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Gilvan Ramalho Guedes - Publicado em 12.04.2005




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Ultimamente cresce a produção sociológica sobre o conceito de classes e sobre o caráter da categoria. Muita confusão ainda existe em termos de diferença entre classes e estratos. Proponho uma divisão, baseada na obra seminal de Darhendorf sobre as teorias de classe, de classe e estrato nos seguintes termos:

Classe: representa a dinâmica do conflito

Estrato: representa a estática da hierarquia

Além de uma simples segmentação, de caráter puramente lexical, a divisão representa uma importante conseqüência analítica. Erik Olin Wright, um expoente do neomarxismo analítico, vem tentar mapear um esquema tipológico de classes de forma a dar conta de possibilitar um tratamento empírico dos tipos de classe com cunho marxista em projetos científicos utilizando dados reais.

A enorme profusão de trabalhos a respeito da “nova classe média” é um retrato das confusões geradas na utilização da categoria “classe social”. Nova classe média, cargos gerenciais e de mando, todas estão ligadas a uma mudança nos resultados engendrados pelo próprio conflito de classes. Como conceito de um processo dinâmico do conflito social, e por ser, ademais, um mecanismo histórico orientado para a ação, a continuidade temporal e o decorrer da atuação dos agentes históricos resultam em alterações na estrutura social de classes, alterando o perfil aparente de todo e qualquer tipo de classificação primária.

Dito de outra forma pode-se interpretar o que foi acima esboçado da seguinte forma: o mecanismo de conflito é orientado para a ação, e por assim ser, os agentes que, juntos, superam suas contradições para continuar unindo-se como classe social (conceito emprestado de Marshall), passam a enfrentar novos desafios por motivos extra-econômicos, no sentindo marxiano do termo. É como se um espírito weberiano sempre rondasse a cabeceira em que repousa o velho corpo marxista.

A dinâmica social leva, pelo conflito, à produção de novos sentidos dados às ações de grupos, e como esse processo é retro-alimentado, há uma constante reinterpretação das necessidades, do imaginário societal e da motivação mesma de agir. É nesse ponto que se interpreta o estrato como um resultado não-econômico de um processo dinâmico a priori, mas ao mesmo tempo, retro-alimentador e transformador (que é a classe).

Alcides, em Estrutura de Posições de Classe no Brasil trabalha com a idéia trazida de Erik Olin Wright de que o que mais explica a dinâmica do conflito não é a exploração, no sentido marxista de apropriação da mais-valia pelo trabalhador, mas a dominação (que é um elemento tipicamente weberiano) sobre a propriedade privada. Ter posse ou não é que vai diferenciar uma classe, e não a questão da exploração. Para o autor, parece ser a forma mais adequada da interpretação marxista para a dinâmica do conflito de classes.

O estudo de Burnham e sua proposta sobre a “Revolução dos Gerentes” trouxe uma contribuição importante, não para definir a nova classe com potencial transformador, mas para, sem que ele tivesse abordado isso em sua obra, demonstrar como há uma interação entre imaginário social, retro-alimentação e alteração na motivação dos pertencentes a uma classe. O resultado disso não é uma criação de classes distintas, mas uma complexificação de percepções e mecanismos de manejo de dominação no interior das classes. A separação entre posse e controle é essencial para entender o porque disso.

O gerente seria uma “classe” (veja que aqui o termo classe não é empregado como o que eu considero válido) que controla, mas que não possui. Embora a posse ainda pertença ao capitalista, as grandes decisões que relevariam o aspecto da dinâmica do sistema capitalista como um todo, estariam nas mãos de quem controla, afinal, controle e processo decisório são vistos como sinônimos, ou antes, como fenômeno pari passu.

Na verdade, os gerentes são vistos pelo resto dos indivíduos como um grupo com aspirações, estilo de vida, poder, diferentes de outros tipos de trabalhadores despossuídos de capital. Antes que eu possa sofrer certas críticas de marxistas ortodoxos, é bom deixar claro que estou classificando os gerentes como despossuídos, considerando o fato de que se eles possuem algum capital, como FGTS por exemplo, ou participação em empresas de capital aberto, a análise está sendo considerada a partir do seu posto como gerente. Daí estou utilizando uma representação de um gerente modelo, de um paradigma de controlador (de agente decisório, mas agindo como despossuido, e não como co-proprietário); além do mais, a análise poderia ser alterada caso fosse considerado o gerente como um capitalista em potencial sem perda do sentido principal.

A interação entre não ter e controlar, domínio e visão de poder, tudo isso é filtrado pela sociedade e retro-alimentado pela sua capacidade de se ver enquanto gestor do processo decisório. É ele, em última análise que ao tomar as decisões, encaminha o processo econômico. E é disso que está tratando Burnham ao falar da “revolução dos gerentes”. Acredito que Burnham equivoca-se ao tratar o gerente como uma nova classe e ainda, com um potencial revolucionário.

Uma solução que acharia satisfatória momentaneamente é observar o processo de reprodução sócio-econômica (não do agente individual, mas do processo global) como um pêndulo. A imagem pendular é uma representação eficiente do que quero tratar aqui, por hora. Saímos de uma situação extremada, em que havia pouca complexificação no interior das classes (o “mundo das classes” parecia dicotômico, sem grandes complicações) e de repente as transformações nas relações sociais, não em termos de forma apenas, mas de conteúdo, fez com que a imagem de uma bipolaridade como núcleo duro do conflito social se dissipasse e em seu lugar assumisse um panorama pulverizado, atomizado por uma gama maior e mais imbricada de “novas classes”.

Como o processo acelerou-se e vem acelerando incessantemente (até agora, não pode ser afirmado sobre o futuro), houve uma mudança de lado do pêndulo. Considera-se, assim, a perda explicativa do esquema de classes de Karl Marx. Apesar de não ser assunto para um pequeno artigo como esse, posso tentar resumir o meu ponto de vista da seguinte forma: a classe gerencial tem perdido a capacidade de se manter, por uma questão essencialmente pragmática e que tem se tornado cada vez menos conjuntural: o aumento do nível de capital humano (em termos especialmente de escolaridade), ou como chamam os economistas da Nova Informação, o estoque social de capital humano, tem levado a um aumento consistente do desemprego estrutural, devido à incapacidade sistêmica de absorver o maior contingente de mão-de-obra. Assim, os gerentes que ainda estão empregados continuam exercendo o poder de controle e suas decisões afetam as condições de reprodução material dos não-gerentes, embora isso envolva uma discussão sobre o processo burocrático. O que os determina como novo estrato, e não como classe, é precisamente, para mim, o processo de retro-alimentação que é encenado pelos demais atores sociais em conjunto com suas decisões como grupo despossuído.

Os desafios da burocracia, do controle e da identidade são fenômenos ainda pouco claros em termos de perspectiva futura, especialmente quando analisados como peças de um mesmo quebra-cabeça, e parece ser o principal desafio de quem trabalha e pesquisa sobre classes, estratificação social e mobilidade.

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