| |
|
|
Paul Auster e as coincidências
Alessandro Garcia - Publicado em 30.08.2005

Publicidade

As coincidências na obra de Paul Auster se convertem como a mola propulsora de ações da maioria dos personagens. O problema é acontecerem em tão grande quantidade, que se tornam fato corriqueiro. Um "acasinho" lá e outro acolá empastelam todos os personagens na aceitação incontestável da obra do "destino cruel".
Terminei de ler Leviatã (não do Thomas Hobbes ), de Paul Auster e, em verdade, após uma quantidade considerável de páginas - 320 - a sensação de vazio é o sentimento mais táctil que tenho. E engraçado o quanto isto vem se aprofundando conforme vou conhecendo cada vez mais a literatura de Paul Auster. Se por um lado, a engenhosidade de Noite do Oráculo foi a responsável por me fazer querer penetrar na obra de Auster, ironicamente, é esta mesma "engenhosidade" (e aqui as aspas cabem por se tratar de um recurso muito gratuito - a engenhosidade das reviravoltas que, a princípio deveriam se tratar de surpresa, mas é só imaginar um caminho oposto ao que o escritor quer que se imagine que a trama se encaminha, para se descobrir facilmente para onde realmente o texto vai) que tem me deixado um tanto quanto enfado a cada livro seu que leio.
Vamos brincar novamente com aquele conceito de resumo da obra do autor. Se literatura, ereção e Israel pode ser [maléfica e reducionistamente falando] um resumo interessante para a obra de Philip Roth [olha outro judeu aí!], a obra de Auster, até o presente momento, tem encontrado em uma única palavra o seu resumo: coincidência. A fixação do autor pelo tema da coincidência, do acaso transformando vidas e de personagens que se deixam fascinar - da mesma maneira que o autor - pela "mão do destino" a lhes guiar os passos chega às raias da repetição. A coincidência para Auster e seus personagens tem tanta importância quanto na história de Flitcraft, de "O Falcão Maltês" de Dashiel Hammet. Este personagem de Hammet, homem comum, norte-americano, que, um belo dia, ao escapar ileso do acidente de um andaime que, desabando, quase o atinge a cabeça, crê que escapou da morte para recomeçar sua vida novamente. Sem se importar com maiores providencias, decide que não pode mais viver como antes e muda-se de cidade para iniciar uma vida nova. Vê aquele ato como um "aviso", uma mensagem do destino para mudar sua vida - não importando a conseqüência dos seus atos, é um homem que acredita totalmente no invisível, crê naquilo que não é possível explicar racionalmente, mas toma aquilo como rota segura a que se agarrar.
O tema é explorado da mesma maneira em O Livro das Ilusões. A "coincidência" que o autor guarda neste romance é a seguinte: após cair em profundo estado de tristeza, chegando a pensar no suicídio, por ter perdido esposa e filhos em um acidente de avião, professor universitário se deixa fascinar, ao acaso, por um antigo comediante, misto de galã e palhaço de películas antigas, Hector Mann, que descobre em uma de suas tantas madrugadas insones, zapeando pelos canais de televisão. O consenso é de que o ator já é morto. Como resta ao professor descobrir um maneira não-dolorosa de gastar a fortuna que ganhou de indenização pela morte da esposa, ele acaba tomando como projeto uma biografia de Hector Mann. Assim, percorre várias cidades à procura de dados sobre o ator, assitindo a filmes antigos e raros, empreendendo uma verdadeira maratona para esmiuçar a vida de uma celebridade pouco conhecida e da qual quase todos se esqueceram. Uma séria de coincidências vai atar sua vida à do ator e só será surpresa para ele mesmo quando descobre que Hector está vivo. As tentativas de reviravoltas, coincidências e "obras do acaso", se sucedem em tão grande quantidade, e de maneira tão gratuita e aleatória, que, longe do fascínio com que tal tema surge em "Noite do Oráculo", por exemplo, se tranforma aqui em fato corriqueiro, em detalhe que pode aparecer a cada virada de página. Quase um Deus Ex-Machina a levar pela mão o protagonista.
Mas Auster gosta deste recurso. Gosta tanto - e, por motivos que, descubro agora, lendo A invenção da solidão, são pessoais (afinal, neste livro de memórias esparsas, o autor analisa a figura de seu pai e sua própria condição de pai e descobre um fato incrível na história de sua família) - que ele surge, novamente, em Leviatã.
Publicado nos Estados Unidos em 1992, o romance se inicia com a explosão de uma bomba e a subseqüente morte de Benjamim Sachs. O narrado é Peter Aaron – alter ego de Paul Auster, conhecido pela obsessão de projetar a si mesmo em sua ficção. Ele tenta reconstituir a história de Ben Sachs para que entendamos como um escritor de ficção, que se desilude cada vez mais com a literatura como instrumento de mudança, acaba se tornando um escritor de ensaios, resenhas e toda sorte de artigos não-ficcionais, acreditando que a ficção não tem mais nada a lhe oferecer, até o descrédito total na escrita. E como, através de instrumentos do acaso, Sachs se torna uma espécie de terrorista patriótico, destruindo réplicas da Estátua da Liberdade em protesto contra o desrespeito dos políticos aos "ideais nacionais" antigos e profundos.
O narrador vai costurando várias histórias distintas, em flash back: relembrando desde a primeira vez que encontrou Sachs, sua mulher Fanny – com quem acaba tendo um caso – e dedicando algumas páginas a uma esquisita e fascinante figurante: Maria.
Maria é uma espécie de artista não convencional, misto de escritora, fotógrafa, artista plástica, que empreende os mais estranhos projetos para satisfação de seu ideal artístico. Um exemplo de suas "intervenções" – que surgem do acaso, sem planejamento – está o plano que empreende quando conhece um homem que considera muito bonito, porém, pessimamente vestido. Durante vários anos, passa a presenteá-lo anonimamente com gravatas, camisas etc. deleitando-se, nos reencontros casuais na casa de conhecidos em comum, ao ver que o tal homem passa a usar as peças que ela enviara. Crê que assim constrói uma obra-prima em termos de beleza masculina - só para ela mesma. Costumava também seguir passantes durante dias ou mesmo meses a fio, fotografando-os e anotando passo a passo seu cotidiano e suas reações. Refazia depois os itinerários de cada um, sozinha, tentando imaginar a existência daquelas pessoas e escrevendo biografias imaginárias para elas – expostas, depois, junto com as fotos.
Maria é só um exemplo dos tantos personagens que levam estas características tão peculiares do universo de Auster. São tantos personagens com esta predisposição a aceitar o que for que o acaso lhes oferece – e a participar de joguinhos intrincados, fugas da realidade – que estas invenções típicas de Paul Auster, com seu tom existencial e irônico, seu universo pautado por regras tão rígidas quanto ilógicas, acabam se tornando um lugar comum, tamanha a quantidade de vezes que são utilizadas.
É com esta série de coincidências aceitas com tanta naturalidade que o narrador, em um barracão na floresta, durante os poucos dias de que dispõe antes da chegada do FBI, tenta reconstituir a cadeia de coincidências que afastaram seu amigo e o levaram a um destino trágico – por sua única escolha, entretanto: nem tudo que o "acaso" lhe oferece precisa ser aceito por ele, mas ele não titubeia, toma tudo como uma espécie de cruz a qual não pode se furtar a carregar.
O que poderia parecer a descoberta de um personagem perdido em um ideal de vida, se transforma na casuística concessão ao acaso. O acaso guia a vida de Ben Sachs ao seu bel prazer e ele se deixa levar, achando que as "pistas" que encontra pelo caminho são as provas irrefutáveis de que deve seguir por tal rumo; sente-se quase com em uma "missão", uma causa nobre - tremendamente boba, na realidade - a guiar-lhe os passos, caindo em infelicidade, e achando que está fadado ao fracasso, irremediavelmente. Como se não lhe coubesse fazer de sua vida o que bem entendesse, mas fosse vitimado por tal sucessão de ações que lhe vão atingindo.
Ocorre, desta maneira, a criação de personagens pouco profundos, facilmente moldáveis aos desejos do "destino", quase todos muito semelhantes em seu apego a aceitar o que lhe é impingido e a julgar que as rédeas de suas vidas não estão em suas mãos, mas que devem ser passíveis para aceitar - para o bem ou para o mal - o que o "acaso" [oh, este deus maléfico!] lhes oferece.
Livro indicado:
• Leviatã - Paul Auster
Paul Auster (1947- ) Paul Auster nasceu em Nova Jersey, EUA, em 1947. Graduou-se em literatura pela Universidade de Columbia. Ainda muito jovem, enfiou-se no porão de um navio e foi para a França, onde amargou sérias dificuldades financeiras. Entretanto, a temporada na terra de Stephen Mallarmé, foi suficiente para adquirir notável conhecimento da língua e da literatura francesa. De volta aos EUA, traduziu e organizou diversas coletâneas de poetas franceses, entre eles Mallarmé, seu preferido. Em 1974 publicou seu primeiro livro, um volume de poesia. Em seguida, sob o pseudônimo de Paul Benjamin, lançou seu primeiro romance, uma história de detetive à moda dos autores noir. Mas a fama e o sucesso só chegariam muito mais tarde com "A Trilogia de Nova York" (1987), três novelas curtas recheadas de suspense, violência e estranhamento. Traduzida para dezenas de línguas, a refinada qualidade literária da Trilogia conferiu-lhe a condição de um dos autores mais culturados e celebrados deste final de século. Além da literatura, Auster também escreveu para o teatro. No cinema, atuou como roteirista, diretor e até ator. Destacam-se em sua obra os romances "Leviatã (1992), "O Palácio da Lua" (1989), "A Música do Acaso" (1990), "Mr. Vertigo" (1994) e "Da Mão Para a Boca" (1996). | |
|
|
|