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Inicial » Artigos » O Dia Internacional da Mulher é hoje O Dia Internacional da Mulher é hoje
Antes que digam, eu aviso: sei que a comemoração é em oito de março. Cheguei a pensar em aguardar até a data, mas decidi que não importa em nada o dia em que o texto é publicado, Dia Internacional da Mulher deve ser todos os dias.
Este texto foi originalmente escrito e enviado para várias mulheres que conheço em 8 de março de 2004. Acabei por fazer algumas adaptações e complementos que não alteram o conteúdo, mas mudam o texto original.Publicidade
Sem mais, vamos ao texto.
Parabéns a todas as mulheres pelo dia de hoje, já que eu acredito que Dia Internacional da Mulher são todos os dias do ano, dado o amor e o respeito que sinto pelas mulheres que habitam ou habitaram minha vida. Nunca ergui a mão para agredir nenhuma e evito ao máximo que posso qualquer atitude machista. Não mereço parabéns por isso, não devo receber nenhuma medalha e nem estou buscando qualquer tipo de agradecimento, pois nada mais faço do que o que deveria ser o certo e o corriqueiro. Mesmo tomando cuidado incorri em erros ao longo da minha vida. Por isso peço perdão a todas e quero explicar (não justificar, pois não existem justificativas) que somos criados em uma sociedade machista e falocentrista que nos (a nós, homens) torna insensíveis a alguns atos involuntários. Não que todo o machismo é involuntário, pois não é mesmo. Nos desculpem, mas nós, homens, mesmo com alguns bilhões de neurônios a mais (que existem para acompanharmos as mulheres e, mesmo assim, não conseguimos) precisamos recorrer a atos burros para evitar que vocês descubram que são mais inteligentes e capazes do que nós, pois não usam somente a razão. Vocês usam a emoção e é isso que as faz melhores do que nós, tolos homens. Desculpem-nos! Parabenizo as vitórias e conquistas das mulheres desde o incêndio na fábrica em New York que deu origem a data até os dias de hoje. Conquista do voto, controle da natalidade, mercado de trabalho, direito a candidatarem-se a cargos públicos, cargos elevados em empresas privadas e públicas, entre outros. Acho importante dizer que essas conquistas não lhes foram dadas como um presente, mas lhes foi entregue o que já era de direito de vocês. Nada, além disso. É isso? Acabou e não é preciso mais nada? Conquistaram tudo e não precisam mais lutar? Não! Claro que não. Existem muitas outras conquistas como mudar a histórica diferença salarial (mulheres recebem cerca de 40% menos do que homens em um mesmo cargo), acesso a cargos públicos, já que existem poucas deputadas, pouquíssimas senadoras e nenhuma presidente (considerem que são 57% da população, ou seja, a maioria), diminuição da violência: estupros (que, como se não bastasse o crime em si, as agredidas ainda passam por humilhações em delegacias), esposas agredidas por animais acéfalos e com uma latente homossexualidade reprimida (veja: nada, absolutamente nada, contra gays, eu acredito que cada um deve ser feliz da forma como melhor lhe convir e não me cabe a dizer como esta forma se dará, só tenho contra os que são covardes para assumirem-se e descontam essa frustração em uma mulher). Tem muito mais: acabar com essa tentativa de transformá-las em objeto (vulgarização, mulheres mostradas como utensílios ou como pedaços de carne para consumo nas TV’s – como já disseram: temos TV a cabo e TV a rabo -, assim como em peças publicitárias, alguns grupos de axé/funk/pagode – cada um gosta da música que quiser, mas não é necessário expor as mulheres da forma como são expostas), entre outras lutas. Há poucos anos a Kaiser fez um comercial que dizia que eles haviam feito uma pesquisa sobre “quais eram as ‘coisas’ que o brasileiro queria ver em comerciais de cerveja”. Mulheres ganharam com X% (não lembro os números), extraterrestres ficaram com Y%, animais ficaram com Z% e não sei mais o que ficou em último. Muitas mulheres e alguns homens ficaram indignados e enviaram vários e-mails para a cervejaria e para a agência publicitária por colocarem a mulher como “coisa”, e o comercial saiu do ar em pouco mais do que uma semana. Esteve no ar há pouco tempo outra propaganda mais sutil. Era da Nestlé, sobre um chá em lata (creio ser Nestea o nome do produto). Nela aparece uma mulher passando aspirador de pó na sala enquanto seu marido está sentado no sofá lendo jornal. Faço três perguntinhas: porque em um comercial de chá é preciso colocar esse tipo de “definição de papéis” em uma casa? Em qual comercial nós (homens e mulheres) acreditamos ser “aceitável” esse tipo de “definição”? Não saberei precisar o ano (algo entre 1998 e 2000), mas me lembro da indignação, com toda razão, de minha ex-mulher com uma reportagem na revista Nova da editora Abril. A reportagem tinha o seguinte título “Dez coisas para você (referindo-se às leitoras da revista) fazer para não perder seu homem”. Dentre as preciosidades que a revista, dita feminina, aconselhava a fazerem estavam alguns absurdos. Sinceramente não vou reproduzir aqui quais eram, porém havia um conselho que achei curioso: levar café na cama todos os dias (café na cama é muito bom, mas todos os dias? E porque só a mulher deveria fazer isso?), deveriam mudar o título para “Dez coisas para você fazer para não perder seu patrão”... Por um acaso vocês (homens e mulheres) sabem que em alguns casos de estupro a defesa do criminoso usa como argumento algo que já fez parte das leis vigentes: a roupa que a vítima estava usando na ocasião do crime? Sim, dependendo da roupa da vítima (se for considerada “provocante”), ela deve ter merecido ser estuprada! Um absurdo. A roupa da mulher me dá o direito de abusar sexualmente dela? Onde estamos? Estamos no país que tem um famoso “eterno” candidato responsável por uma das frases mais delicadas da política brasileira: “Estupra, mas não mata”. Só faltará incluir nas leis que um homem munido com seu tacape último modelo poderá interpelar uma mulher golpeando-a na cabeça e arrastando-a até a sua caverna (própria quitada, financiada, ou alugada). Caso se institua uma lei tão moderna como esta, espero que complementem com um “iabadabadúúúú” no final. Para quem pensa que as atitudes machistas mais evidentes estão relegadas aos rincões do interior do Brasil e não mais em grandes centros, conto uma história que vivi. Há poucos anos conheci uma mulher (não vou dar maiores detalhes para não colocá-la em uma situação desconfortável). Simpática, gente boa. Imprimi e mostrei este texto (não exatamente este, mas o que deu base para este artigo) para ela. De repente ela começa a chorar e explica o porque. Seu marido queria proibí-la de trabalhar, “mulher tem que cuidar da casa”, dizia o figura. Depois não queria que ela fizesse faculdade, “para que, se você não vai precisar?“. Me senti muito mal naquele momento por dois motivos maiores. Pelo sofrimento que ela estava passando e por saber que um ser irracional daqueles faz parte da mesma raça que eu. Só pude dar um único e “seco” conselho para ela: largue o imbecil. O que aconteceu? Ela continua com ele. Suponham o resto, não é difícil de imaginar, nem é um exercício mental muito grande para saber o que acontece. Finais felizes brotam aos montes somente em novelas, na vida real não estão tão presentes assim. Um complemento à esta história: não vou julgar o posicionamento dela, porque não estou em sua pele para saber o que se passa e o porque de não ter se separado. Mas que ela deveria ter buscado sua independência longe do boçal, deveria. Este é o resultado de uma sociedade baseada, como diriam Freud e Lacan, no falocentrismo: o homem é a norma e a mulher é tudo o que é diferente dele. Ou melhor, o falo é o centro e sua falta é adjacente. |
No início do ano passado um cara saiu com uma conhecida minha. Até aí, nada de mais. Depois ele começou a fingir que ela não existia. Não entendi e perguntei o que estava havendo, já que ele estava tão interessado e por isso foi atrás dela no início. O cara me respondeu simplesmente que não podia namorar alguém que tinha “dado” (mantenho o que ele disse para dar veracidade à história, mas é de sexo mesmo que ele estava falando) para dois caras que ele conhecia. “Ela não é para namorar!” Publicidade
A resposta foi tão surpreendente que precisei de um tempo para refletir e perguntar se ele estava falando sério. Ainda mais com o complemento de que ela não é para namorar. Este tipo de pensamento é no mínimo risível. “Lógico que estou!!” me respondeu indignado com a minha pergunta. Homens assim existem às pencas por aí, infelizmente. Homens que temem o que os outros vão pensar (os outros que possuem um cérebro um tanto quanto atrofiado, como o dele). Homens que temem a comparação, já que a maioria é formada por inseguros mesmo e quanto menos a mulher conhecer, melhor ele pode fingir que se sai, já que a ela faltará experiência. Homens que separam mulheres em grupos: essa é para “comer” (desculpem o termo, mas quero manter o que é dito realmente e não o que é politicamente correto dizer) e essa é para namorar. Ai da pobre coitada da namorada que queira algo diferente na cama, que queira algo melhor. Ai daquela que queira algo tão horripilante para muitos homens e que chega a ser quase impronunciável... Vou falar baixinho: orgasmo (não leia em voz alta!!!). Meus amigos homens, pensem melhor e tirem proveito desta situação. Se a mulher tem alguma experiência, ótimo. Inconveniente, pelo menos para mim, é ela ter outras experiências enquanto está comigo. De resto, eu nem me preocupo e vocês, homens, também não deveriam se preocupar. É interessante também quando alguns homens dão notas para as mulheres. “Olha lá, aquela é nota 8!”, “Não gostei muito, ela é nota 5”. Incrível uma coisa destas. Não consigo entender estas atitudes dos meus pares. Fico cá meditando se eles não têm mãe, se não possuem namoradas (ou mulheres), se não têm irmãs. Será que é isso que desejam para elas? Este tipo de tratamento? Desejo fazer a todas as mulheres (e homens que leiam e concordem) algumas sugestões e pedidos: • Apóiem mulheres decentes na política (decentes, porque vocês entenderiam se eu não votasse em algumas da laia de uma Roseana Sarney, não entenderiam?); • Não aceitem ser subjugadas ou transformadas em objeto; • Cuidado com alguns programas e algumas revistas (não são todos) ditos “feitos para a mulher”, pois trazem muitos valores deturpados e são mais machistas do que a maioria dos próprios homens; • Denunciem qualquer violência sofrida, e se houver humilhação na delegacia, denunciem os policiais também para a corregedoria; • Um homem que bate uma vez, bate duas, três, quatro vezes. Não aceite isso, denuncie o pulha e se separe deste atraso de vida. Têm erros que se deve perdoar e dar uma segunda chance, têm outros que você pode até perdoar, mas não espere por mais uma vez; • Enviem e-mails para empresas (TV’s, publicitários, comerciantes) assim que perceberem que há um machismo no seu comercial. Na pior das hipóteses eles não vão mudar sua forma de pensar, mas vão mudar a forma de expor suas idéias e vão pensar duas vezes antes de fazer um comercial (acabarão evitando disseminar esse tipo de idéia); • Lutem por seus direitos, pois são seus direitos e estejam certas que existem homens que aplaudirão e ajudarão; • Recebi um e-mail há pouco tempo chamado “Direitos Sexuais das Mulheres” e quero destacar três itens com os quais concordo: • Direito de ter orgasmo; • Direito de ser livre na intimidade; • Direito a se relacionar com quantas pessoas quiser, quando quiser, quantas vezes quiser. • Acreditem que existem homens que concordam com uma frase da Rita Lee (desculpem-me, mas fiz uma pequena adaptação): nem toda bruxa é corcunda, nem toda mulher é só bunda; • Creiam que existem homens que não dividem uma mulher em partes, como se fosse gado (carne de primeira, de segunda, lombo, etc), para escolher a que vai levar para casa e consumir. Não vou ser hipócrita aqui posando de “bom moço”, de “rapaz sério” e que não repara no físico da mulher, nem pensa em como ela deve ser na cama porque estaria sendo um mentiroso. A diferença é que eu não penso só no físico. Nem é o atrativo principal em uma mulher. Preciso de mais. Quero saber o que ela pensa, como ela é, quais são suas preferências. Gosto da mulher como um todo e não em partes. Pedaços de carne para consumo eu busco no açougue, não em um relacionamento. Tem uma poesia (da qual sou o humilde autor) e que quero dividir um trecho com os (as) leitores (as): Quero tudo Quero você por inteiro Não quero metade Não quero só uma parte Quero sua totalidade. Quero a plenitude Quero a cumplicidade Quero sua essência Quero você inteira Com suas soluções e seus problemas. Enfim, não quero um pedaço da mulher eu a quero como um todo. E o “querer” não se trata de possessão e nem se trata de uma vontade de colocá-la em uma redoma intocável. O “querer” aqui reflete outro tipo de sentimento. Um último comentário: existem muitas mulheres que são tão machistas quanto homens. Revejam seus critérios, suas formas de pensar. Isso serve para todos os homens também, revejam suas atitudes. Vou rever as minhas, porque acho que ainda tenho cometido muitos erros. Neste artigo mesmo é capaz que encontrem alguns... Artigo de Ricardo Boessio dos Santos. Leia também: • Frases, textos e história do Dia Internacional da Mulher - Daniel Silva • Se os homens fossem mulheres - Antonio Brás Constante • Sou mulher. Com muito orgulho! - Cybele Meyer |
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