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Sem eira nem beira
Adilson Luiz Gonçalves - Publicado em 08.07.2005

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O Brasil tem a segunda pior distribuição de renda do mundo, segundo o mais recente relatório do BIRD (Banco Mundial)! Como os governos não têm evoluído, satisfatoriamente, para a solução de problemas de educação, saúde e habitação, a situação da maioria da população se agrava.
É... O Brasil é, desde o Império – quiçá, antes – um país de extremos!
No caso específico da habitação, a indústria da construção civil de uma cidade média do litoral paulista, confirma o quadro nacional de estagnação no mercado imobiliário. Entretanto, a mesma fonte afirma que o “nicho” de apartamentos de alto luxo não está em crise!
Esta faixa engloba unidades habitacionais com três ou mais dormitórios ou suítes (Haja banheiro!), destinadas a moradores e investidores de poder aquisitivo elevado.
Já quanto aos empreendimentos destinados à classe média - definidos como, basicamente, apartamentos de dois dormitórios -, a análise de corretores de imóveis é de que houve retração - quase supressão - de demanda, em razão de dificuldades financeiras vividas por esse contingente social. Essa classe média... Nada falam sobre habitações populares. Afinal, isso é problema de governo!
Curiosamente, outra análise mostra um aumento na procura por casas. O motivo seria a fuga das elevadas taxas condominiais! Mas o dado mais significativo do levantamento refere-se ao perfil dos principais investidores nesse mercado de “alto-padrão”: Consta ser formado, majoritariamente, por “médicos, juízes, empresários, executivos, promotores e práticos”.
Afora os práticos (especialistas em pilotagem de navios, em áreas portuárias), causa surpresa, na atual conjuntura, a presença de médicos, juízes e promotores. Deve haver algum engano, pois há um intenso movimento dos profissionais da área jurídica, com o objetivo de melhorar suas remunerações. O discurso geral é de que isso é indispensável para assegurar condições dignas de vida e independência no desempenho de suas funções. O mesmo ocorre com os médicos que, recentemente, fizeram uma campanha nacional de boicote aos administradores de planos de saúde, por considerarem que os valores pagos por estes são insuficientes para garantir condições de vida e trabalho decentes para os profissionais do setor. De fato, a saúde e a justiça vivem momentos de crise aguda no Brasil. Reclama-se de morosidade, ineficiência, injustiça, impunidade, falta de atendimento e desumanidade. Se a situação é tão aviltante, como estas ocupações podem estar enquadradas no perfil de altos investidores em patrimônios de baixa liquidez, como é o caso dos imóveis?
De volta ao contexto geral, mas ainda sobre retorno de investimento, se os empreendimentos imobiliários estão focados na demanda de uma minoria abastada e restrita, fica uma dúvida: Eles revenderão para quem? Para outros, com o mesmo perfil, ou alugarão para a classe média, menos favorecida? Mas, e as temidas e evitadas despesas condominiais?
Isso pode ser, apenas, um lance de marketing! Mas, se não for, ainda assim deve haver algum engano nesses dados, pois não se encaixam no atual quadro econômico e social do país. Mas se forem corretos há, no mínimo, uma sensível discrepância entre o discurso de penúria e indignação, e a realidade de algumas categorias profissionais!
É óbvio que não são todos os militantes nesses setores que têm potencial para esse tipo de investimento. Muitos padecem dos mesmos males crônicos que afetam os demais brasileiros. O que preocupa é que, enquanto a renda continua a se concentrar nas mãos de pouquíssimos, a maioria esmagadora da população – que ganha extremamente pouco – continua, explorada, iludida e alienada, a aguardar soluções para os problemas sociais do país!
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