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Professor-Bico – não confundir com professor bicudo
Reynaldo França L. de Mello - Publicado em 26.04.2005
A reforma do ensino universitário vem sendo colocada na mídia como tábua de salvação para o ensino superior no Brasil, tanto na esfera pública como na privada; independente de posições a favor ou contra, ou muito pelo contrário..., faço aqui um alerta para um aspecto perverso que pouco é comentado: o estímulo e a solidificação no cenário universitário do professor-bico!
O ofício de lecionar é antiqüíssimo, seja no mundo laico ou no religioso/mitológico. O conhecimento, criação exclusiva da humanidade (ao menos até onde sabemos), deve ser refletido,transmitido e refletido novamente, tarefa óbvia da pessoa incumbida de lecionar (ao menos deveria ser).
Não pretendo entrar na discussão da complexidade da atividade de lecionar e, muito menos, na produção do conhecimento – tomo-a como um axioma –, mas o fato é que, se vivemos em uma época designada como Era do Conhecimento, em que o trabalho intelectual é disparado a atividade econômica que mais gera e agrega valor, como considerar, então, o processo educativo e o seu elemento fundamental (o educador) apenas uma mercadoria, e diga-se sem rodeios, uma mercadoria de camelô vinda sabe-se lá de onde...
Explico. O professor-bico é aquele que atua nas horas vagas dando umas “aulinhas” aqui e outras acolá, corre de um lado para o outro, pois se não o salário não dá. Ou então, é aquele profissional estável e bem sucedido em sua área (médico, engenheiro, advogado e etc.), que para pagar a mesada dos filhos, o perfume da amante (que é sempre mais caro que o da patroa) e outras “cositas”, se diverte lecionando à noite (há exceções é claro). Seja o professor-bico pobre ou o professor-bico rico, quem perde é a nação, é o desenvolvimento científico, é a formação de massa crítica que está indo para o ralo, e todos comemoram com seus diplomas que não valem nada, absolutamente nada!
Quando vemos o sistema educacional de países como Coréia do Sul, Japão, França, Alemanha, Inglaterra e outros, onde o professor é tido como peça chave do grande sistema de produção e fomento de conhecimento, podemos antever claramente que a bancarrota está próxima – é difícil nos livrarmos da sina de colônia de exportação de produtos agrícolas (no passado cana-de-açúcar, hoje soja, amanhã quem sabe, capim) e de importadores de tecnologias e agora, também, cada vez mais, importadores de conhecimento!
Temos de decidir se vamos transformar o ensino universitário em um grande “lojão de diplomas” e “feudos acadêmicos”, ou em centros de saber e pesquisa (não importa o regime jurídico, se público ou privado, pois a mediocridade permeia ambas as esferas, a mediocridade é atributo dos homens, aliás, na especificidade do gênero masculino é bem mais notória). O fato é tão grave e lastimável que se manifesta até nos altos escalões da governança da “terra brasilis”. A cada dia que passa observamos pessoas completamente incapazes intelectualmente, ocupando os principais postos de direção da nação, em que o pré-requisito é justamente a capacidade intelectual – favor não confundirem inteligência com esperteza, erro gravíssimo.
A tarefa não é impossível, basta eleger o que se considera fundamental. Exemplifico: um profissional da educação superior (o exemplo serve para os demais níveis também, e é até mais urgente) que se dedique a apenas uma instituição, lecionando e pesquisando, percebendo um piso salarial de, digamos de um carcereiro de penitenciária federal (dois mil e seiscentos e vinte e sete reais – iniciais) que só precisa do segundo grau para exercer sua atividade, já seria um bom começo, ou não?
Quando eu vejo um professor ou uma professora do nível superior, ganhando em média vinte reais a hora/aula e dando quatro, oito ou doze horas aulas em diversas instituições de ensino superior e vemos os profissionais do sexo por todo este Brasil ganhando bem mais (inclusive do baixo meretrício), fico pensando em quem está de fato se prostituindo..., o que pensar da situação dos professores do nível fundamental e médio? Vocês sabem: eles são a escória da escória.
Talvez seja por isso que continuamos a ser um país com “vocação” para exportar produtos agrícolas (estamos mais para um neoescravismo do que para um republicanismo, mesmo que sindical – isso existe?), sem ou com pouquíssimos beneficiamentos, portanto, de baixo valor comercial. Então, para quê aprender, ensinar e prosseguir o aprendizado? Uma coisa é certa: o professor-bico é um animal em crescente proliferação na selva educacional tupiniquim (não será necessária qualquer tipo de campanha ambiental para salvá-lo da extinção).
O problema, o grande problema na verdade é de ordem estética, muitos professores-bico (os pobres é claro) estão ficando bicudos de desespero, será que dá para resolver fazendo-se uma plástica?
Penso que a estratégia para a educação e a produção científica do nosso país deveria ser encarada como uma questão de guerra. Acho que precisamos urgentemente de uma guerra: bicudos contra não-bicudos, eis o dilema...
Honestamente, ser professor (a) nesse nosso querido Brasil, não é ter uma vocação sagrada, mas sim, uma vocação de guerreiro (a). Se não vencermos a guerra da hipocrisia e da mediocridade, que se instaurou no seio da educação e da produção científica (bloqueando-as), podemos começar a escrever oficialmente o nome da nossa nação com a letra Z, será de braZil, a mais nova colônia do século XXI!
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