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Joe Rocha Rangel - Publicado em 27.05.2005


São Francisco, Califórnia - “Chego às 8, coração. Te amo.”

Lia e conjecturava, com o desdém ultrapassado dos românticos nostálgicos, que a geração Google estava assassinando o recado manuscrito. Sim, hoje ele é fornecido de voz viva pelo celular—direto do engarrafamento. Ah, mas as conveniências do progresso, os milagres da fibra óptica, o século das maravilhas, não extraíram do recesso das minhas alegorias certas manias regressistas: sempre fico sentimental com a afeição rabiscada num papel, e a eficácia anacrônica de uma prosáica BIC. E já me aprontava para divulgar ao mundo minha última tese improvisada: tecnologia demais faz mal ao coração.

Mas eis que meu computador enguiça.

Tudo aconteceu com a progressão fulminante da tragédia: O monitor acendeu e, como de todas as outras vezes, as palavras sem sentido, misturadas `a misteriosa fileira de algarismos (códigos numéricos que resumem a história do homem) se estabeleceram na tela. Então, cravei aterrado o olho na mensagem sucinta: “Windows detectou um erro fatal no drive c”.

E tudo parou.

Desliguei a tomada; tornei a ligá-la. O procedimento, embora rudimentar, sempre lhe restaura as funções vitais. Dessa vez não. Tentei outras vezes. Nada.

Uma luz me vazou a retina, e percebi a verdade: a esferográfica e o celulóide já não bastam num povoado global entupido de informação. Havia se criado entre a minha predisposição emocional e o meu PC um relacionamento patológico. Senti um pavoroso medo da solidão.

Vi, pela janela, o crepúsculo entristecer a cidade, a memória da civilização envelhecer na vidraça, e a existência afundar-se no abismo de um inverno escuro e pessimista. O meu apartamento flutuava no vácuo infinito de um dia desolador. Por causa de um erro no disco rígido. Um erro fatal. (Deve ter sido gravíssimo. Mas quem o teria cometido? E quando?).

Foi numa artéria da inteligência artificial que a highway da superinformação incorporou-se ao nosso cotidiano. No meu convívio, o homem sem Internet é um ser primitivo, espécie em extinção. Sabe-se que há pelo menos um computador em 75 porcento dos domicílios urbanos dos Estados Unidos.

De Gutenberg a Bill Gates, dos primórdios da imprensa ao Windows XP, mais de quinhentos anos de loucura, incertezas, e instabilidade emocional nos contemplam.

O mundo encolheu, agora rodopia com a pressa de Nova Iorque; ficou ruidoso, cínico, superpovoado, nervoso. Os computadores foram elevados à categoria de semideuses, indispensáveis `a sobrevivência da raça humana. O maravilhoso mundo novo cibernético é quase uma obrigação social, um dever cívico, uma declaração implícita de que estamos integrados aos tentáculos da rede, e que fora dela adormecem as trevas de um submundo medieval.

Outro dia, na rua, alguém de boa aparência e bem vestido perguntou se havia um telefone público por perto. “Ali na esquina”. Apontei para o infinito. Mas como? O faxineiro do prédio interrompe a atividade do esfregão para falar com a namorada no telefone móvel, e o cara de Pierre Cardin e dentes perfeitos busca um orelhão? Alguém ao meu lado comentou, “telefone público é tão nojento”. Ou seja, coisa de ralé. Será que o cara era terrorista?

Não há um caminho de volta. Estamos inexoralvelmente condenados à ditadura dos célebros eletrônicos, à conversa de bolso digital, à geringonça multimídia que toca música, mostra filmes, manda/recebe/distribui comunicados de um continente a outro em dois segundos. O som, a imagem, e a palavra se deslocam em nossas vidas com a imponência sonora, visual, e verbal de todos os discursos proferidos em todos os séculos da humanidade, todas as sinfonias, sonatas, e samba-enredos, todas as telas, murais, e paineis.

Transportamos Cícero, Platão, Abraham Lincoln, Adolf Hittler, O Papa João Paulo II, Mozzart, Beethoven, os Beatles e os Rolling Stones, Van Gogh, Kandinsky, e Pablo Picasso, nos compartimentos isolados do espírito do homem multidimencional do novo milênio, e os condensamos num porvir digital.

O resultado de tudo que foi dito durante nossas pequenas vidas, hip-hops enraivecidos, favelas interligadas pela agonia comum da falta de esperança, gigabytes loucos, se convergem no calor de nossas paixões, de nossos preconceitos dissimulados. De Faluja `a Rocinha, a Internet une, separa, informa, deprime. Ela é janela e espelho; estrada e despenhadeiro.

Mesmo nos remotos labirintos de cavernas prodigiosamente interligadas na fronteira entre o Paquistão e o Afganistão, terroristas islâmicos, que abominam os excessos da tecnologia ocidental, capitularam à nossa sofisticação, e comunicam-se com laptops; jihadistas da Al Qaeda distribuem clips de decapitações no Iraque através de um web site; na paz contemplativa e gelada do Tibet, monges budistas rezam e meditam— on line..Sim, irmãos e irmãs, a redenção da alma chegará num arquivo anexado a um email sucinto; a segunda vinda do Filho do Homem, num furo de reportagem da CNN, ao vivo, da Mangueira, e o cancelamento do futuro será possível nas asas da bomba atômica, ou na função DELETE do teclado.

Estamos cercados, companheiros de sleeping bags na serra, os vultos de nossa rebeldia não carregam PDA’s, não se reunem em ‘chat rooms’, não se manifestam em blogs pessoais.

O jantar atômico rebola no microondas, cinco mil canais de tv transmitem o tédio dos horários nobres via antena parabólica, Shakespeare arrota uma versão pós-moderna do “Sonhos de uma Noite de Verão” nas ondas digitalizadas do CD-ROM. Não tem mais essa de “ser ou não ser”, a questão (eis a questão) é, “recebestes meu email?”.

E basta um crash no disco rígido para que a existência entre em colapso, e um insaciável desejo de ser pedra assuma os controles do inconsciente mórbido do homem moderno.

Desliguei a tomada e tornei a ligá-la. Nada. Estavam todos mortos: a placa mãe, o pai de santo, o placar eletrônico, os personagens do Walt Disney—minha avó, vocês.

Pois é assim que antevejo o fim da raça humana: uma epidemia de erros fatais penetrando discos rígidos; computadores definhando, micros infectados por um vírus intergalático, as luzes das cidades extinguindo-se uma a uma, de Manhatam à Cidade de Deus, de Amsterdã a Belém do Pará, da Palestina ao outro lado da rua onde moro, onde tremo de frio, com medo de ratos, sem computador, tomado de um pavoroso medo da solidão.


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