O erro de português entre a retórica e a dialética - artigo sobre o idioma português na internet < Artigos < Duplipensar.net Português do Brasil  English 
 

 
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Ana Flávia L. M. Gerhardt - Publicado em 10.03.2005




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Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio teria despido
O português
(Oswald de Andrade, Erro de português)

No Brasil, as questões que envolvem o ensino em geral e o ensino de português em particular são objeto de discussão apaixonada entre as pessoas que de alguma forma lidam com a linguagem escrita e oral, fazendo dela o seu material de trabalho e/ou ensino. Recentemente, por exemplo, os holofotes do julgamento lingüístico salientaram o uso cada vez mais disseminado de palavras de origem inglesa, os chamados anglicismos, no comércio, na economia, nas comunicações etc., e sobre isso não faltou quem denunciasse um suposto desaparecimento do idioma português, afogado por uma tsunami de shopping centers, handouts e downloads. Infelizmente, os que propõem a supressão e a proibição dos estrangeirismos nunca conseguem esclarecer satisfatoriamente o que é e o que não é estrangeirismo no português, isto é, o que é e o que não é palavra importada de outro idioma em nossa língua; sem isso, e caso levemos à risca tal proibição, teremos de voltar a nos comunicar em tupi-guarani, porque todo o resto veio de fora. Infelizmente também, este tipo de discurso xenófobo perde o trem da História ao desperdiçar a oportunidade, observada por Pierre Bourdieu, de perscrutar a nossa condição de oprimidos, na medida em que essa opressão se instala proporcionalmente à repetição do discurso do opressor, bem como de muitas de suas práticas culturais.

O artigo de estréia de Jaciara Carneiro (Meux amiguinhux tão disaprendenu a ixcrever) vem novamente trazer à tona, agora no espaço do dupli, a eterna questão do supostamente necessário “uso correto da nossa língua” contra os “maus-tratos sofridos pela Língua Portuguesa”, reativando o imaginário comum acerca deste estado de coisas. Leio seu texto tendo ainda em mente uma nota publicada pela Veja da semana passada, que inclui a opinião de Gilberto de Mello Kujawsky, repisando a já cansativa questão dos “erros de português” do Presidente Lula: "O falar errado de Lula não constitui um dado isolado e sem conseqüências. Sua palavra tosca arrasta consigo o pensamento banal, que, por sua vez, responde pelo ato irrelevante. (...) A mensagem subliminal dessa integentsia pós-revolucionária diz assim: renunciamos à tomada do poder pelas armas, mas não abrimos mão de agredir as instituições burguesas vigentes e, quando nosso grande líder messiânico mutila o idioma pátrio, são as instituições culturais, jurídicas, civis e políticas que ele está ferindo no cerne”. A bem da verdade, em termos de esclarecimentos sobre a nossa questão, Jaciara Carneiro, embora traga afirmações que precisam ser duplipensadas, sai-se bem melhor que o reacionário Kujawsky: o texto da nossa duplicompanheira demonstra uma preocupação pertinente acerca de um padrão lingüístico que a escola brasileira não consegue ensinar aos estudantes, porque, entre outras razões, insiste em fazer que os alunos falem como se escreve, o que é abominável, mas de qualquer forma inútil, já que eles continuam escrevendo como se fala, o que, aliás, pode não significar falta de inteligência dos alunos, mas sim o reconhecimento e a recusa, por parte deles, do que a escola pretende lhes fazer.

Em todas as inúmeras vezes em que me deparo com opiniões como as de Kujawsky e Jaciara Carneiro, guardadas as diferentes qualidades de conteúdo que as revestem, vem-me à mente o fato de que a sociedade brasileira, a mesma sociedade que produz um pensamento de justa repulsão a toda forma de discriminação racial, sexual, religiosa etc., ignora e evita solenemente qualquer pensamento sobre o preconceito lingüístico, porque, sobretudo, está desatenta ao fato de que uma pessoa é avaliada socialmente não apenas pela sua cor, preferência sexual etc., mas também pela linguagem que usa.

Aliás, no Brasil, fora do meio de Letras (e até dentro dele, tenho de reconhecer) é praticamente impossível encontrar quem não se assuste e não repudie violentamente a afirmação de que o julgamento lingüístico de qualquer espécie, seja o que supõe certos e errados na linguagem, seja o que postula o “empobrecimento”, do português, seja o que defende uma localização geográfica para o “bom português” – São Luiz do Maranhão, Rio de Janeiro -, não encontra qualquer respaldo em estudos minimamente sérios sobre a língua portuguesa. Além disso, é fácil entrever, em muitos artigos de brasileiros que lutam contra os preconceitos sociais, a vigorosa manutenção do preconceito lingüístico: não raro leio textos de jornalistas engajados na luta contra o racismo e a homofobia, mas aferrados à idéia de que certas pessoas falam “errado”, ou “não sabem falar/escrever em português”. A insistência em tais idéias revela o desconhecimento de que, entre os preconceitos em geral, frutos de uma visão elitista de mundo, está a concepção de que há uma forma de linguagem “certa”, “boa”, “bonita”, “pura”, “verdadeira”, que evidentemente também é a forma de linguagem estabelecida por uma elite sócio-econômica, e tão-somente neste caráter se funda a sua missão discriminadora.

O problema se agrava ainda mais quando levamos em conta que tal presunção tem feito parte da nossa civilização por milhares de anos, e que, embora tenha motivado algum avanço na descrição gramatical, contaminou os diálogos sobre os fortes liames entre os movimentos e mudanças sociais e as transformações lingüísticas que necessariamente os acompanham. Por exemplo, as primeiras gramáticas de que se tem notícia, as do sânscrito, baseiam-se em textos religiosos tidos como de linguagem “perfeita”, e foram elaboradas como tentativa de reter modificações naturais de uma língua, que acompanham a própria modificação dos seus falantes em sociedade. Na Grécia Antiga, após o desmembramento do império acumulado por Alexandre, o sentimento de perda e decadência da sociedade, acompanhado pela mudança do grego em contato com uma série de outras línguas, gerou a ilusão de que o ensino do grego nos moldes da Ilíada e da Odisséia – remontando a pelo menos cinco séculos – iria produzir um retorno ao grego verdadeiramente “puro”, e, por conseguinte, à Grécia dos tempos de apogeu. Vê-se, então, que o “empobrecimento lingüístico” e o vínculo entre a recuperação de uma linguagem do passado e a recuperação desse próprio passado são fantasias bem mais antigas do que imaginamos.

No Brasil, a reboque deste sentimento, sobrevém um culto à forma lingüística que tem mais de idealização do que de conhecimento sobre o que é exatamente o português “correto”, devido, principalmente, ao fracasso da escola em ensiná-lo, como bem salientou Jaciara Carneiro. Uma outra razão para isso é a de que esse tal português “correto” (que na Sociolingüística recebe o nome de norma padrão, definida, evidentemente, a partir de parâmetros diferentes dos do senso comum) não é usado por praticamente ninguém, porque, entre outros motivos, algumas de suas construções têm em suas raízes uma sintaxe lusitana, portanto alienígena à nossa realidade tupiniquim. Mas à ilusão da forma supostamente perfeita agregou-se a ilusão do conteúdo perfeito, num casamento sinistro que também é antigo, porque remete à velha (mas bastante atual) tensão socrática e platônica da retórica, domínio do privilégio da forma e da aparência, frente à dialética, espaço de valorização do conteúdo e da essência das coisas.

Obediente à falácia retórica é a fala de Gilberto Kujawsky, citada logo acima: suas afirmações amarram a qualidade da forma da linguagem de Lula ao seu conteúdo. Nesse sentido, a palavra “tosca” de Lula acompanhar-se-ia de uma administração tosca da nação que assume o português (que, para Kujawsky, parece limitar-se ao “bom português”) como seu idioma pátrio; por “destruir” o idioma em seus discursos, Lula destruiria a representatividade e o valor daquilo que fala, destruindo a si mesmo e a possibilidade de fazer um bom governo. Daí se pode conjeturar que, se a fala “ruim” de Lula, em que ainda sobrevivem “deslizes” de concordância, pode ser desqualificada desta forma, que se dirá da fala do cidadão comum que ainda não se apropriou da norma padrão. E aqui uma ressalva importante precisa ser feita: embora o foco do preconceito lingüístico pareça atingir a linguagem, na verdade ele recai sobre as pessoas que a empregam, o que o caracteriza inequivocamente como um preconceito social: perdi a conta das vezes em que capturei os deslizes sintáticos do ex-Presidente Fernando Henrique, mas nunca vi qualquer jornalista criticá-lo por isso.

O estudioso das ciências da linguagem sabe que não há outro antídoto contra o preconceito do que o conhecimento, e que os juízos do senso comum se valem de padrões estéticos e elitistas. Por isso, ele busca, sob o manto pesado do preconceito, conhecer, relacionar e instanciar as variantes lingüísticas, compreendo as diferentes formas de falar e escrever relativamente às diferenças entre classes sociais, faixas etárias, regiões geográficas e situações de maior ou menor formalidade em que uma dada língua é utilizada. E, acima de tudo, toma em conta que essas variações estão ligadas à formação das identidades das pessoas dentro dos seus grupos sociais, onde elas se reconhecem, num sentido reflexivo e recíproco, na cor da sua pele, nos seus usos, saberes, preferências e costumes, e também na sua linguagem. Muitos dos que se ressentem das palavras dos estudiosos da Sociolingüística, ansiosos em preconizar uma língua “pura” que eles próprios desconhecem, não percebem que não se está fazendo apologia do “vale-tudo” em linguagem e argumentam que, então, os lingüistas devem falar nós vai, a gente fomos, já que não há “erros” de português de maneira alguma. A tal argumento, este, sim, bastante tosco, é necessário opor a idéia de que as pessoas precisam adquirir uma compreensão lingüístico-social que lhes faculte saber que tipo de linguagem usar em quais situações, e que diferentes níveis de formalidade na fala e na escrita requererão usos distintos de linguagem.

A escola falha justamente ao não favorecer aos cidadãos a apropriação de uma mobilidade lingüística que lhes permitiria tanto comunicar-se com as pessoas da sua família e com seus amigos, quanto defender-se de um padrão de língua que fatalmente será usado contra eles, em avaliações, entrevistas para emprego, além dos concursos e vestibulares citados por Jaciara Carneiro; aliás, a escola faz muito menos que isso: por ser tão ruim, ela não consegue nem incutir nos alunos a norma padrão que impõe como verdade absoluta, embora seja eficiente em semear o preconceito lingüístico.

Outra falha da escola é a de não considerar a sistemática inerente a qualquer estrutura de linguagem, inclusive as construções não-padrão, as quais, longe de serem produzidas por um bando de parvos, têm sua lógica cognitiva e histórica, e não raro acabam, com o tempo, fazendo parte do que se idealiza como português “correto”: o “nós vai”, por exemplo, resulta de um processo sintático que evita a redundância para o significado de primeira pessoa do plural, que já está expresso no pronome, portanto não precisa estar presente de novo no verbo; na língua inglesa se faz a mesma coisa, e ninguém reclama. Em “a gente vamos”, ocorre processo diferente - no caso, a chamada concordância ideológica (nome por sinal bem pouco apropriado) entre o conteúdo plural de “a gente” e a forma plural de “vamos”. Fato análogo se dá com “os brasileiros somos”, mas nenhuma gramática condena este último. Além disso, muitos usos se tornaram tão disseminados e consagrados que nem mais são sentidos como “erros de português”, como o verbo ter em construções existenciais, a total substituição da forma de futuro simples (farei, andarei), que praticamente desapareceu, pela composta (vou fazer, vou andar), entre muitos outros fatos.

Já o fenômeno que tanto atraiu nossa dupliarticulista Jaciara Carneiro, a saber, as formas abreviadas das mensagens da internet, é particularmente interessante, porque reflete, nas reduções das palavras que suprimem quase todas as vogais mas resguardam as consoantes, a capacidade da nossa mente, incluindo aí o sistema visual, de selecionar em figura as consoantes das palavras, deixando as vogais em fundo. Quando lemos uma palavra, damos pouca atenção às vogais, e a supressão de letras das mensagens da internet resguarda os caracteres que são fundamentais à leitura, e o restante da palavra é inferível a partir do acervo léxico que temos em nossa memória. Relacionado a isso, mas numa perspectiva histórica, está o fato de que, na evolução dos sistemas de escrita, a compreensão de que a linguagem é feita de sons acarretou a invenção pelos sumérios, há cinco mil anos, da escrita silábica, feita apenas de consoantes, que provavelmente foram os sons que eles isolaram em princípio, sem dar conta ainda de que elas formavam contínuos junto com as vogais.

Tais fatos permitem-nos ver que, na verdade, as formas supostamente novas da linguagem dos e-mails não têm nada de novo em sua essência, porque apenas atendem a um modus operandi na construção da linguagem. E que, na contingência de criar um código que atendesse à agilidade necessária às tecnologias de informática, optou-se naturalmente por abreviações que tendem a resguardar as preciosas consoantes das palavras, e o resto fica para o leitor adivinhar, o que é possível na grande maioria das vezes.

Diante de todas essas evidências, convido Jaciara Carneiro e todos os que freqüentam este espaço privilegiado a duplipensar a realidade da transformação lingüística a reboque das transformações sociais e técnicas. A refletir que, no caso da escrita no contexto da internet, entre tantos outros casos “assustadores”, o que há não é um empobrecimento lingüístico, mas sim um enriquecimento da língua, porque se trata de mais um conjunto de formas de linguagem criado por força do advento de um novo meio de comunicação, que requererá um código que se lhe adapte segundo as condições de produção, os limites espácio-temporais, os níveis de formalidade e os sujeitos que dele vão se servir. Tudo neste espaço será novo, daí a necessidade de uma nova linguagem para as pessoas que o ocuparão, as quais nesse sentido também se renovarão, numa sociedade cujas tecnologias em emergência as obrigam a (re)alfabetizar-se continuamente. Por isso, nunca se perde nada em língua, apenas se ganha, a cada nova descoberta, a cada novo campo de interlocução. O empobrecimento e a morte de uma língua ocorrem tão-somente quando desaparecem os seus usurários. Isso aconteceu e acontece, por exemplo, entre as comunidades autóctones do Brasil, cujos habitantes vão morrendo ou deixando de falar suas línguas. Esta é, sim, uma perda cultural irreparável, e muitos cientistas brasileiros dedicam-se a registrar as formas e as estruturas desses idiomas antes que eles e seus falantes desapareçam por completo.

Por outro lado, se as pessoas não conseguem apropriar-se da norma padrão e conhecer as suas condições de uso, limitando-se a usar apenas aquela que faz parte estritamente de seu grupo social independentemente dos contextos em que se colocam, estando por isso sujeitas a problemas de comunicação, emudecendo diante de um discurso cuja forma não conseguem alcançar, e sendo oprimidas por preconceitos de uma elite que as marginaliza, o problema não é de uma língua supostamente “pobre”, e nem das pessoas que a usam, mas sim de um sistema sócio-econômico e de transmissão de conhecimento que lhes nega condições de experimentação da linguagem em variados espaços e modalidades, negando-lhes assim as chances de se defenderem contra quem explora a sua força de trabalho.

Portanto, Jaciara Carneiro não acerta quando diz que a língua portuguesa está sofrendo maus-tratos; pelo contrário, ela está cada vez mais pujante e diversificada, depois de quase mil anos de existência oficial. Mas Jaciara está certíssima ao concluir pela necessidade de um projeto educacional brasileiro que, para a diminuição das desigualdades sociais, minimamente cubra o direito de cada cidadão ao acesso à norma padrão, ao lado das outras normas que também são fundamentais para a comunicação num país tão rico em tradições e culturas quanto o nosso. Deverá fazer parte deste projeto, obrigatoriamente, o amadurecimento da idéia do que é de fato o erro de português, mas agora numa dimensão dialética, que busca a essência do que as variantes da língua portuguesa representam para a nossa sociedade, e não numa dimensão retórica, que toma a forma pelo conteúdo e tem sido arma de tirania histórica, desqualificação e anulação do discurso, da auto-estima e dos valores do brasileiro.

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