Para duplipensar a língua - artigo sobre o idioma português na internet < Artigos < Duplipensar.net Português do Brasil  English 
 

 
 



Ana Flávia L. M. Gerhardt - Publicado em 07.04.2005




Publicidade


A língua sempre foi um universo altamente duplipensável. Prova disso é o que temos feito ultimamente no DUPLI, construindo, desconstruindo e amadurecendo raciocínios acerca das sérias questões relacionadas à forma como transparece no discurso sobre a língua portuguesa toda a desigualdade e opressão a que tem estado sujeita a sociedade brasileira. Na verdade, malgrado todas as afirmações pessimistas feitas aqui, umas fundadas na realidade sobre os fatos das línguas, outras não, felizmente há pelo menos algum espaço aberto e justo, capaz de rever sensos comuns que não raro remontam a milênios, não se comprometendo com grupos empenhados em manter os cidadãos brasileiros em estado de letargia intelectual.

Embora o filósofo grego Sócrates tenha repudiado a escrita como forma de expressão da verdade, porque nesta modalidade se perde a interlocução necessária ao processo dialético, não há prática melhor que a escrita para que possamos lapidar cada vez mais as nossas idéias, escrevendo, lendo, reescrevendo, relendo, re-reescrevendo, e assim melhorando, artesanalmente, nossa linguagem e o mundo que queremos transmitir aos outros. Por esse motivo, eu particularmente acho o ato da escrita, e também todos os outros que implicam fazimento e refazimento, as ações mais inteligentes de que o ser humano é capaz.

Quem sou eu para discordar de Sócrates, mas vejo grandes possibilidades na interlocução escrita, e por isso este texto pretende dialogar com o último artigo do orwelliano Paulo Giardullo (A linguagem unidimensional), refletindo sobre algumas questões por ele levantadas, procurando, dentro dos limites da minha área de conhecimento, ajustar alguns conceitos e concepções representativas de sensos comuns antiqüíssimos, já refutados por pesquisas lingüísticas recentes e, muitas vezes, nem tão recentes assim. Acredito que tais ajustes podem conferir mais riqueza e verdade ainda aos reais e legítimos problemas apontados por Giardullo e pelos que já vieram e ainda virão a este site discutir o assunto e duplipensar a língua de forma cada vez mais profunda.

Em princípio, a língua é duplipensável exatamente no sentido que Giardullo expôs em seu último artigo, e está aí o grande insight que o seu texto oferece e que repito com muito menos talento: a norma padrão de uma língua, idealizada e consagrada no seio de uma elite sócio-econômica que lançará mão de tudo para transformar em indigentes os que lhe servem, será, paradoxalmente, um dos caminhos para a independência dos que tiverem a sorte de aprender a se comunicar através dela. Neste pensamento se funda a missão verdadeira do ensino de língua portuguesa, que se preocupará em ensinar a norma padrão, cuja apropriação servirá como defesa diante do opressor. Desse ponto de vista, portanto, opressão é libertação.

Haverá nisso quem compare a língua às armas de destruição em massa, legítimas representantes do “Guerra é paz”: os que possuem os poderosos arsenais nucleares e as armas químicas e biológicas são os guardiães da manutenção de uma paz fria, carregada de tensão e medo, e os locutores de um discurso tácito e chantagista que ameaça quem contra eles se puser. Mas, ao contrário, o que torna libertador o saber da linguagem, não para inverter os papéis opressor-oprimido, mas sim para eliminar qualquer forma de opressão, é a profunda aderência existente entre os conhecimentos da língua e do mundo, e também entre a linguagem e o mundo como dimensões de experiências, a um ponto tal que não é possível definir com mínima confiança onde acaba um e começa outro.

Então eu queria começar justamente na relação causa-conseqüência que Giardullo estabelece entre a “diminuição de expressão do vocabulário” identificada por ele e a diminuição da capacidade de pensar. É verdade que o léxico reduzido de uma pessoa está ligado uma menor capacidade de reflexão, mas não numa relação conseqüente. Pensa-se normalmente que a linguagem é o espelho ou um sucedâneo de outras coisas do mundo, mas hoje muitos estudos sobre as bases da cognição humana já definiram que o que ocorre mesmo, como salientei acima, é um processo de retroalimentação mente-mundo, de sorte tal que a linguagem, como prática e aprendizado, não se dará sem se praticar e aprender o mundo e as formas de relação entre as pessoas.

Isso significa que cada saber aprendido, por comezinho que seja, inaugura também um novo discurso que lhe é próprio, uma nova forma de dizer, um novo léxico, uma nova gramática. E o saber da língua, por sua vez, é capaz também de inaugurar novas formas de relação, novos mundos, porque a linguagem faz as coisas existirem, criarem forma, movimento, o que nos faculta dizer que vamos conhecendo as coisas à medida que nos tornamos capazes de falar sobre elas. Dessa forma, como sugeriu Giardullo, saber falar sobre a liberdade é saber que ela existe, é vivenciá-la, e a recíproca é visceralmente verdadeira.

É por isso que os articulistas do DUPLI escrevem tão bem: ao expressarem um saber de qualidade, os articulistas constroem, analogamente, uma escrita que lhe é interessante e pertinente, e cada artigo representa para nós, que o lemos, um aprendizado que inclui informações e formas de discurso usadas para a sua veiculação. Mas, principalmente, quem aprende mais é o redator, que aprofunda seus conhecimentos ao escrever.

Tal assunção tem implicações diretas na prática pedagógica, que deverá estimular toda forma de elocução por parte dos alunos, que, ao se expressarem, corporificam formas de pensamento. Isso torna possível dizer que não aprendemos ouvindo/lendo, mas sim falando/escrevendo, o que já foi detectado com exatidão por Sigmund Freud: o “conheça-te a ti mesmo”, em última instância, é o conhecimento da própria linguagem, é uma auto-alfabetização.

Dessa forma, estão corretos os que acreditam que a escola é o espaço por excelência da leitura e da escrita como experiências efetivas, essenciais para o acesso a qualquer forma de conhecimento adquirido nos bancos escolares, e não saber ler e escrever implica diretamente não saber Matemática, História, Geografia, Química... Estou falando sobre desconhecer as articulações de significados representadas na linguagem, e não sobre desconhecer ortografia, concordância etc., que interessam minoritariamente à construção semântica.

Note-se que é justamente aí que se procede a um desaprendizado, por assim dizer, do mundo-linguagem: desarticulando os saberes. Um exemplo interessante que sempre me vem à mente quando penso nessas coisas é o do Jornal Nacional, da Rede Globo. Chega a ser enojante como, no JN, assuntos e fatos estreitamente vinculados em termos históricos, ideológicos etc. são tratados esquizofrenicamente, como se nada tivessem entre si – da falência da saúde no Rio de Janeiro, digamos, vai-se a algum escândalo de corrupção, depois à previsão do tempo, depois às tramas palacianas de Brasília, depois às freirinhas missionárias que trabalham de graça no Nordeste, depois à guerra no Iraque, depois ao treino da seleção, e sempre termina com uma novidade edificadora, para todos assistirem felizes à novela. Note-se também que nenhum canal aberto, à exceção dos públicos, apresenta programa de debates, onde essas articulações normalmente são feitas. É assim, entre outras ações, que se consegue o paradoxo de, com tanto acesso a informações de toda sorte, as pessoas em sua maioria não saberem de quase nada e não saberem falar sobre quase nada. Isso é um desastre para a mente do Homo sapiens, que por natureza só aprende articulando informações, inserindo um dado micro em um universo macro.

A esta altura, já é possível complementar a tese de Giardullo, com a concepção de que não apenas a norma padrão é instrumento de opressão e chave para a liberdade, mas também a articulação de significados expressa na língua é uma atribuição negada à maioria das pessoas, justamente por ser uma prática capaz de sacudir na base todas as instituições sociais.

Mas uma coisa de que não podemos nos esquecer é que existe uma forma de saber periférica ao “mainstream” social, desconsiderada, inferior e própria justamente dos que “não sabem português”, dos “analfabetos”. Ao mesmo tempo em que se nega aos não-elitizados o que é a idealização de uma elite, desqualificam-se os seus saberes: o conhecimento “bom”, “válido” é o que se aprende na escola, e os que não tiveram acesso a ele, por iletrados que se sentem, tornam-se também mudos: este foi um doloroso aprendizado que adquiri ainda em início de carreira, em priscas eras, frente a uma turma de supletivo com alunos que tinham pelo menos o dobro de minha idade, que tinham vivido e aprendido o dobro do que eu já tinha experimentado nesta vida, e que mesmo assim se calavam na minha frente, temerosos em falar “errado” para a professorinha de português, e certos de que nada sabiam diante do meu diploma de Letras. Ora, isso é também uma evidência de opressão: o opressor diz que a pessoa é analfabeta e ignorante, ela internaliza esse discurso e emudece. Não é diferente o menino negro, pobre e crente que afirma que os países mais ricos do mundo o são por serem protestantes... Se as coisas não dão certo para eles, a culpa é deles, como muito bem disse Giardullo.

Mais uma vez queria deixar claro (espero tê-lo feito em artigo anterior) que o empobrecimento da expressão lingüística, fato realmente real, nada tem a ver com um suposto empobrecimento da língua. A língua é sempre a mesma e, ao mudar, enriquece-se, ajusta-se a novas necessidades e meios de comunicação. Posto isso, não tem razão de ser a crença de Giardullo de que é possível definir limites a qualquer movimento da língua, estabelecendo que tipo de reduções formais uma palavra pode sofrer para não perder uma suposta comunicabilidade, ou determinar as circunstâncias em que uma palavra pode reduzir-se. Isso não existe, Giardullo, nem é proposta de qualquer estudioso sério da língua. Apenas pretendemos entender o que as pessoas fazem com sua linguagem e por que o fazem, e temos tido sucesso na proposta de que toda mudança lingüística tem um sentido exato, criativo, econômico e bem-sucedido.

Atente-se para a suprema arrogância de se querer definir como e o que as pessoas devem escrever ou falar. Quem tenta fazer isso é a Rede Globo, mostrando como devemos pronunciar o nome de um dos Estados brasileiros, ou o do jogador de voleibol. Quem tenta fazer isso são os gramáticos oportunistas que exploram o preconceito lingüístico da maioria das pessoas, estabelecendo que não se pode mais falar “correr atrás do prejuízo”, “correr risco de vida”, “ter problemas de saúde”, porque essas expressões não teriam “lógica”. Quem tenta fazer isso é a escola, e graças a Deus fracassa retumbantemente. Mas ninguém tem esse direito, e a língua nem é uma donzela cuja castidade precisa ser resguardada da turba ignara, e seguramente sua estrutura é estável o suficiente para sempre estar adequada a qualquer propósito comunicativo. Pretender legislar sobre a língua é fazer o que o Grande Irmão quer.

E o Grande Irmão vai também vencer se continuarmos a considerar a língua meramente um conjunto de palavras (o que é senso comum geral), ou, pior ainda, um conjunto de formas, quando na verdade a primazia deve sempre ser dada ao significado. Nesse sentido, ao contrário do que Giardullo afirma, equivoca-se o diário de Winston Smith, preocupado com a redução da forma das palavras. O que Giardullo e Winston consideram reduções semânticas são apenas reduções formais, naturais, a que estão sujeitas todas as formas lingüísticas, cujos segmentos fônicos e/ou gráficos, como muitas coisas na vida, desgastam-se e desaparecem com o uso. Dá para citar vários exemplos disso, num exame rápido da história do português: de “fillium eclesiae” para “freguês”, de “cum edere” para “comer”, de “ac hora” para “agora”, de “maior domus” para “mordomo” e, mais recentemente, de “vossa mercê” para “você” (até “ocê” e “cê”, dependendo da posição na frase), entre muitas outras.

No português atual, usamos uma série de reduções de todo tipo e nem nos damos conta, como “pneu”, “cinema”, “eletro”, “fono”, “metrô”, “otorrino”, “micro”, “flagra”, “japa”, “miserê”, “reaça”, “pós-doc”, sem contar as siglas que se lexicalizaram: “radar”, “aspone” (esse já criado em redução), “GLS”, “PF”, “AVC”, “UTI”, “IBOPE” (um caso interessantíssimo, que de sigla virou sinônimo de prestígio). E nada disso tem a ver com opressão, mas sim, muito pelo contrário, com liberdade de criação lingüística, talvez a única das liberdades que não se logra guilhotinar. Acho muito interessante o fato de que reduções formais são feitas e usadas o tempo todo, mas o senso comum em relação à língua portuguesa as trata como “empobrecimento da língua”, ao mesmo tempo em que repudia formações ainda não estão registradas em dicionários, ou criadas por pessoas não autorizadas a fazê-lo (quer dizer, os que não são gramáticos, lexicógrafos, intelectuais ou famosos), como se a língua fosse propriedade de uns poucos privilegiados e poderosos, e não de todos os seus falantes.

Aliás, o leitor do DUPLI precisa estar ciente de que muito mais se cria na língua que se perde. Para ficar apenas no terreno do léxico (discutir a sintaxe vai tornar este artigo maçantemente maior), vejamos alguns compostos: “filé-miau”, “bolsa-esmola”, “metrossexual”, “axé-music”, “multi-okê” e todos os “disque-X”; alguns derivados: “sociologóide” “desprefeito”, “bicicleata”, “presidenciável”, “semancol” e todos os “X-ódromo”; alguns cruzamentos vocabulares: “toboágua”, “globaritarismo”, “sambahia”, “crionça”, “pescópia”, “terrir”, “democradura”, “capetalismo”, “comídia”, “malufício”, “inimídia”; e, no plano das construções: “Humaitá pra peixe”.

Os anglicismos também nenhum mal fazem à língua portuguesa, ao contrário do que defendem os arautos do português “puro”. É ponto comum entre os sociolingüistas o fato de que, embora a inserção imediata de palavras do inglês seja impactante, um percentual pequeno de palavras se integrará ao léxico do português brasileiro. Isso ocorreu com o francês, no início do século XX, e também, em relação ao inglês, não haverá no futuro um acervo de palavras incorporadas tão significativo quanto o que hoje assusta as pessoas. Esse fenômeno é uma fonte rica de estudo, também porque com freqüência os estrangeirismos adaptam-se aos padrões gramaticais da língua, e aí teremos os empréstimos. Três deles são tão bacanas que merecem ser citados, para que possamos atestar mais uma vez a criatividade dos falantes do português ao manipularem sua gramática: a inversão da relação figura-fundo em “cheeseburger”, para dar em “X-salada”, “X-tudo” e todos os outros Xs; a entrada de “hot dog” no sistema derivacional, que acaba dando na belíssima “dogueiro”; a reanálise que “self-service” tem recebido dos restaurantes Brasil adentro: já vi até “serve-serve”... Muito legal.

Se, diante desses exemplos todos, constatamos que não existe empobrecimento lingüístico, para onde então devemos olhar, a fim de discutir as formas de opressão representadas na língua com um mínimo de fidedignidade? Para a dificultação dos meios de acesso e articulação entre os saberes, o que torna as pessoas desprovidas de uma habilidade eminentemente procedural, de desempenho, mas não de competência. Em princípio, todas as pessoas, guardadas as patologias mentais e/ou cognitivas em geral, são capazes, desde a mais tenra idade, de realizar as tarefas mentais mais sofisticadas, independente de saberem ler e escrever bem ou mal. Já não tem validação as interpretações dos trabalhos de Vigotski e Luria de que a escolarização gera processos cognitivos não possíveis a quem não freqüentou os bancos escolares: hoje já se sabe que até os bebês são capazes de integrar conceitos de forma sofisticada e perspectival. Examinando toda construção de conhecimento como inerentemente sócio-cognitiva, será possível enxergar que a incapacidade de muitos em assumir a fala, a leitura e a escrita como experiências, e construir mundos com elas, resulta de pressão social e internalização de um discurso tacanho e redutor.

A tacanhice do discurso do opressor se baseia fundamentalmente na forma fragmentada com que ele chega às pessoas que não têm outro acesso à informação além do que vem pela televisão e pelos livros didáticos na escola, que muitas vezes apresentam falhas teórico-metodológicas e descritivas, além de adotarem posturas reacionárias. Na escola, a fragmentação se instaura no desconhecimento de que todos os docentes são professores de português, de leitura e de escrita, cada qual relativamente ao seu conteúdo programático. Na crença de que o ensino de língua se caracteriza por bobagens metalingüísticas que não servem para nada, além das outras bobagens que provavelmente se ensinam nas outras disciplinas (por que só o português teria esse privilégio?). No pouco diálogo entre os professores no sentido de realizar um trabalho conjunto, para que na escola os alunos, já cidadãos, se habituem a buscar as relações entre as coisas. Nos cursos de formação (deformação...) docente estilo MacDonald’s, cada vez mais precários, incapazes de mostrar-lhes que todas essas atividades são importantes. Nos salários miseráveis pagos aos profissionais de ensino, que trabalham como heróis para turmas de crianças e adolescentes que não os respeitam, em escolas onde são tratados indignamente.

Contudo, e principalmente, vemos que o opressor tem tido sucesso em oprimir quando nos damos conta de que a formação cognitiva do indivíduo, base para seu desenvolvimento intelectual, começa não quando ele chega à escola, mas sim quando passa a se dar conta de que as coisas têm significado, o que ocorre mais ou menos aos nove meses de idade (talvez antes). Coisas simples que os pais (quando os há) poderiam fazer com os filhos, como brincar com eles, falar com eles, ouvi-los, ler para eles, estar junto com eles, e que são essenciais para a construção da inteligência e da linguagem, são deixadas de lado: os psicopedagogos com quem já conversei sobre o assunto confirmam que não se dá muita atenção às crianças, geralmente porque os pais têm uma pesada jornada de trabalho (quando trabalham) e chegam exaustos em casa (quando as têm). Nas casas, quem fala mais é a televisão, e, com o controle remoto, que facilita a mudança de canal durante os comerciais, nem se conversa. Entre os ricos, a distância entre pais e filhos também existe: muitos pais não sabem quem são suas crianças, do que elas gostam, o que elas desejam, e supõem que o dinheiro suprirá todas as necessidades, e que a escola cara as criará. Poucos se dispõem entrar no mundo de seus filhos, e, com isso, a interlocução necessária à construção da linguagem como ação conjunta por excelência fica tragicamente comprometida. A solução para este quadro tão aterrador é muito simples, graças às excepcionais capacidades cognitivas dos seres humanos, sobretudo das crianças – depois, é claro, de fazer com que todas se nutram decentemente: proporcionar que a escrita e a leitura sejam experiências cotidianas, normais, naturais a elas, e essa experiência atrela-se naturalmente ao acesso a toda sorte de informações, para que elas se apropriem não apenas do saber da língua, mas também do saber do mundo, porque é assim que o Homo sapiens faz. A descoberta da simplicidade das soluções revela a má-vontade perversa de um sistema educacional que nunca se avalia, mas é competente em reproduzir o discurso e a prática de disseminar o preconceito, a desigualdade e a opressão na sociedade brasileira, que estigmatiza a maioria dos cidadãos antes mesmo de eles nascerem. E essa é apenas uma parte da tragédia.

No Brasil, cabe-nos, entre outras ações, descortinar e denunciar cada vez mais este estado de coisas em todas as suas facetas, ampliando nossa visão, nossa linguagem e nosso conhecimento a cada contribuição que os diferentes discursos sobre o ser humano podem produzir. Por isso, será importante saber de que maneira a reflexão de Herbert Marcuse sobre a linguagem aprofunda mais ainda as questões abordadas por todos nós nestes duplipensamentos sobre a língua, mas agora, espero, com mais aproximação ao que já têm fornecido as ciências da linguagem e da cognição, que em última instância só deixam cada vez mais claro que a verdadeira revolução, num sentido individual e também coletivo, está em aprender a ler e a escrever.

P.S. Os exemplos citados neste artigo provêm das obras de Fernando Tarallo e Antônio José Sandmann, bem como de colegas e dos meus alunos de Letras da UFRJ.

P.S. Para quem pediu alguma fonte bibliográfica sobre preconceito lingüístico no Brasil, a minha obra preferida é o excepcional livro de Magda Soares “Linguagem e Escola: uma perspectiva social”, Editora Ática. Magda é uma duplipensadora de primeira hora. É ler para ver.


[+] Envie este artigo para um amigo: