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Maurício Gomes Angelo - Publicado em 12.05.2005




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Estamos na época da velocidade, da alta tecnologia, do fluxo corrente e ininterrupto de informações, da criação e propagação de bilhares de signos de todas as naturezas. A cidade mostra-se opulenta, acessível, atraente. Tudo é rápido, fácil, colorido, de grande apelo sensório, não há desejo que não possa ser suprido. Somos bombardeados de todos os lados, todas as formas, todos os jeitos. Mergulhamos profundamente e sem pensar em tudo que ele nos oferece, sentimo-nos confortáveis com o seu carinho, gostamos de sermos seduzidos por ele.

Diz-se que este mundo é rico, completo, instigante, que é capaz de despertar as mais variadas sensações e interpretações. Este mundo – nosso mundo – para mim, não passa de um deserto. Ele é desabitado, árido, escasso de pensamentos. Este aparente oásis do bem estar, esta simpática gama infindável de ofertas, está morta.

Conseqüentemente, a figura do flanêur foi extinta. Extinta não apenas porque não é mais aceitável, mas porquê o próprio espaço em que vivemos é desestimulante a isso. Este ser errante, vagabundo, aparentemente destituído de propósitos, em busca de aventuras, que se fascina com o meio em que vive e procura criar uma nova percepção sobre ele é o exato extremo oposto do que o mundo considera “população economicamente ativa”. É preciso ser ativo, e só se é ativo através do capital, da criação e do giro deste. Se sua atividade não tem ênfase econômica nenhuma, você “naturalmente” não é ativo, e por extensão não pode ser considerado parte da população. Você inexiste e é desprezado pelo sistema, em termos orwellianos, és uma impessoa.

Não há espaço para o intelectual na sociedade de hoje. Ele é inclusive mal visto por ela. Mal visto porque filosofar, refletir e estudar implica tempo, reclusão e tranqüilidade. Ele não estará produzindo bens de consumo, prestando serviços caracteristicamente práticos, administrando equipes, em suma, ele não estará colaborando com o sistema. Elucubrações filosóficas geralmente são atividades solitárias, atípicas, que requerem paciência e dedicação conjugadas em sentido gradualmente empírico, deslocando boa parte do foco daquela pessoa para tal exercício. Ao fazer isso ele atenta contra todas as bases do que é esperado e corriqueiro. Mas todos nós precisamos de dinheiro. E este pressuposto básico indica necessariamente a prática de alguma atividade que traga lucro, e infelizmente, o mundo capitalista não é muito aprazível para com quem almeja conseguir seu sustento através de atividades intelectuais. Logo, inúmeras pessoas que gostariam de dedicar boa parte de sua vida para suas reflexões acabam não o fazendo por pura falta de tempo. Tempo este deslocado para atividades burguesas, ou ordinárias, como queiram. Assim a pegajosa teia da máquina atua para manter a ordem social estabelecida. O intelectual, contrariado ou não, precisa de recursos para alimentar sua intelectualidade, muitas vezes utilizando este capital para criar proposições que vão contra o sistema, ou seja: ele trabalha (burguesamente falando) para poder ter condições de exercer a real função que deseja, para empreender energia contra o mundo em que está inserido. Este perverso paradoxo representa a síntese da colocação intelectual em nossa sociedade, sendo que usando-me dos postulados de Hegel poderia dizer que a ocupação capitalista representa a tese, o verdadeiro exercício de seu dom a antítese e o resultado desta atividade a síntese. E esta síntese supera todas as adversidades anteriores e significa ainda a chegada do intelectual ao olimpo de seu daemon sacrificado.

Obrigando os “inmassa” a trabalharem para seu funcionamento, extenuando sua mente e corpo físico, forçando-os a compactuarem com o ciclo produção-consumo-produção indefinidamente o sistema triunfa inabalável sob o cadáver de potenciais rebeldes. Apenas sobre os “potenciais”, pois tal situação indica que sua mais profunda inclinação não foi descoberta, não é posta em prática, configurando-se como um desperdício de talento. Desperdício esse que é uma palavra extremamente apropriada para nosso cotidiano.

Esgotamos as mais profundas e estimulantes possibilidades, obliterou-se a necessidade de pensar. Para quê pensar se tudo já está pronto? Para quê narrar se a informação cotidiana é o que importa? Nossa mente está impregnada de incomensuráveis figuras, conceitos e esquemas esperando para vir à tona, não a estimulamos, apenas acessamos o que nela já se encontra. Tudo foi escancarado, reproduzido e revelado, absorvermos mesmo sem querer, absorvermos porque não podemos escapar disto. Acabamos com o sexo, a literatura, o cinema, a ironia, o romantismo, o mistério, a sublimidade, os gênios, a esperança, tudo é vulgar, rasteiro e medíocre. Nos tornamos irascíveis, limitados, impacientes, hediondos, esquematizados. Não guardamos mais nenhuma surpresa dentro de nós, o sistema alcança seu nível mais intenso de penetração, de força. Esse quadro crescente de esterilidade que explodiu no século XX vê um amadurecimento sem precedentes em nossa época, praticamente nada mais pode pará-lo e os candidatos a isso se tornam mais escassos a cada dia. Que o ser humano é uma raça em extinção todos sabemos, além disso, a inteligência e a isenção necessárias encontram-se em sua fase terminal, quase imperceptível.

Uma das poucas coisas que desenvolvemos de novo atualmente é a tecnologia, mas o que poderia ser uma gota de água na escassez do deserto apresenta-se como uma lente potencializadora da destrutividade imanente. Criadas para nos servir, oriundas de nossas próprias mãos, facilitadoras tão proeminentes do dia-a-dia, elas, mais do que nos ajudar, nos incorporam. Elas, que desde o início foram desenvolvidas baseadas em nossas funções musculares, sensórias e cerebrais, agora querem mais, querem ocupar a liderança, a cabeça, a vanguarda de nosso mundo. E só alcançam tal status porque nós permitimos. E só permitimos porque não podemos resistir à nossa ambição, nossa ganância, que será fatalmente nossa ruína. Este escriba não é tão ingrato quanto parece, nem deixa de reconhecer a importância das máquinas em sua vida mas não pode se furtar de analisar toda a completude dos fatos. A nanotecnologia está aí para todos verem, chips subcutâneos propagam-se na velocidade da luz, os nanocientistas prometem que dentro em breve não teremos mais necessidade de utilizarmos a memória, pois ela será substituída por nanorobôs implantados em nosso cérebro, indo além, poderemos ampliar em dez vezes nossa capacidade de sentir prazer, nossa sensibilidade e até nossa expectativa de vida. A inteligência artificial e a autonomia das máquinas evoluem incansavelmente, chegando a ponto de poderem se auto-reproduzir.

Quisera eu que isto fosse mera escatologia, infelizmente não é.

Deixamos de ser humanos, somos agora antropomórficos, somente espectros de nossa representação natural, tanto física quanto mentalmente falando. Isto são apenas alguns contornos desta metalinguagem apocalíptica.

A aldeia global (termo que deve estar até extinto para os historiadores de plantão) é um grande necrotério, e neste contexto, as grandes metrópoles são a representação mais fidedigna da morte. As cidades que nunca dormem, nunca descansam, que não param de pulsar, sempre “vivas”, sempre “atraentes”, que convergem todos os mecanismos do capital, todos os locais imagináveis reservados à cultura, à arte, à diversão, são a personificação da morte, da esterilidade. Nelas pode-se enxergar todas as contradições do capitalismo, todas as discrepâncias sociais, todos os paradoxos de nossa existência. Estão recheadas de conceitos duplipensados:

“Quantidade é qualidade”
“Interação é isolamento”
“Velocidade é lentidão”

A opressão de sua magnitude colossal, traduzida pela intensa poluição sonora e visual de suas ruas, o onipresente sentimento de vazio, a gritante necessidade de dinheiro, podam e acorrentam ainda mais o já mortificado homem. Já que estas cidades são cemitérios, naturalmente seus habitantes podem ser considerados, na melhor das hipóteses, mortos-vivos. Levando à risca o “se matando para (sobre) viver”. Tanto material quanto psicológica e intelectualmente falando. As metrópoles são compostas de uma conjuntura tão atroz de arquétipos que proponho uma nova classificação geográfica para elas: cidades-sistema.

Depois de tudo isto, fica fácil entender a escassez de grandes narradores, romancistas, contistas, poetas e todas as formas de arte que exigem labor, dedicação e fascínio. Citando Walter Benjamin em “Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política”:

“É a experiência, que temos oportunidade de adquirir quase diariamente, que nos determina a distância e o ângulo de visão. Ela diz-nos que a arte de narrar está em extinção. (...) É como se uma capacidade que nos parecia inalienável, a mais segura de todas, nos tivesse sido tirada: a capacidade de trocar experiências. (...) Atualmente, prefere-se escutar a informação que fornece pontos de referência sobre algo que está próximo, ao relato que vem de longe. O relato vindo de longe – quer de passagens estranhas, quer de outros tempos através da tradição – dispunha de uma autoridade que lhe dava credibilidade, mesmo quando não era verificado. A informação, contudo, tem que ser provada de imediato. Antes de mais, tem que surgir como algo “compreensível por si próprio”. A informação não é, muitas vezes, mais exata do que foi o relato em séculos anteriores. Mas, enquanto este recorre de bom grado ao maravilhoso, a informação precisa de ser plausível. Por isso mostra-se incompatível com o espírito da narrativa. Se a arte de narrar tem vindo a rarear, a divulgação da informação tem contribuído decisivamente para isso. Cada manhã somos informados sobre o que acontece em todo o mundo. E, no entanto, somos tão pobres em histórias maravilhosas! Isto, porque nenhum acontecimento nos chega que não esteja impregnado de explicações. Por outras palavras, quase nada do que acontece é favorável à narrativa e quase tudo o é à informação. Pode considerar-se já meia arte do narrar a reprodução de uma história isenta de explicações. (...) O extraordinário, o maravilhoso, são narrados com a maior precisão, sem que, no entanto, seja imposta ao leitor a coerência psicológica da ação. O leitor tem a liberdade de interpretar as coisas como as entende e, desse modo, os temas narrados atingem uma amplitude que falta à informação. (...) Para a narrativa gravar-se na memória do ouvinte e passar a integrar sua experiência, é necessário um estado de descontração que é cada vez mais raro. Se o sono é o ponto alto da descontração física, o tédio é o da psíquica. O tédio é o pássaro de sonho que choca os ovos da experiência. Os seus ninhos – as atividades ligadas intimamente ao tédio – já desapareceram das cidades e estão também em vias de extinção no campo”

Tais reflexões datam de 1936, imaginem o que Benjamin diria do século XXI. Não dá para imaginar porque a simples existência de um ser da natureza de Benjamin hoje em dia parece improvável, para não dizer impensável. Continuando a ler o livro de Benjamin, encontramos alguns excertos da “Teoria do Romance” de George Lukács:

“O tempo só pode, pois, ser parte constitutiva quando perde a sua ligação com a pátria transcedental (...). Só no romance (...) o sentido da vida se separa da vida em si, separando assim o essencial do temporal; quase se pode dizer que toda a ação interna do romance não é senão a luta contra o poder do tempo (...). E daí (...) surgem as vivências verdadeiramente épicas: a esperança e a reminiscência (...). Só no romance surge uma reminiscência criadora que atinge o objeto e o transforma (...). A dualidade do mundo interior e exterior “só” pode ser aqui suprimida para o sujeito, se este compreender a (...) unidade de toda sua vida (...), abarcando as torrentes de sua vida passada, concentradas na reminiscência (...). O conhecimento que abrange esta unidade torna-se a compreensão divinatória e intuitiva do sentido da vida, inacessível e portanto indizível”.

Tanto o escritor quanto o leitor do romance são igualmente solitários, rodeados do vazio, cobertos de egoísmo, estabelecendo uma relação devoradora, ardente e monopolizante. Este tropo evasivo, necessário para o alcance do truísmo, serve-nos de égide para nossa existência insondável. Assistimos a extinção da idiossincrasia em virtude do avanço da cultura de massa. Sufocados pelo capital somos incapazes de criar, de obtermos isenção deste meio implacável para o desabrochar do indivíduo e vivemos quase exclusivamente do passado. Nossa esterilidade comunicacional está deixando de ser conseqüência do meio e tornando-se inata, encontrando-se em níveis inaceitáveis. Somos matéria inanimada que não interfere grandemente no macrocosmo, mas antes, contenta-se somente em fazer parte dele.

Com o macro definhando, conseqüentemente o microcosmo é aniquilado, sobrando apenas a lembrança de glórias longínquas e a ulterioridade da derrocada final.

Ao sermos efêmeros em tudo perdemos a faculdade de olhar além, a percepção extra-sensorial que nos garantia a materialização de nossos anseios mais profundos. Muitos de nós não a usam não porque não querem mas porquê isto não está nele, é desconhecido de sua parte. Por nosso mundo ser estupidificado, todas as outras relações, nas mais diversas esferas existentes, ficam comprometidas. A desvalorização do que nos é mais intrínseco, a sua simplificação indevida, acaba por destruir com todos os degraus da constituição humana.

Como vêem, acabamos com tudo, não sobrou nada. Ou melhor, sobrou a utopia de ser intelectualmente prolífico neste mundo majoritariamente estéril. Mas a utopia, mais uma vez, é falsa, ludibriosa, inalcançável, romântica demais, também ela perece. Chegamos ao fim. Exaustos, desiludidos, humilhados, torturados e sem rumo. O sol está quente, o deserto é ainda mais repulsivo que de costume, até as miragens desvaneceram. Paramos, estamos calados, caímos, finalmente morremos. E os corvos se alimentam de nossa alma...


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