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Lázaro Curvêlo Chaves - Publicado em 05.04.2005




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É assim que meu nome consta na lista telefônica da minha cidade. Ligações como a que descrevo abaixo acontecem pelo menos uma vez por semana. Em geral são pessoas compreensivelmente perturbadas e com a capacidade cognitiva diminuída pela situação aflitiva em que se encontram. Tento ser paciente. Nem sempre com sucesso, confesso.

- Pronto!

- Quem ‘tá falanu? – voz feminina, parece nervosa. (Eu sempre considerei exótica esta maneira de falar ao telefone com estranhos. Não seria mais interessante perguntar “é o fulano?” ou “é da casa do fulano?” ou “é da loja tal?”)

- XXXX-XXXX. Recito o número do meu telefone

- Com quem deseja falar?

- O Lázaro.

- Pois não? Sou eu mesmo!

- Sabe o que é? Eu tranquei minha chave dentro do carro, ‘tô aqui perto da Fazenda Tubaca... (Interrompo o que promete ser uma longa narrativa em torno de algo que eu não posso fazer absolutamente nada além do que a própria pessoa tenta: procurar um chaveiro pela mesma lista telefônica que ela tem em mãos)

- Minha senhora, meu sobrenome é “Chaves”, mas eu não sou chaveiro e, infelizmente, não conheço nenhum.

- ... Mas é que eu tranquei a chave dentro do meu carro...

- Bem, sugiro que a senhora procure um chaveiro, há um bom número deles aí na lista... (Longo silêncio do outro lado. Acho que desligou. Desligo também. Minutos depois nova ligação, de outro número.)

- Pronto!

- Quem ‘tá falanu? – voz masculina, afável, mas o mesmo pecado. Não sabe para quem ligou...

- XXXX-XXXX. Recito o número de meu telefone e prossigo: “deseja falar com quem?”

- O seu Lázaro está?

- Pois não, sou eu mesmo!

- Oh... Seu Lázaro, (o tom é amistoso, busca parecer alguém de minhas relações de intimidade ou algo assim), Seu Lázaro... Eu estou aqui perto da Tubaca... (Interrompo, já começando a perder a paciência)

- Veja, meu senhor, há poucos minutos ligou uma senhora, talvez a sua senhora ou alguém de suas relações. Precisava de um chaveiro...

- Isso! Isso mesmo! Sabe aqui a Tubaca? Bem na sede. (Não declinou o nome. Tampouco me lembrei de perguntar.)

- Meu senhor, vou tentar uma abordagem diferente. O Sr. Já ouviu falar no Hugo Chavez? É o atual presidente da Venezuela, a profissão dele é “militar”, ele não é “chaveiro”. Há ainda o Juca Chaves, que é comediante (enfatizo bem a última expressão) e não chaveiro. Assim, meu nome é Lázaro Chaves, mas eu sou professor, não sou chaveiro e, infelizmente, não conheço nenhum chaveiro...

- Ah... Então o Sr. me desculpe, me deram o número errado...

- Não tem problema, essas coisas acontecem...

- Mas, como eu ia dizendo, estou aqui perto da Tubaca e tranquei minha chave dentro do carro... (Interrompo com palavras cautelosas em tom o mais afável possível. Não parece ser uma pessoa equilibrada do outro lado)

- Meu senhor, compreendido que eu não sou chaveiro e não conheço nenhum, o Sr. não preferiria utilizar melhor o seu tempo e seu telefone (penso cá com os meus botões: “e os meus!”) procurando por um chaveiro?

- O Sr. é muito mal educado! – e bate o telefone.

Anotação para mim mesmo: encontrar o telefone celular de algum bom chaveiro e deixar ao lado do meu aparelho, urgente!

Anotação dois: tentar, com a turma da ACI, que meu nome conste da lista como Professor Lázaro Chaves...


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