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Mark Manahan - Publicado em 21.02.2005




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Lutar contra o Imperialismo em substância pressupõe a luta contra todo e qualquer Imperialismo. Não apenas contra o dos EUA mas de qualquer país que o exerça. A França é um dos países que sempre soube se manter, por séculos numa posição dominante em relação ao resto do mundo, impondo não só exploração econômica a outras regiões, como gostos, modismos, costumes e muitas vezes sangrentas ações militares, tendo mesmo inaugurado os modernos métodos de tortura como forma de repressão do Estado a grupos insurgentes na guerra de independência da Argélia (1954-1962).

Aliada a essa atuação secular e brutal o cultivo da autoimagem do país como sede da cultura, das boas-maneiras, do chic, mostra claramente o uso da propaganda como política de Estado. Isso fica tanto mais evidente quando se compara a quantidade de vezes em que os franceses são lembrados como imperialistas a por exemplo, os americanos ou os britânicos. Pesquise o leitor na web. Parece que os franceses se esmeram em ficar em segundo, em nunca fazer muito alarde das suas conquistas, dos seus imensos contratos comerciais, principalmente na área militar – incluindo a última grande série de explosões nucleares como teste em 1997, foram 6 – da sua venda de armas para estados militarizados como o Iraque da época de Saddam, e muitas vezes para estados inimigos do Ocidente, embargados pela ONU.

A França sempre procurou ter uma política própria. O que no palco das nações não quer dizer exatamente “fazer papel de mocinho” como seus propagandistas gostam de alardear. Sabemos que nações não têm amigos, tem apenas interesses. E no jogo da política mundial, o que importa não é “quem faz as coisas por interesse” e quem não faz. Mas antes “de que modo” cada povo, grupo, país defende seus interesses. Se é de um modo brutal como faziam os soviéticos ou os chineses – alguém já leu o Livro Vermelho de Mao ? – ou se é de modo a conquistar adeptos para a causa trazendo não só armas mas auxílio, ainda que toda espécie de ajuda tenha um preço. A guerra e a conquista não são feitas para entregar tudo de mão beijada aos derrotados, mas concede-se uma parte do poder sempre que isso possa ser útil ao conquistador ou sempre que esse conquistador não tenha meios de manter o poder diretamente – os romanos tornavam os povos conquistados mais confiáveis em federados, aliados em consórcio. Em geral esses povos tinham rixas antigas com povos vizinhos e os romanos escolhiam quem iria auxilia-los pois entravam como 3o. poder e poder dominante. Mais ou menos como os europeus fizeram na conquista da América entre as tribos indígenas. Os portugueses usaram os Tamoio contra os Tupi na subida do Tapajós e exterminaram muitos aldeamentos indígenas dessa forma. Ódios tribais antigos sempre prestaram bons serviços aos impérios.

John Keegan, Historiador Militar da Academia Real Britânica em Sandhurst nos conta em sua obra "Uma História da Guerra", que uma listagem com as batalhas mais importantes dos últimos quatro séculos na Europa, e os seus contendores, coloca a França em primeiríssimo lugar com 48% de participações! A Dinamarca por exemplo, teve apenas 2%. Claro está que mesmo entre os europeus os franceses sempre estiveram envolvidos em mais guerras do que qualquer outro povo, apenas fizeram menos anexações de território, exceção feita à época de Napoleão, que aliás apenas inaugurou o período das grandes anexações que viriam após sua morte, como o início da colonização africana em 1830, com a própria Argélia, e mais tarde em 1861, a brutal invasão ao México que nos toca diretamente como americanos do continente.

Na História do México, as anexações feitas pelos EUA – Texas, Califórnia, Novo México – aparecem sempre mais vivas na memória do que a ocupação total do território mexicano que os franceses fizeram nesse episódio do século XIX. Talvez porque as anexações norte-americanas não tiveram mais volta, eram fronteiriças e a ocupação já vinha sendo feita pelos irmãos do norte, mais ou menos como o ocorreu com o Acre, tomado aos bolivianos indefesos pelo Brasil. A motivação para a invasão francesa e tomada do país é que parece surpreendente. Dívida externa. Não pagou, invadimos. Esse foi o pretexto. Nas guerras entre México e EUA a agressão quase sempre partiu dos caudilhos mexicanos, que muitas vezes queriam forçar o governo americano a conceder “empréstimos” que na verdade seriam resgate por regiões invadidas e ocupadas pelos chefetes ditatoriais mexicanos. Só que o Exército Federal Americano foi lá e não houve concessão alguma, ao contrário os mexicanos é que perderam território como resultado da sua aventura política mal-calculada contra uma nação em formação mas com uma organização mais eficiente. Na invasão francesa deu-se o contrário. E todo tipo de mercenário da Europa foi trazido, instalando-se até mesmo um imperador austríaco, aparentado a monarquia francesa – Maximiliano I no suposto “trono” mexicano. Data dessa época, conforme já destaquei em outro artigo aqui no Dupli, a criação do termo “América Latina”, pelos próprios franceses, de modo a cimentar um crescente distanciamento entre a América Espanhola e os EUA. E claro, nós como sempre, compramos a briga dos outros quando adotamos aquela querida expressão.

Recuar ao século XIX é interessante porque a política francesa era de agressão...a invasão de Portugal, que jogou o Brasil nos braços da Inglaterra e recuando ainda mais temos as tentativas coloniais francesas no Maranhão e no próprio Rio de Janeiro. Infrutíferas. Não foram como as colonizações francesas nas ilhas do Caribe, cuja opressão foi tão brutal que não puderam se desenvolver até hoje. O Haiti é um belo exemplo. A reação ao regime colonial francês praticamente suprimiu o elemento branco da ilha, que era aliás um objetivo declarado dos rebeldes, escravos africanos. Quanta simpatia os franceses deviam despertar... Os resultados do modelo colonial francês saltam aos olhos.

É interessante lembrar ainda os episódios das 3 guerras do Ópio. O que é ensinado hoje sobre isso? Que a Inglaterra massacrou os chineses para abrir os canais de venda do Ópio, então em franco combate por parte do Imperador da China. Mas acontece que os ataques na 2a e na 3a guerras do Ópio foram anglo-franceses...voltamos à nossa equação: quem era a potência dominante da época ? A Inglaterra...os franceses só fizeram dar uma ajudinha para respaldar seus interesses imperialistas, então em franca expansão na Ásia. Poucos anos depois começariam a conquista do Vietnã que só largariam a peso de unhas, armas e dentes quase um século depois em Dien Bien Phu, 1954. Não é interessante quando pensamos que eles eram a 2a. potência imperial mas praticamente desaparecem dos livros e principalmente dos discursos anti-imperialistas?

Talvez seja coincidência demais ou paranóia minha mas.....quem era a segunda potência colonial da África? A França. Com um detalhe. A primeira potência já se foi há tempos como parte atuante no continente em quase todas as ex-colônias. Mas qualquer pesquisa sobre a Legião Estrangeira mostrará que eles estão em inúmeras ex-colônias da França “garantindo a segurança dos cidadãos franceses e estrangeiros”. Diga-se que de Estrangeira, a Legião só tem o nome pois foi formada na França e obedece a um contrato exclusivo de serviços prestados ao governo francês. Aceita gente do mundo inteiro, até mesmos os não-falantes de francês, mas nos cinco anos de treinamento do contrato inicial de um recruta, ele têm aulas de...francês ! Voilá ! Acrescento que a mesma Legião foi formada em 1830, para dar impulso a aventura colonial francesa na Argélia, que se expandiria nos anos finais do século XIX para boa parte da África Ocidental, árabe – que os odiavam – e subsaariana.

E depois temos uma belíssima e encantadora senhora Danielle Miterrand para vir no Brasil dizer que está aqui para fazer doações em função de demandas sociais “mundiais”. Quão maravilhosos eles são...nunca em seus discursos há a defesa de interesses franceses... mas do mundo. Sempre.

É incrível a operação de metalinguagem e metaposturas – se me permitem o neologismo um tanto dúbio – das declarações francesas. Eles são os únicos? Claro que não, todas as nações fazem isso, todas as declarações públicas são engodos em algum grau. Mas o incrível é constatar o quanto eles escapam lisos e perfumados em tudo que fazem. O episódio de 1997 é clássico. O governo francês tinha 6 detonações nucleares agendadas para a área do pacífico em ilhas que muitos descreveriam como santuários ecológicos. A rede de protestos levantou-se no mundo inteiro, para surpresa minha que já estava convicto que os “protestistas” só se levantavam em massa contra os EUA. As manifestações vieram, nada em escala comparado aos ataques a Kosovo ou a outras questões envolvendo os EUA, como o Protocolo de Kioto, não assinado também pela China, terceiro maior poluente do mundo. Mas quem faz caso disso não é mesmo? Os chineses precisam crescer...por favor poluam à vontade que a emissão de 11 trilhões de m3 gases tóxicos chineses por ano nos últimos dez anos é perfume para nós anti-imperialistas conscientes...que interessa se esses gases chineses provocam chuvas ácidas sobre a Sibéria e as Coréias? Voltando aos nucleares franceses de 1997, foram detonados. Em nenhum momento houve qualquer concessão e os porta-vozes do governo francês, limitaram-se a dizer o óbvio: os contratos estavam pagos de longa data (feitos sob Miterrand que governou até 1994?) e as explosões seriam realizadas “sem nenhum risco de dano ambiental”. E ninguém lembra muito disso, mas os verdes na Alemanha estão sempre prontos a falar sobre o poderio nuclear americano.

Em 2004 um episódio recente chamou a atenção. O ataque às tropas francesas “mantenedoras da paz” na Costa do Marfim. Uma longa e sangrenta guerra civil estava sob trégua há quase dois anos. Num episódio bastante mal explicado oito soldados franceses foram mortos por um ataque de um jato do governo – não duvido aliás que fosse armamento francês... Pois bem, o governo francês não pediu autorização da ONU, não consultou ninguém e não avisou: o porta-voz apenas anunciou: “houve o ataque às nossas forças e nós JÁ CONTRA-ATACAMOS destruindo a aviação do governo agressor”. Ulalá ! Algum protesto internacional? Não....mas os africanos locais incendiaram várias casas e atacaram europeus residentes no país. Até uma brasileira fugiu de lá com medo conforme veiculado no JG. E que apoio esses africanos tiveram para as várias mortes civis causadas pela reataliação francesa Onde estão os protestos? A ONU? Assim é a política internacional. Você ataca e se controla as vozes, os jornais, as notícias, não se vêem os cordõezinhos marchando pelas ruas contra você. Isso nos faz pensar sobrem quem são os reais poderosos do mundo e quem é mais alvo de protestos a cada ação que faz.

Ser um apologista da França, das maneiras, do país e dos costumes franceses, da sua imensa cultura é um grande negócio. Ninguém nega claro, as imensas realizações deste país belíssimo e que tanto contribuiu com homens e mulheres ilustres para o gênero humano. Agora, como em tudo, é sempre bom olhar o outro lado da moeda, pois nossas análises se tornam repetitivas e nulas quando teimamos em sempre demonizar as ações de um país e endeusar a outro. Toda vez que isso acontece há uma forte suspeita que o discurso anti-imperialista unilateral não seja motivado apenas pela luta contra o imperialismo. Há gerações inteiras de militantes educados na crença – isso mesmo uma crença fanática – de que os EUA respondem por todo e qualquer imperialismo. Ledo Engano. Existem outras vontades de potência no mundo, que tanto mais lucram em seus objetivos quanto mais se olha apenas para um lado. É preciso acrescentar que dos credores da dívida externa brasileira, uma Holanda responde pelo 4o. lugar, por exemplo. Ou, voltando ao tema deste artigo, que o maior banco estrangeiro de capital privado presente no Brasil é francês assim como a maior rede estrangeira de supermercados. Saber olhar o segundo, o terceirp e o quarto bem como os outros lugares, é saber ter uma visão do conjunto, pois não se trata de uma premiação. É preciso abranger o quadro todo ao invés de ideologizarmos em torno de uma postura anti-qualquer-coisa. No frigir dos ovos, os imperialismos que mais se escondem – ou menos são acusados – têm um projeto muito mais próprio e não-coletivo do que os primeiros da lista, eternos alvos dos míopes da análise política, incapazes de enxergar os gigantes que vêm logo a seguir na lista. Miopia ou má-fé? Ou ainda financiamento de uma das ONGs da sra. Miterrand?

Finalizo minha crítica, deixando claro que não quis fazer uma apologia da luta anti-imperialista, mas sim criticar a incompletude do pensamento e das ações de alguns que abraçam tal causa, lançando suspeitas sobre suas reais intenções – ou sua capacidade de análise e absoluta falta de perspectiva histórica – quando pecam por excesso de um lado e por esquecimento de vários outros. É preciso lembrar que os EUA não começaram sua existência política como Império ao passo que a França por aquela época já era uma potência imperial e colonizadora há vários séculos. E assim permanece até hoje.

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