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Ricardo Boessio dos Santos - Publicado em 14.03.2005




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O mesmo e-mail me fez pensar em algumas coisas.

Aliás, não é nem pensar e, sim, fazer uma conexão com algo que andei percebendo de uns tempos para cá. Vocês já perceberam que as gerações mais novas estão se tornando a geração do “uhú”? Tudo o que falam para eles é respondido com este termo com o último “u” esticado ao máximo que se pode: uhúúúúúúúúúúúúúúúúúúú. E sempre gritando.

Existem as variações: yeahhhhh, ihííííííí, hááááááá.

Parece-me que a nova geração está se tornando na geração da onomatopéia. Ninguém tem opinião, ninguém consegue falar nada sem uma das onomatopéias serem proferidas à exaustão.

A maioria não consegue falar, só grita.

Sempre que me deparo com estas cenas me lembro do Woody Allen e sua incrível perspicácia em notar o cotidiano e fazer das cenas habituais do cotidiano algo engraçado, sem perder a veracidade. Tudo bem, às vezes ele exagera um pouco, mas acredito ser motivado pela vontade de dar ênfase em alguma situação, deixá-la bem a mostra. Poderia dizer que ele faz no cinema algo que os cartunistas fazem em seus desenhos. Pega-se um detalhe e á mais “tinta” nesse detalhe para torná-lo bem aparente.

Em um dos seus filmes alguns casais estão conversando em uma mesa de restaurante, só que estão falando ao mesmo tempo, um ignorando o outro, mas sempre tentando impor a sua fala.

Eles vão falando cada vez mais alto, cada um diz uma coisa diferente até que chegam a um clima absurdo e começam a cuspir um nos outros.

Egocentrismo puro. O que importa é o que eu tenho a dizer e não o que os outros têm a dizer.

Coisa de cinema? Não. Vira e mexe me vejo em situações semelhantes a essa que Allen reproduziu na película.

Quantas vezes você não se vê em uma conversa em que sua fala é sempre cortada por uma pessoa que tem algo mais importante, na concepção dela, para dizer do que você? Isso me aconteceu várias vezes.

É neste momento que acontece algo semelhante à cena do restaurante no filme. Aquele (a) que é cortado (a) tenta impor, também, a sua vontade, a sua fala e corta aquele (a) que o (a) cortou falando mais alto.

O que eu normalmente faço? Me calo na primeira vez que sou cortado e às vezes tento falar novamente depois que suponho que a pessoa que me cortou terminou. Outras vezes me calo e não falo sobre o assunto mais.

Para que vou me desgastar ao disputar falas com alguém? E quem disse que o que eu mesmo diria tem alguma importância?

A facilidade para fazer isso é uma vantagem minha porque sou alguém que gosta muito mais de ouvir e observar do que de falar. Então, ser cortado por alguém não toca tanto a minha vaidade. Aliás, vaidade é o termo mais correto porque não existe somente a vaidade física da pessoa. Existem as vaidades artísticas (se o que você escreveu, fez, produziu, etc, é criticado, pode ser a morte para algumas pessoas...), a vaidade intelectual (qualquer pensamento diferente do seu tem que ser extirpado da face da Terra), entre outras vaidades.

Como já disse alguém (não lembro quem): fale devagar, mas pense depressa. Eu diria: fale devagar, pense depressa e repare em tudo.

Outra situação é a síndrome “Amaury Jr.” (aquele repórter-múmia que tem um programa que deve passar pelas madrugadas a fora e que possui o mote de o repórter ir a festas para fazer entrevistas débeis com os abastados, além de fazer fofocas).

Vou explicar. É quando você está falando alguma coisa com alguém e esta pessoa está olhando para outro lugar, interessada em algum ponto distante, ignorando completamente o que você diz naquele momento.

As pessoas têm que ficar vidradas em você, prestando uma atenção detalhada no que diz e não podem se distrair, ou simplesmente o que você está dizendo não pode ser da mais completa falta de interesse? Não. Não é isso.

O que acontece é que algumas pessoas acometidas da síndrome “Amaury Jr.” nunca conseguem achar algo interessante que não seja algo dito por elas próprias. Eu disse: nunca. Não disse de vez em quando.

Algum tempo atrás conheci o irmão de um amigo que conseguia a façanha de possuir a síndrome “Amaury Jr.”, de ter o péssimo hábito de sempre cortar o que os outros estão falando e de emitir sons e grunhidos como os “uhús” da vida a cada palavra que pronunciava.

Era uma figura intrigante. Pensei “este cara está de parabéns, deve ter todos os piores hábitos, não deve faltar mais nada para ser pior”.

Ledo engano.

Quando o irmão estava falando algo para ele (lógico que ele estava olhando para outro lugar e acenando ainda!), ele simplesmente foi embora. Isso mesmo, no meio das palavras do irmão, que já caíam ao chão, ele simplesmente virou as costas e sem falar nada foi embora.

Fiquei pasmo com aquele cara. Era o fenômeno do egocentrismo, da falta de educação e da falta de respeito pelos outros. Ninguém é obrigado a agüentar uma conversa desinteressante. Claro que não, mas aquilo já era o absurdo. Acho uma tremenda falta de educação você pelo menos não validar a pessoa. Você valida o que ela está dizendo efetuando um ato que deve ser extremamente difícil para muitos: ouvir.

E o que isso tudo tem a ver com o e-mail que recebi do futuro universitário?

A ignorância total do rapaz, que não sabe nem escrever, denota bem o nível de pessoa que este é ao se comunicar. Parafraseando Schopenhauer, o limite da inteligência de um ser humano pode ser dado pela razão inversa do barulho que este emite ou pode suportar. Também o filósofo alemão acreditava que seu pensamento é o limite que você tem de colocar em palavras aquilo que você sente.

Se o limite desse pessoal é escrever este tipo de besteira, o que esperar deles? Se o limite desse pessoal é emitir alguns grunhidos ou sons do nível dos “uhús”, o que há de se esperar deles?

Com essa quantidade de onomatopéias que ouço sendo proferidas por muitos penso em uma frase do Quintana que já usei em outro texto e sob outro contexto, mas vou usá-la novamente, pois acho perfeita para essa situação: “O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser nosso futuro.”

E também com Mário Quintana eu finalizo este texto: “Cada pessoa pensa como pode...”

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