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Brasileiros
Adriel Diniz - Publicado em 19.05.2005

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Mortos de fome os brasileiros. Título de eleitor na mão, incertezas na cabeça e esperança no coração. Vi brasileiros na edição de 31 de março do Jornal Nacional. Ainda não votam, mas já trabalham. Em Santa Maria do Cambucá, no sertão de Pernambuco, eles quebram castanha de caju, têm três, cinco, seis anos. São brasileiros, são o melhor deste país.
As imagens mostravam bravos meninos, que não desistem, que passam a gerações futuras o legado da miséria impregnado no olhar sofrido e nas mãos feridas.
Aqui, em Porto Velho, no sinal de trânsito, vi outro brasileiro. Tem seus 11 anos. Há mais de um o vejo vender pão aos motoristas que passam apressados pela Avenida Jorge Teixeira.
Certa vez, estava com uma camiseta, dessas que usam universitários estampando o nome do curso que fazem. Direito. Estava escrito em seu peito. Brinquei com ele, perguntando se ia ser advogado. Com um sorriso amarelo, ele disse que não, havia ganho a roupa.
Sabe-se lá se sobra tempo para estudar. Até altas horas ele vende pão. Vende para viver, talvez até para sustentar sua família.
São cenas do cotidiano, que de tão comuns, nos passam por normal. Mas não. Essas cenas têm que nos tocar. Eu, na humilde função de reportar à sociedade o que vejo, não posso ficar calado.
Os interesses da imprensa não são o pão do menino nem a castanha de Pernambuco. São as farpas de deputados, as bravatas de vereadores e as promessas de governantes. É a grana que jorra solta de quem não quer que se fale nisso.
A fome mata minha gente. Mata não só aos que não têm o que comer. Mata a todos nós. A pobreza dos ricos e a miséria da conformação são tempero para falta de comida.
Eu compro o pão do menino às vezes. Penso que ajudo. Escrevo sobre ele, penso que é bom fazer lembrar ao leitor da ferocidade da vida. E nós, eu, você, o Estado, o que fazemos mais?
E quando não dá para comprar o pão? Quando ele cansar de vender, quando quiser os produtos que anunciam as placas na mesma rua em que trabalha? Ele pode até trocar o pão pelo revólver... Todos trocam muito por aqui. A mídia troca pautas relevantes por interesses particulares, os políticos trocam progressos sociais por palanque eleitoral e o Brasil troca suas crianças por bandidos, por miseráveis, por analfabetos.
Troca sem troco, vida sem jeito. Brasileiros, eles e eu, os que trabalham pequenos, os que já grandes não têm trabalho, os que matam e roubam nas ruas, os que roubam e matam em seus gabinetes.
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