Resenha do livro Memórias do subsolo de Fiodor Dostoiévski < Artigos < Duplipensar.net Português do Brasil  English 
 

 
Memórias do subsolo de Dostoiévski Livros de Fidor Dostoiévski Memórias do subsolo de Dostoiévski Livros de Fidor Dostoiévski Memórias do subsolo de Dostoiévski Livros de Fidor Dostoiévski Memórias do subsolo de Dostoiévski Livros de Fidor Dostoiévski Memórias do subsolo de Dostoiévski Livros de Fidor Dostoiévski Memórias do subsolo de Dostoiévski Livros de Fidor Dostoiévski Memórias do subsolo de Dostoiévski Livros de Fidor Dostoiévski  



Bruna Callegari - Publicado em 11.01.2005




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Memórias do subsolo é um livro perigoso. Aviso, antes de tudo, porque só se percebe quando já se está completamente envolvido por ele. É nesse momento que a leitura se torna prazer, porém um prazer amaldiçoado, absolutamente agressivo, quase masoquista e vicioso, e por isso perigoso.

Não se trata de uma leitura fácil, gratuita, ao contrário, paga-se caro por ela: acabamos esquisitos, duvidosos, infelizes.

Publicado em 1864 na revista literária Época, fundada por Dostoiévski e seu irmão Mikhail, o romance nos traz um homem desencantado, funcionário da baixa burocracia russa, que mora com o empregado Apólon num modesto apartamento no subsolo de um edifício. Angustiado e pessimista, esse homem sem nome nos revela, por sua própria voz, um absoluto desprezo pelo mundo a sua volta e, ao mesmo tempo em que escolhe a solidão, parece, em certos momentos, amargurar-se ainda mais com ela.

Dostoiévski nos avisa antes de iniciarmos a leitura: “Tanto o autor como o texto destas memórias são, naturalmente, imaginários. Todavia, pessoas como o seu autor não só podem, mas devem existir em nossa sociedade, desde que consideremos as circunstâncias em que, de um modo geral, ela se formou.”

A despeito do fato dessa declaração introdutória já marcar uma ruptura na ficção convencional do século XIX por questionar diretamente o propósito da literatura em sua relação com o que representa, ela é de extrema importância porque revela um eixo central da obra: a sociedade moderna.

Ora, o que cargas d’água esse tal homem do subterrâneo está querendo me dizer? Que droga de maluco ele é? O leitor se pergunta a todo o momento, mas, na realidade, não se pode entender completamente esse homem. A única certeza que ele nos dá é a sua profunda aversão pelo racionalismo e pela mentalidade positivista, marcantes do século em que vive: “(...) dois e dois não são mais a vida, meus senhores, mas o começo da morte. Pelo menos, o homem sempre temeu de certo modo este dois e dois são quatro, e eu o temo até agora.”

Esse homem do subsolo, portanto, é o retrato impiedoso da constituição de nossa sociedade moderna, fundamentada na razão iluminista, e de suas contradições. Ele é o embrião de toda a produção chamada madura de Dostoiévski: Crime e castigo, O idiota, Os demônios e Irmãos Karamazov, em que a profunda complexidade e ambigüidade do humano moderno, já presentes em nossa personagem, são levada ao extremo. A relação agônica entre desejo e culpa e a linha frágil que separa a demência da razão, marcas do subsolo que nos fazem como baratas tontas durante a leitura, são ainda mais intensamente exploradas por Dostoiévski nessas obras posteriores, em que inevitavelmente se vê o espectro do nosso homem.

Elaborado na cabeceira do leito de morte da primeira mulher do escritor russo, Memórias do subsolo se divide em dois momentos. “O subsolo”, em que o autor apenas se apresenta, “Sou um homem doente... Um homem mau. Um homem desagradável”, escreve seus pensamentos e explica, basicamente, sua inserção nesse mundo moderno, e “A propósito da neve molhada”, em que nos traz um recorte bastante interessante de seu passado, quando finalmente começamos a compreender algo além da retórica inicial.

É somente neste segundo momento que nossa personagem ganha vida, ganha realidade, porque afinal é quando a enxergamos em sua relação com outros homens. Só então nos damos conta de que ela se parece muito conosco: suas inseguranças e pensamentos interiores, seus rancores e felicidades repentinas, seus atos doentios e, sobretudo, sua existência cotidiana mergulhada numa completa metafísica paradoxal.

Ao mesmo tempo em que devasso, incrédulo, hostil, “Vou explicar-vos: o prazer provinha justamente da consciência demasiado viva que eu tinha da minha própria degradação”, é também estranhamente indefeso, inseguro, dócil.

Vê-se o homem contra a sociedade e contra a própria natureza e isso não nos parece retórico, ao contrário, nos parece competência em representar (ou apresentar) a pluralidade do real.

Memórias do subsolo é um livro doloroso porque no fim das contas sabemos, como o homem do subterrâneo, que “o melhor não é o subsolo, mas algo diverso, absolutamente diverso, pelo qual anseio, mas que de modo nenhum hei de encontrar”.

Ainda assim, mesmo que custosamente, essa leitura não nos deixa negar que “há prazer até mesmo numa dor de dentes”.

De qualquer maneira, como ele, “não creio numa só palavrinha de tudo quanto rabisquei aqui!”

Este artigo faz parte da parceria com o IlhaBrasil.net.

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Livro - Memórias do Subsolo - FIODOR DOSTOIÉVSKI

Biografia de Fiodor Dostoiévski
Fiodor Mikhailovitch Dostoievski (1821 - 1881) O segundo filho de um médico, (que fugiu de casa para não entrar num seminário) Dostoievski nasceu em Moscou, a 11 de novembro de 1821. Estudou em internato e, depois que sua mãe morreu (1837), seu irmão o levou a São Petersburgo, para estudar engenharia numa escola militar. Viajando pela primeira vez pelo país, o jovem conheceu a realidade dos pobres. Na escola de engenharia foi infeliz, exceto por suas leituras: Hoffman, Schiller, Shakespeare, Balzac e muitos outros autores, russos e estrangeiros. Seu pai foi morto em 1839 por camponeses que trabalhavam para ele (tratava-os com brutalidade). O escritor nunca se referiu a esse fato, mas é certo que a tragédia não o tornou indisposto à classe camponesa da Rússia, pelo contrário. Sua primeira produção literária, aos 23 anos, foi uma tradução de Balzac (´Eugénie Grandet´).No ano seguinte escreveu seu primeiro romance ("Os pobres"), que foi bem recebido. Com os escritores e críticos que conheceu tomou contato com os ideais revolucionários. Juntou-se aos socialistas. Vivia em dificuldades nesses anos, tendo renunciado à herança paterna. Nessa época também sua epilepsia começou a se manifestar. Foi preso com um grupo de amigos socialistas em 1849. No julgamento que se seguiu, por alguma razão Dostoievski foi considerado o líder do grupo e condenado à morte. A sentença foi mudada por intervenção do imperador em 4 anos de trabalhos forçados na Sibéria seguidos de alistamento compulsório no exército. (Essas experiências foram registradas em ´Memórias da casa dos mortos´, 1862.) Ficou no exército até 1858, quando sua saúde o obrigou a pedir dispensa. Casara-se no ano anterior com Marya Isaeva, mas foi um casamento infeliz. Por essa época retomou, mas timidamente, sua atividade literária. Já não era mais socialista. Voltou a São Petersburgo em 1859 e nos vinte anos seguintes escreveu seis longos romances, entre os quais suas obras-primas: ´Crime e castigo´ (1866), ´O idiota´ (1869) e ´Os irmãos Karamazov´ (1879). Seu segundo casamento, com Anna Snitkina (1867), ocorreu três anos depois da morte de Marya. Logo depois marido e mulher tiveram de fugir dos credores para a Alemanha. Viveram também na Suíça e na Itália. De volta à Rússia, Dostoievski estava transformado num conservador, capaz de ser o editor de um periódico reacionário. Morreu em São Petersburgo, a 9 de fevereiro de 1881.



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