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Maurício Gomes Angelo - Publicado em 13.08.2005




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Ao procurarmos a palavra “hype” – obviamente de origem inglesa - no dicionário, encontramos as seguintes classificações:

1 – hype: gír. agulha hipodérmica. 2 Gír. injeção de narcótico. 3 Gír. viciado em narcóticos. 4 Gír. traficante. // vt enganar, ludibriar.

2 – hype: gír. propaganda ou promoção espalhafatosa. 2. engodo, mentira.

Tal termo, que foi recentemente incorporado ao arsenal da crítica, de modo a denunciar coisas que tenham um marketing maciço e gigantesco por trás (seja pelos meios tradicionais, seja pela própria crítica), nos mostra uma interessante revelação. De que tal espetáculo midiático está intrinsecamente ligado à mentira, ao engano, e cita ainda o conceito da “agulha hipodérmica”. Criada durante a Segunda Guerra Mundial, este procedimento se traduz pela introdução de valores impostos sem que a vítima perceba ou sinta dor. Voilá! Cai a primeira máscara.

“Sin City” foi divulgado de forma que ninguém duvidasse da natureza deística de Frank Miller. A adaptação de suas “graphic novels” lançadas no início dos anos 90 rapidamente ganhou o status de revolução cinematográfica.

Este é o típico filme que sabe transformar seus potenciais defeitos em virtudes. Muito fantasioso? Não podemos esperar fidelidade ao real numa história em quadrinhos. Violento demais? A violência é necessária para a atmosfera corrupta. Vazio de significado? O vazio é requisito básico em função de sua temática. Nada disso impede que seja um bom filme, e ele é. Transcreve exatamente a obra de Miller. Há pouquíssimo espaço para criação. Os ângulos, os diálogos, as cenas, os ambientes, a disposição dos objetos, os trejeitos, tudo, tudo foi rigorosamente adaptado das graphic novels. È, anos-luz, a produção cinematográfica mais fiel a seu material de origem. Utiliza-se adequadamente de sua estética noir (ou, para os mais perfeccionistas, “neonoir”), não falta nada: tem um belo jogo de luzes e sombras no indispensável contraste preto/branco, os indefectíveis personagens “mulher fatal de vermelho”, “policial honesto e problemático, porém impiedoso”, “cidade degradada”, e claro, a tensão psicológica de seus elementos. O humor mezzo negro, mezzo irônico, quando funciona, é ótimo, em especial a cena do resgate de Dwight do poço de piche. Possui ainda a câmera intensa de Robert Rodriguez, que acha o ritmo e a cadência certa, tanto nos zooms, como em ambientes abertos ou fechados e não deixa escapar nenhum sentimento (agonia, medo, dor, confiança, sadismo, prazer, revolta). A técnica de utilizar a tela verde, inserindo cenários totalmente criados em computação gráfica, incomoda, e a maioria dos ambientes não consegue sequer se passar por real, sendo um ponto a ser aperfeiçoado na continuação, se almejarem maior plausibilidade.

É exatamente o que você espera e ainda assim (ou mesmo por isso) é insuficiente e frustrante. Um mundo turbinado por “woman (s) in red” e “lady (s) in black”, assassinos inescrupulosos, gangues peculiares, corrupção de todas as naturezas possíveis, homens crivados por seu passado, vingança, amor, drogas, decadência moral, sangue, amizade, interesses, poder, sexo, psicopatias, lealdade, traição, códigos de ética estilizados e violência, muita violência. Devemos considerar bastante a coragem da produção, que não se furta em mostrar a violência extremamente crua e natural (porém, absolutamente fantasiosa e inverossímil, sendo necessária várias concessões ao “real” para apreciar a estória) da “cidade do pecado” e nem o nu e o erotismo de sua natureza. Coragem escassa em fitas estadunidenses. Se sobra coragem em retratar o cotidiano de “Sin City”, falta ousadia para ir além. Pois o que está em cheque não é simplesmente suas qualidades técnicas, a fluência da narrativa, a interpretação dos atores, mas sua estória, o que ele, de fato, significa. E aí está o problema. Falta a impetuosidade para quebrar o protocolo da “história triste com final feliz”, Miller tenta chocar o público, mas, na verdade, não quer, ou não pode.

Em nenhuma das três histórias contadas ao longo da projeção o final é o que se pode considerar atípico. Marv (Mickey Rourke) se vinga de Kevin (Elijah Wood). E, ao contrário do Marv dos quadrinhos, Mickey Rourke é bonitão demais para crermos que nem prostitutas o aceitariam. A quebra da estabilidade da “Cidade Velha” é evitada na confusão criada por Dwight (Clive Owen). Hartigan (Bruce Willis) cumpre o seu dever ao eliminar o transmutado Roark Jr. (Nick Stahl), e em nenhum momento chegamos a duvidar de que isto aconteça, além de ficarmos cientes de que Nancy Callahan (Jessica Alba) estará salva.

A princípio, “Sin City” seria um “blockbuster-outsider” (e peço a patente do termo). Mesmo com seus “humildes” 45 milhões de dólares para o orçamento (nada, em termos de Hollywood), ele é, inegavelmente, um arrasa-quarteirão. Um filme feito para atingir cifras astronômicas no verão estadunidense. Empacotado para virar “cult” – o que aconteceu de forma automática. Um blockbuster-outsider é aquele filme que, mesmo com sua essência de arrasa quarteirão, tendo o pressuposto básico de gerar lucro (muito lucro), ele se preocupa um pouquinho mais com seu roteiro, foge – em parte – do lugar comum, e traz alternativas inteligentes e/ou reflexivas em sua essência. “Star Wars”, “Matrix” e “O Senhor dos Anéis” seriam representantes do gênero.

Revolução, para mim, é aquilo que suscita, gera, instiga ou significa uma mudança violenta. “Sin City” não quebra com nenhum padrão. Não choca, não agride, não transforma coisa alguma. È somente um entretenimento – acima da média apenas – para um final de semana qualquer. Frank Miller não é nenhum visionário. Encontramos o seu hype. Promete uma perspectiva triste, ofensiva, desiludida, desgarrada de moral, contudo, não entrega nada além de um tipinho dark-sanguinário com devaneios psicóticos. Apenas continua a girar as rodas do establishment. Não se livra do “happy-end”, não consegue gerar algo inteligente e impiedoso, fica só no segundo. È a violência pela violência. A vingança pela vingança. O vazio pelo vazio, não discute o porquê do vazio, a origem dele, faz uso banal de qualquer elemento frutífero, não propõe nada, está ali somente porque é conveniente para sua estória.

Miller passou anos recusando propostas de Hollywood temendo que os produtores “estragassem” suas idéias. Rodriguez trouxe a solução: transpor as coisas exatamente como são. “Sin City”, neste quesito, alcança o sucesso absoluto. Todavia, não há o que estragar. O mal que Hollywood faria - talvez as deixasse ainda mais inócuas – está na própria constituição das idéias. Inocuidade por inocuidade, não faz a menor diferença. Continua tudo em perfeita harmonia no encantado mundo das verdinhas fáceis. A menos que seios e armas signifiquem alguma coisa. E, afinal de contas, não significam?

Filme: Sin City - A Cidade do Pecado
Título original: Sin City
País: EUA
Ano: 2005
Idioma: inglês
Direção: Robert Rodriguez, Frank Miller e Quentin Tarantino (convidado especial)
Roteiro: Frank Miller
Gênero: Ação / Crime / Thriller
Elenco: Mickey Rourke - Marv; Jessica Alba - Nancy Callahan; Bruce Willis - Hartigan; Devon Aoki - Miho; Alexis Bledel - Becky; Powers Boothe - Senador Roark; Rosario Dawson - Gail; Benicio Del Toro - Jackie Boy; Michael Clarke Duncan - Manute; Carla Gugino - Lucille; Josh Hartnett - The Man; Rutger Hauer - Cardeal Roark; Jaime King - Goldie/Wendy; Michael Madsen - Bob; Brittany Murphy - Shellie; Clive Owen - Dwight; Elijah Wood - Kevin; Frank Miller - Padre; entre outros Assista ao trailer do filme Sin City


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