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Sob a máscara da idade
Maurício Gomes Angelo - Publicado em 12.02.2005

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Quem nunca ouviu o bordão último e apelativo de: “você é jovem ainda, não sabe nada da vida” pode se considerar um tremendo privilegiado. Pessoalmente, não conheço ninguém. O terrorismo psicológico (consciente ou não) que os pais e adultos fazem nos jovens é facilmente visível. Sob a máscara da idade, sob o pseudo-conhecimento que os anos podem agregar, sob a máxima criada e mantida há muito tempo e por todos cultivada e propagada de que o jovem deve sempre se submeter e concordar com a opinião dos mais velhos, que o jovem – por sua própria natureza – não tem nenhum respaldo moral, crítico e cultural é tão absurda, retrógrada e sem fundamento que me espanta sua permanência nos dias de hoje.
Partindo desse principio, a opinião do jovem perante a de um adulto nunca deve ser considerada e é destituída de qualquer valor, porque sua análise jamais virá completa em virtude de sua pouca idade e todos seus atos (contestadores ou não) serão sempre fruto de sua inexperiência e sujeito a profundas transformações que só não advieram ainda pela sua falta de maturação. Em outras palavras, os pais estão dizendo aos seus filhos que o pensamento próprio que ele têm hoje não deve ser levado a sério e é na verdade irrisório, e que num futuro próximo eles logo estarão pensando como eles.
Estão dizendo que fatalmente seu filho irá se tornar o adulto aborrecido e detentor de todas as “verdades supremas” que ele possui, fato justificado apenas pela sua idade. Como se ela fosse garantia de alguma coisa. Como se ela fosse o selo de validade irretorquível perante o qual todas as contestações colocadas diante dele perecem. Eles estão, na verdade, fazendo da eterna mania inerente á maioria dos pais de querer fazer de seu filho um espelho de seu caráter, seus gostos, suas aptidões e seus anseios a regra da relação equivocada que destrói com a única coisa na vida que é garantida a cada um: a oportunidade de ser você mesmo.
Uma criança criada neste típico ambiente estupidificado de massa, neste ambiente podre e limitado que lhe impõe valores falsos e errôneos como regra não pode nunca vir a ser um adulto dotado de inteligência intrapessoal suficiente para que as coisas mudem. Dessa forma, os pais fazem de seus filhos clones de si mesmo, que crescem e continuam o legado, criando gerações sem fim de clones sem alma e identidade própria, deixando uma herança maldita que só é quebrada por uma falha no sistema, por um erro, um acidente. E este “erro”, este “acidente” é quase que invariavelmente aquela “ovelha negra”, aquele excluído, aquele solitário, aquele difamado, aquele membro tido como um exemplo nefasto para os demais.
Seria inocência esperar outra coisa. O sistema não pode nunca ser complacente com aquele que foge de suas diretrizes, que zomba de suas bases. Quando ele tenta com todas as formas mais sedutoras que encontra trazê-lo de volta para suas garras e não consegue, sua reação espontânea e automática é expurgá-lo, vaporizá-lo e minar sua existência para que não influencie os demais. É tratá-lo como uma aberração abominável para que tudo volte a ser como era antes, para que – este sim – o mundo do sonho e da fantasia tenha sua “felicidade” intacta. Os raríssimos seres que conseguem resistir á tentação e permanecem firmes com suas convicções o fazem porque sabem que mesmo sendo atacado de todas as formas e lados, mesmo não sendo o dono da verdade, ele está certo. Ele renasceu. Conseguiu – mesmo com toda pressão de pais superprotetores – sair do ovo e sabe que só assim conseguirá se desenvolver realmente. Sabe, na verdade, que só agora passará a existir, a ser alguém com todas as implicações que isso traz.
Apesar de Nelson Rodrigues ter dito que o jovem tem todos os defeitos de adulto e mais um, o da imaturidade, ele disse também que: “A mais tola das virtudes é a idade. Que significa ter quinze, dezessete, dezoito ou vinte anos? Há pulhas, há imbecis, há santos, há gênios de todas as idades.”
Essa aparente dualidade de suas declarações não se anulam, não se combatem, não se antagonizam. Elas são um combate claro e incisivo contra a “cultura da inferioridade indiscutível do jovem”. E esta tese, essa lei defendida e cultivada subconscientemente pela maioria das famílias ao redor do globo só contribui para a poda criativa de seus filhos, só contribui para a destruição de possíveis gênios que iriam florescer. Bombardeado por esse complexo de inferioridade desde a infância, o jovem nunca se sente seguro e confiante o suficiente para bater de frente contra esse conceito, não têm forças nem para destruir nem para enxergar com clareza o que se passa. Não se trata de supervalorizar o jovem e menosprezar o adulto. Não se trata de ignorarmos o valor que a experiência têm. Mas mostrar que é sob a máscara da idade que adultos irresponsáveis e aculturados se escondem, usam-na ao seu bel prazer, fazem dela seu último recurso final numa discussão, acham que sob ela estão intocáveis. Já passou da hora de fazermos cair essa máscara.
E aí criam-se seres humanos frágeis, instáveis, cria-se apenas mais um no meio da multidão e entrega-se seu desenvolvimento ao acaso, espera-se que algum acontecimento, alguma fatalidade venha contribuir para que ele encontre seu eu verdadeiro.
Uma pena que seje assim, lamentável que uma simples frase (“você é jovem ainda, não sabe nada da vida”) na verdade um mantra diabólico repetido exaustivamente exerça (e vem exercendo) tanta influência em gerações e gerações de indivíduos, usurpando-os o direito que lhes é sagrado. Só se combate isso verdadeiramente, só se consegue extinguir esse pensamento da face da terra com uma profunda mudança de comportamento a começar por cada um de nós. É nosso dever quebrar essa herança maldita. Como genialmente definiu Aldous Huxley: “Experiência não é aquilo que acontece com um homem; é o que o homem faz com aquilo que lhe acontece”.
Em outras palavras: se uma pessoa não se utiliza dos acontecimentos vivenciados por ela para aprender, mudar, valorizar, refletir e evoluir, se ela não consegue transformar em conhecimento aquilo que lhe ocorre, essa pessoa não acumula experiência, acumula fatos. Ela não é experiente, sábia, apta a dar conselhos e avaliar com mais propriedade, ela é apenas vivida – viveu muito, mas não têm experiência de vida porque não se utilizou dela. Acontecimentos sem reflexão são apenas acontecimentos, não servem para nada. Fatos sem ação são destituídos de significado, tornam-se apenas fatos. Um jovem de 23 anos que busca aprender com aquilo que lhe acontece pode ser muito mais experiente e sábio do que um idoso de 85 anos que apenas acumulou tempo e fatos sem tentar compreende-los e melhorar com eles, posando de sabichão sob a máscara da idade. É sob ela que se escondem professores autoritários, pais incompetentes, adultos perturbados e toda sorte de pseudo-educadores, seres pedantes, hipócritas, receosos, inseguros e apelativos. Tempo não é sinônimo de experiência e sabedoria, tampouco a idade por si só é garantia de superioridade sobre os mais novos, ela não confere nenhum atestado de inteligência a quem quer que seja. Ponto de vista básico sumamente desprezado pela maioria.
Cabe a nós escolher qual caminho seguir, o viver por viver com o forjamento da sapiência escondido debaixo da data de nascimento ou a utilização de nossas experiências como algo válido, evolutivo e transformador.
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