhões de pessoas) e apenas 18% dos jovens estão na universidade, uma das piores taxas da América Latina.

Some a isso o profundo descaso com o ensino fundamental, o sucateamento e a falta de estrutura das escolas, a baixa qualificação de boa parte dos professores aliado aos salários irrisórios que lhes é pago, forçando-os a trabalhar em duas escolas, ás vezes até em três, e conseqüentemente não tendo condições de desempenhar seu trabalho como deveria, o sistema de ensino arcaico e primitivo que em nenhum momento desperta o interesse verdadeiro nos jovens, a falta de biblioteca nos estabelecimentos, a violência incorporada ao dia-a-dia dos alunos e o histórico e brutal desamparo governamental, que deixa faltar tudo, até a merenda que muitas vezes é a única alimentação diária daquela criança e vemos que o quadro não é muito animador. Isso porque eu nem citei as combalidas universidades federais, funcionando a duras penas, obrigadas a cortas gastos aqui e ali para se manter funcionando e com suas greves corriqueiras.

Como se vê, desde o pré até o ensino superior, os problemas estruturais na educação brasileira são gravíssimos e crônicos, entregando o aluno à própria (literalmente) sorte e esforço. Repete-se a exaustão o quanto à educação européia, americana e asiática está a anos luz da nossa, mas nada se faz para mudar essa realidade. A diferença é tão astronômica que as palavras de Johann Fichte soam extremamente atuais até hoje. Johann Gottlieb Fichte (1762-1814) foi um importante filósofo alemão do século XIX, maior discípulo de Kant, retirou de sua filosofia idealista algumas bases do que ele considerava que a Alemanha precisava fazer para se tornar um Estado mais forte e próspero. Ele explicitou estas idéias em seu célebre livro “Discursos á Nação Alemã”, lançado em 1808 (vejam bem, quase 200 anos atrás!). O trecho que reproduzo a seguir foi retirado da genial obra “As Grandes Obras Políticas de Maquiavel á Nossos Dias” de Jean-Jacques Chevallier:

“O mais interessante é a exatidão do título. O tema fundamental dos Discursos era a educação. O “mundo novo” donde viria a salvação para a nação alemã, devia nascer pela transformação absoluta do sistema de educação até então em vigor.

“Tudo perdemos, diz Fichte, mas resta-nos a educação.”

Educação nova que – segundo a linha geral da filosofia idealista de Fichte – desprenderá a “Idéia”, verdadeira realidade, “terra prometida humanidade”; assegurará, pela clareza do entendimento, a pureza da vontade; expulsará o egoísmo, fonte de todas as desgraças da Alemanha. Porque a antiga educação é, segundo Johann Fichte, totalmente desclassificada. Apela exclusivamente para a memória: pode povoá-la de certas palavras, de certas locuções, pode impregnar a imaginação fria e insensível com algumas imagens vagas e pálidas, mas nunca alcançou pintar a ordem moral do mundo com suficiente calor, a fim de despertar nos alunos o amor ardente, a nostalgia da ordem moral, a emoção profunda perante a qual desaparece o egoísmo, como folhas secas ao sopro do vento. Por conseguinte, essa educação jamais penetrou até a raiz real da vida psíquica e física. E tal raiz, negligenciada..., desenvolveu-se ao acaso.

A educação antiga só guiou a criança pela esperança ou pelo receio de resultados materiais. Numa palavra, nunca foi, nem podia ser, a arte de formar homens. Em especial porque só era concedida a uma ínfima minoria, por isso mesmo chamada de classes cultas.

A educação nova, ao contrário, dirigir-se-á à grande maioria, ao povo. Educação não popular, mas nacional. Será a arte de formar homens, penetrará até a raiz real da vida psíquica e física. Fará da cultura não um bem qualquer, exterior ao homem, mas um elemento constitutivo do próprio homem. Desenvolverá verdadeiramente no aluno a atividade do espírito criador, ao mesmo tempo que as aptidões corporais e a destreza para os trabalhos manuais. Nele criará uma vontade em que se poderá ter a mais tranqüila confiança: ele se comprazerá na verdade e no bem, considerados em si mesmos. Dar-lhe-á o verdadeiro sentido religioso, ensinando-a a considerar e respeitar sua própria vida, e qualquer outra vida espiritual, como um eterno anel na cadeia da revelação da vida divina. E todas estas noções, religiosas, morais, intelectuais, longe de permaneceram frias e mortas, haverão de achar, a cada instante, sua expressão na vida real do aluno. Cada um dos seus conhecimentos se tornará vivo, desde que a vida o requeira.

Tais resultados, porém, exigem certas condições. A mais necessária é a de que as crianças formem uma comunidade á parte, autônoma, sem contato com a sociedade dos adultos corrompidos pelo egoísmo. Seus mestres, bem entendido, vivem com elas, mas os pais são cuidadosamente separados. Os dois sexos são educados em conjunto. É no seio dessa comunidade reduzida e ciosamente isolada que as crianças podem transformar-se me homens, nos quais se gravará automaticamente a imagem da ordem social comunitária.

Quem, pois, senão o Estado, pode por em prática tal novo plano de educação ativa? O Estado, porque os pais resistirão e será preciso exercer certa violência, ao menos para educar a primeira geração: depois, tendo a nova educação produzido os seus primeiros frutos, não mais haverá resistência. O Estado, porque se precisará de imensos recursos para enfrentar imensas despesas. Mas pode existir mais vantajosos investimento? O Estado lucrará gerações formadas no amor da coletividade, no labor, na disciplina moral; recuperará suas despesas iniciais ao cêntuplo.”

“Discursos” fazem parte da atuação política de Fichte, durante a ocupação e dominação de Napoleão Bonaparte, causa de vergonha para o povo alemão. Neles, o filósofo esforçar-se em despertar no seu povo, despedaçado e humilhado, uma consciência de unidade e autonomia nacionais, visando culminar num Estado alemão soberano sobre os demais. E através de quê isto deveria ser feito? Qual o ponto fundamental que deveria ser trabalhado para que isso ocorresse? A educação. A educação era, segundo Fichte, o método mais correto e eficaz pelo qual a Alemanha deveria se reconstruir, ela seria a tônica de todo o futuro daquela nação. E foi. Ao menos num item ele estava equivocado, a participação ativa dos pais na educação dos filhos é comprovadamente benéfico para o rendimento destes. Mas quem, principalmente, deveria pôr em prática este novo plano de educação? O Estado! Só ele teria condições práticas de encarar este dever com a magnitude necessária. Então lhes pergunto: Quanto tempo mais demorará o Estado brasileiro para iniciar esta revolução? Que nível crítico estão esperando para começar os trabalhos?

Se, como tudo neste país, eles necessitam de uma profunda desgraça, uma tragédia inquestionável para começar a mudar (tema que merece um artigo em separado), não percamos mais tempo, ela está aí, a introdução deste artigo é um micro-resumo do podre quadro educacional brasileiro. Mas, se nem assim, se nem com toda esta situação calamitosa eles tomam medidas necessárias para que se inicie a mudança, então não sairemos tão cedo do abismo em que nos encontramos. Insistem em curar as causas do problema, não a sua origem. Investem bilhões de reais em amenizar seus sintomas, enquanto o deflagrador de tudo isto continua intacto. A educação meus amigos, é o inicio de toda prosperidade, de toda qualidade de vida, de toda evolução tecnológica, da redução da violência, do respeito ao meio ambiente e ao próximo, da mão de obra qualificada, da cultura de qualidade, da diminuição da corrupção, da economia forte e saudável, do aumento da eficiência e da melhora no atendimento dos serviços públicos, da fomentação, ampliação, criação e estabelecimento de tudo que é necessário. Ela traz um ciclo sem fim de benefícios incalculáveis capazes de realizar a revolução verdadeiramente revolucionária, de limpar o Brasil de todo o lixo humano e estrutural que ele possui, de fazer com que melhoremos em todos os setores, de nos relacionar bem com eles e entre nós mesmos. Creio que todos estamos de acordo nisso.

Como frisou Johann Fichte, isto leva tempo, demanda imensos recursos, é preciso obstinação para levá-lo adiante, mas no fim, “O Estado (...) recuperará suas despesas iniciais ao cêntuplo!”. Repito, isto foi dito há quase 200 anos atrás! Dá para ter uma noção exata de quanto estamos atrasados? Acho que não. Se começarem a fazer o que precisa ser feito agora, talvez, mas talvez, meus bisnetos já nasçam num ambiente favorável ao seu desenvolvimento pleno enquanto indivíduo. Afirmo, com a experiência recente de quem passou pelo sistema educacional brasileiro, que o Brasil tem um quadro ainda pior do que Alemanha de 1808, mais retrógrado, mais ineficiente. Como esperam que a “geração do futuro” venha melhorar este país se não oferecem condições para isso? Milagres não acontecem aos milhões. Deixar por obra do acaso que pessoas se destaquem não me parece a melhor opção.

Não me importa que partido ou qual presidente esteja no poder, conquanto que a educação seja posta como prioridade vital agora, neste momento, estamos esperando isto há 505 anos, não precisamos de mais provas de que o nosso modelo (modelo?) é ineficiente. Parem tudo, convoquem uma reunião geral, reúnam o congresso, a câmara, o senado, a sociedade, os meios de comunicação e estabeleçam a educação como prioridade nacional. Movam todos os recursos possíveis (e impossíveis) para ela, mudem o lema da bandeira, em vez de “Ordem e Progresso” coloquem “Educação e Cultura”, façam disso a obsessão, a mania, o grande espírito de todos os brasileiros. Criem, incentivem, fomentem, premiem e estabeleçam projetos urgentes de reestruturação educacional, destaque quem mereça, mudem a constituição, façam tudo que for preciso para tornar a palavra educação a síntese da nação brasileira. Nada mais importa. Nada mais é necessário. Apenas isso. “Educação e Cultura”. Façam valer apenas uma vez na história a confiança que lhes é dada. O Estado foi feito e é eleito para nos servir, vocês são nossos servos. Obedeçam. Não é um pedido. É uma ordem. Seus senhores exigem que o façam. Ou colaboram, ou nos afogaremos juntos neste dilúvio de ignorância, hipocrisia e bestialidade.

Este artigo é dedicado á todos aqueles que tem conhecimento dos problemas que o descaso com a educação traz mas que acreditam que ainda é possível mudar este quadro para assistir o desenvolvimento do país e que lutam para que isto aconteça. E é dirigido, especialmente, a todos os nossos governantes passados, presentes e futuros, ficando como lembrete incisivo e adversativo.

Livros sobre o filósofo alemão Johann Gottlieb Fichte

• Educação e Liberdade: Kent e Fichte - LUC VINCENTI
• Lições Sobre a Vocação do Sábio - JOHANN GOTTLIEB FICHTE


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