| |
.
|
|
Agora o rock é cool?
Maurício Gomes Angelo - Publicado em 16.01.2005

Publicidade

Moda sempre foi e sempre será apenas moda. E quando me refiro à “moda” obviamente não estou tratando apenas dos estilistas, do mundo “fashion”. Moda é todo movimento passageiro que procura impor algo como sendo “o melhor”, o mais indicado, o bam-bam-bam do momento. Portanto efêmero, superficial, duvidoso. E chegou a vez do rock! Agora o rock é a moda, agora o rock é cool!
Não que isso já não tenha acontecido antes (vide os anos 80 e início dos 90) e que a sempre pronta massa de intelectuais imbecilizados e despreparados não tenham elevado bandas medíocres ao status de “maiores gênios da história” – com algumas dessas lendas perpetuadas até hoje. Como apreciador e crítico de rock, essa “nova moda” certamente não me preocupa, sabemos bem que o rock nunca dependeu delas e que sempre subsistiu fortemente com seu público cativo e consciente. O rock é um dos poucos estilos que podem se gabar de ter uma base sólida, consolidada e ativa da simbiose bandas-gravadoras-imprensa-público sem depender da grande mídia, sem ficar escravo do que o rádio, a tv e os grandes jornais e revistas dizem que é bom. Só o nosso underground – sem contar os grandes expoentes - é muito mais forte do que a maioria do “mainstream” por aí. Ótimo que seja assim. Mas é profundamente curioso constatar o que a mídia insiste em fazer com o rock. É hilário assistir a dúbia relação que ela mantém com ele e mais ainda observar a nata inabilidade em lidar com o assunto.
Primeiro – e fundamentalmente - sempre o satanizaram e execraram-no, potencializando suas imperfeições e se apropriando de qualquer acidente ou algo que possa ser tido como “mau exemplo” para o desmoralizar, para tentar jogar sua existência e procedência exclusivamente nas profundezas do inferno, tentando ignorar ao máximo o que se apresentava latente e gritante perante seus olhos.
Um exemplo recente de como a grande mídia é tendenciosa, unilateral e inapta ao lidar com o rock foi a “cobertura” feita pela Rede Globo do assassinato do guitarrista da banda Damageplan (e ex-Pantera) Dimebag Darrel, morto a tiros durante um show ao qual morreram também outras três pessoas. Um espectador alucinado subiu no palco durante o show e disparou à queima roupa contra Darrel e em quem mais estivesse perto. Como sempre, o culpado não é o assassino, mas o próprio Dimebag, ou o estilo da música ou seu comportamento pessoal, ou qualquer subterfúgio barato e mal explicado que sirva para detonar o rock. Engraçado que quando fatalidades como essa acontecem em outras ocasiões e envolvendo outros estilos de música o tratamento dado nunca é o mesmo, sempre mais brando, mais aberto, mais compreensivo.
Engraçado que nunca cogitem analisar a influência que o “american way of life”, que pode ser estendido como “world way of life” tamanho o poderio americano no planeta, esta entidade sempre pronta para inverter valores, criar ídolos insignificantes, vangloriar a superficialidade, o vazio, o vácuo existencial, sempre relutante em apresentar coisas que exijam mais que um comportamento hipócrita, sempre pronta a criar modas, a dizer o que é bom e estupidificar o máximo possível o ser humano exerce nas pessoas.
Esse “world way of life” que é tão cultuado pela grande mídia, que é apresentado como bom, natural e inescapável. O culto à moda, o ode ao consumismo. Não soa familiar? Quando o mecanismo criado pela própria mídia, quando o mundo que ela tanto vangloria se volta contra ela mesma, sua primeira atitude é se esquivar. É negar sua responsabilidade, é jogar a culpa no próximo, mesmo que esse próximo – as coisas das quais ela se cerca justamente para isso – seje o rock.
O objetivo aqui não é colocar o rock como indefeso, como mera vítima inocente da cruel e opressora grande mídia. Mas analisar os curiosos meios pelos quais ela se utiliza dele. Ao mesmo tempo em que nos demonizam, utilizam-se de nossos frutos para conseguir audiência, desde que esses frutos possam ser manipulados à vontade por ela. Passam clips de rock, colocam músicas nas trilhas sonoras de suas novelas, fazem esporádicas entrevistas, retratam parcamente – porque não tem competência para tal - a moda que criaram, cobrem horrivelmente alguns festivais e criam reportagens que raramente conseguem sair ilesas sem nenhum resquício de preconceito ou tiração de sarro, além de usarem as piores fontes possíveis. Em suma: sugam apenas o que lhes interessa e regurgitam o resto. Usam como bem entendem e julgam estar fazendo o melhor. No alto de toda sua arrogância e prepotência (vide o comentário que o adorado Arnaldo Jabor fez sobre o incidente com Darrel citado acima), diante de toda a qualidade que acham que tem, os “maiores” veículos, os “melhores” jornalistas, a “idônea” mídia expõe toda sua limitação, preconceito e ineficiência. Elevam ao máximo que podem feitos irrisórios de artistas mais irrisórios ainda e ignoram a potência, a penetração, o poder do execrado rock n’ roll.
Ignoram a vendagem de discos e as turnês lotadas de seus artistas, que superam (e muito) a maioria de seus queridinhos do pop, do rap, da MPB. E quando são obrigados a reconhecer a legitimidade disto, quando tem que compor o vácuo editorial entrevistando alguma banda ou músico solo, logo deixam transparecer seu estranhamento e ignorância com relação ao entrevistado (como a pífia e lamentável entrevista conduzida por Jô Soares quando da passagem do Deep Purple em sua última turnê pelo Brasil). Fazem vista grossa à todo respeito, influência e exposição que o rock/metal brasileiro conseguiu lá fora, seja no Japão ou na Europa, onde vendem igual água, enchem casas de espetáculos e recebem considerada atenção da imprensa e tratam de alardear bombasticamente qualquer artistazinho medíocre que consiga alguma penetração no mercado estrangeiro, fazendo o público acreditar que são verdadeiros deuses mundiais e dignos de toda atenção possível. Como sempre o forjamento de valores, de ídolos, a manipulação de fatos, de notícias, como sempre o preconceito e a distorção da verdade reinam soberanos no encantado mundo da grande mídia.
Agora é a vez do rock estar na moda, agora é a vez do rock ser considerado “cool”, seus clipes são veiculados exaustivamente nas tvs, seus artistas são entrevistados por grandes veículos que não tem o costume de fazê-lo, seus álbuns vendem bastante para um novo público, para um público que só dá valor ao que está na mídia, para um público que conheceu o rock da pior maneira possível. Quem sabe alguns deles consigam ver um pouco além do esquemão montado e se tornem “rockers” na mais profunda acepção da palavra.
Não importa que o rock esteja em voga, que seus típicos acessórios sejam usados por quem não sabe nada a respeito, que suas camisas sejam trajadas por quem viu “a banda daquele clipe”. Isso tudo, como sempre, vai passar. Algum outro estilo irá ocupar o lugar do rock. Outros artistas serão sugados, serão vendidos como carne num açougue. Tomara que consigam sobreviver. Para o rock, para o verdadeiro fã de rock n’ roll, nada disso importa, nada disso faz sentido, nada disso influi, possuímos a auto-crítica mais voraz e contundente que conheço. Estamos aí há mais de 50 anos cada dia mais fortes, mais enraizados e consolidados sem a ajuda dessa mídia podre, independente desse matadouro, sobrevivemos e sobreviveremos a tudo isto.
Modas vêm e vão, somos avessos a esse tipo de coisa. O rock fica. É imortal. Amor, Lealdade, Honestidade e Qualidade são nossos lemas, nossa bandeira. É impossível para essa máquina entender. Sempre dizemos e continuaremos a dizer um sonoro “FUCK OFF!” para ela. Entenda de uma vez por todas que não precisamos de você. Deixe-nos em paz.
Pink Floyd – Welcome To The Machine
Welcome my son, welcome to the machine.
Where have you been?
It's alright we know where you've been.
You've been in the pipeline, filling in time,
Provided with toys and 'Scouting for Boys'.
You brought a guitar to punish your ma,
And you didn't like school, and now you
know you're nobody's fool,
So welcome to the machine.
Welcome my son, welcome to the machine.
What did you dream?
It's alright we told you what to dream.
You dreamed of a big star,
He played a mean guitar,
He always ate in the Steak Bar.
He loved to drive in his Jaguar.
So welcome to the Machine.
Bem Vindo à Máquina
Bem-vindo meu filho, bem-vindo à máquina
Por onde tem andado?
Tudo bem, sabemos por onde você tem andado
Tem andado no encanamento, passando o tempo
Armado de brinquedos e coisas de escoteiro
Comprou uma guitarra para punir sua mãe
E não gostava de ir à escola
E você sabe que ninguém pode te enganar
Então, bem-vindo à máquina
Bem-vindo meu filho, bem-vindo à máquina
No que sonhou?
Tudo bem, nós lhe contamos no que sonhar
Sonhou com um grande astro
Ele tocava uma guitarra
E sempre comia bife no bar
E adorava dirigir seu Jaguar
Então bem-vindo à máquina.
Ps: R.I.P. Dimebag Darrel.
Leia também: Dimebag, Jabor e o preconceito - Ricardo Boessio dos Santos - Publicado em 04.01.05
|
|
|