Por quem os sinos dobram - A paixão de Karol Wojtyla - artigo sobre o Papa João Paulo II < Artigos < Duplipensar.net Português do Brasil  English 
 

 
Papa João Paulo II João Paulo II Papa João Paulo II João Paulo II Papa João Paulo II João Paulo II Papa João Paulo II João Paulo II Papa João Paulo II João Paulo II Papa João Paulo II João Paulo II Papa João Paulo II João Paulo II Papa João Paulo II  



Joe Rocha Rangel - Publicado em 17.04.2005


São Francisco, Califórnia — Os sinos da igreja de São Francisco de Assis, adjacente ao meu prédio, começaram a repicar por volta das dez e meia da manhã, horário da costa oeste do hemisfério norte da América.

Não era o início da missa. Eles anunciavam o inexorável, o passamento amplamente antevisto do Papa João Paulo II, e, em certo aspecto, o fim de uma era. A agonia física do Papa foi acompanhada por milhões de pessoas ao redor do globo, numa vigília virtual pela internet. A comoção global iniciara-se desde o instante em que a precariedade do seu estado de saúde foi noticiada.

Sabíamos que sua Santidade estava morrendo.

Ainda assim, a sonata melancólica dos sinos foi pungente. Mesmo para os não católicos, mesmos para os não cristãos, mesmo para o indivíduo avesso à religião organizada.

Nos Estados Unidos, o óbito do Papa ocorreu num momento de reflexão nacional sobre a mortalidade. A encrespada batalha judicial para preservar a vida vegetativa de Terri Schiavo estabeleceu um contraste marcante entre um falecimento na Flórida e outro em Roma: consciente da gradual degeneração de seu corpo, o Sumo Pontífice pediu que não o levassem ao hospital, onde tubos, respiradores, medicações e sondas—o melhor cuidado médico possível a um ser humano— poderiam mantê-lo vivo por tempo indeterminado.

O Arcebispo de Los Angeles, Roger Mahoney, um dos 117 membros do conclave que elegerá o próximo Papa, ele próprio um candidato ao posto, sequer esperou o último suspiro do líder católico: embarcou para Roma bem antes da percussão entristecida das catedrais.

Teria sido ele o guerreiro da dignidade humana, a consciência do mundo ocidental, o padroeiro do humanismo cristão? Extrai tais locuções de outros, que o conheciam pessoalmente, e embora não tenha como confirmá-las, conservo a impressão de que seu afeto pelos humildes era genuíno.

No entanto, o apego do Santo Padre a tradições bizantinas feria justamente aqueles a quem ele amava.

O Papa fazia objeção veemente a qualquer método artificial de controle da natalidade.

Nos países industrializados, os Católicos desprezam a restrição; no Terceiro mundo, especialmente em algumas regiões da Ásia e da África, onde o catolicismo tem crescido— em parte devido ao carisma do Papa João Paulo II— a explosão populacional desenfreada é uma forma de perpetuar a miséria. Ou seja, em termos demográficos o resultado das multiplicações humanas é a fome, e a indigência.

A oposição da igreja ao uso de preservativos é um outro detrimento aos mais vulneráveis. Ela facilita a disseminação da AIDS em nações subdesenvolvidas, onde ela se alastra como ratos de esgoto. Diga-se de passagem, sempre considerei um contra-senso a sexualidade humana regulada por quem está proibido de desfrutá-la.

A infalibilidade do Papa foi posta em questão há uns três anos, diante da crise na igreja católica nos EEUU. João Paulo II não tratou com a devida austeridade o problema crônico dos sacerdotes pedófilos daqui, e que remonta, pelo menos, ao começo dos anos cinqüenta. Quando o Arcebispo de Boston, Bernard Law, solicitou sua exoneração do cargo, o Papa insistiu que ficasse. Ao longo das décadas, Bernard Law transferia para outras paróquias os padres envolvidos em abuso sexual de meninos. O Papa só aceitou a resignação do arcebispo quando o litígio entre a igreja e as vítimas da perverção erótica dos padres se transformou em um monumental escândalo, e já se tornara óbvio que Bernard Law os acobertava.

E há as doutrinas católicas que põe a igreja ao contrário de todas as direções: o celibato sacerdotal, a ordenação de mulheres, a marginalização de homossexuais, o veto a pesquisas em células embriônicas, a inflexibilidade com relação ao divórcio e ao aborto—mesmo uma gestação resultante de um estupro, ou uma gravidez que ponha em risco a vida da gestante, deve, segundo recomendações do Santo Papa, ser mantida até o momento do parto. Se a parturiente morrer, rezamos por sua alma—e largamos o descendente órfão de mãe à divina providência, ou aos cuidados do pai viúvo.

Por outro lado, João Paulo II sustentava uma postura social extensamente identificada com movimentos progressistas. Considerava a pena de morte “desnecessária e imoral”. Falou vigorosamente contra as injustiças do capitalismo, a ganância corporativista, o dever social das empresas. O termo ‘capitalismo selvagem’ ganhou popularidade no vernáculo sindicalista, e no linguajar da cultura pop, através de uma de suas encíclicas.

Alinhou-se aos operários em Gdansk, na Polônia, durante a greve de 1980, apoiou Lech Valesa e a formação da federação sindical Solidariedade. Em breve, a burocracia comunista polonesa entraria em colapso. Ronald Reagan afundou o país em débito, investiu os tubos no fortalecimento militar dos Estados Unidos, eliminou programas sociais. Mas o império soviético no leste europeu desapareceria sem que houvesse trágicos combates de rua, implacáveis guerras civis, ou confronto militar entre as superpontências. O fato é que uma revolução sem sangue derrubou a Cortina de Ferro.

O papa desaprovou energicamente a invasão do Iraque, em 2003. Mobilizou, antes que ela fosse deflagrada, seu prestígio para tentar evitá-la. Mandou enviados a Bagdá e a Washington; recebeu o Ministro do Exterior Iraquiano, Tariq Aziz e o Primeiro Ministro britânico, Tony Blair, no Palácio do Vaticano, num esforço diplomático para impedir a violência militar. E, numa atitude de coerência moral, advertiu o Presidente estadunidense de que ele “assumia uma grave responsabilidade perante Deus, sua consciência, e perante a história”.

Durante os funerais do Papa, a breve aparição do Presidente Bush em um dos muitos telões instalados na Praça de São Pedro provocou um início de vaia, logo refreado. Não era um momento apropriado para ressentimentos.

O Papa promoveu um movimento ecumênico sem precedentes. Pediu perdão aos judeus pela omissão da igreja durante o holocausto; pediu perdão aos muçulmanos pelas cruzadas. Em 1999, numa demonstração de que as reformas da igreja ocorrem na lentidão infinita dos séculos, João Paulo II redimiu Galileu. A igreja reconhecia, com quatrocentos anos de atraso, que a terra não era o centro do universo.

Quantos outros fatos da ciência permanecerão heresias nos próximos quatrocentos anos? A condenação aos avanços da biogenética, aos estudos em células embriônicas, e que abrem a possibilidade da cura a várias enfermidades, inclusive o mal de Parkinson, que afetou severamente os movimentos do Papa nos últimos anos, é um obstáculo à esperança de muitos.

Espera-se que o novo papa acelere a modernização da doutrina católica, que a retire da idade das trevas com um pouco mais de urgência. Espera-se que o novo pontífice revise as “verdades alteráveis” contidas em suas encíclicas, que as atualize, e as adapte à vida moderna.

Já não é possível fazer durar até que a morte os separe um casamento em que marido e mulher são infelizes, em que há abuso, maltrato, violência. Já não é possível sustentar que homossexualismo é “a semente do mal”, e que uma mulher não presta para a função sacerdotal. A ausência de uma ponderação razoável que justifique essas posturas as torna indefensáveis—não há sequer um mísero verso nos evangelhos, uma sugestão remota nos sermões do filho de Deus, uma referência dos apóstolos, que reafirme tais conceitos.

Ao ver, pela televisão, a passagem do féretro papal aos gritos de “santo, santo”, e a confusão de vestes litúrgicas, a riqueza dos paramentos sacros, a exuberância das túnicas brancas e das mantas vermelho escarlate durante os funerais, não pude deixar de refletir que talvez o Santo Padre, o João de Deus, o rei dos pobres, ele que abençoou as multidões esfarrapadas do gueto global, teria preferido uma cerimônia simples. Imaginem a lição de humildade, a revolução litúrgica, o espantoso exemplo ao mundo, se ao invés de determinar onde deveria ser sepultado, ou a relevância da Virgem Maria, o testamento papal instruísse suas ovelhas a caminhar na manhã de suas comunidades. “Ao invés da peregrinação ao Vaticano, estendam a mão a um miserável na esquina de sua rua, e entreguem a grana da passagem aérea a uma família carente na favela”.

Órfãos de um Papa, uma fatia volumosa da humanidade, cerca de um bilhão de católicos, aguarda o momento em que a fumaça branca percorra a chaminé da Capela Sistina e ganhe os céus de Roma. Agora, o futuro da igreja repousa na decisão dos cardeais do conclave. Que a Santíssima Trindade os Inspire.


[+] Envie este artigo para um amigo: