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Cybele Meyer - Publicado em 22.12.2005




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Espelho, esta superfície polida que reflete imagens, sempre despertou fascínio no ser humano.

A criança por volta dos seis meses de idade, inicia o conhecimento do próprio corpo através do espelho. É a chamada fase especular. A princípio ela se sentirá surpresa com o que vê. Tentará pegá-la, sorrirá para ela sem reconhecer-se, mas depois acabará por descobrir que a imagem ali refletida é a da sua pessoa.

Nesta fase ela irá descobrir sua cor, se sua barriga é saliente, se suas pernas são grossas ou finas. É claro que ela ainda não possui os conceitos. Ela irá se observar e se analisar sem se qualificar.

Na verdade, todos nós seres humanos, conservamos a fase especular ao longo da vida.

Na adolescência, o espelho é de fundamental importância para a análise das mudanças que estão ocorrendo. Dependendo da forma como se interpretar a imagem ali refletida, o espelho poderá se tornar nosso melhor amigo ou nosso pior inimigo.

O espelho poderá também ser nosso cúmplice, pois diante dele treinaremos discursos decisivos, olhares penetrantes, sorrisos marotos, bem como será testemunha de uma espinha camuflada, de uma sobrancelha aumentada, de uma barriga disfarçada dentro de uma cinta apertada.

Ele é nosso companheiro diário. Na verdade, é para ele que olhamos logo que acordamos. Mostramos-nos como somos, sem disfarces, sem qualquer pudor.

Quando vamos comprar roupas. É para ele que pedimos aprovação.

Quando cortamos o cabelo, ou o pintamos, é para ele que mostramos se a mudança ficou do agrado.

Quando descemos no elevador, não conseguimos ficar de costas para ele. Se passamos por alguma loja e ele está ali exposto, não conseguimos passar por ele sem darmos uma olhadela.

Quando estamos dirigindo, é só o semáforo fechar para imediatamente procurarmos por ele.

Se vamos a um restaurante, sempre arranjamos uma desculpa para irmos de encontro a ele.

Na academia, fazemos os exercícios sempre olhando para ele.

Enfim, ele é bem-vindo a qualquer hora, em qualquer lugar.

Na velhice, ele nos trás a realidade dos anos vividos, as marcas das preocupações sofridas, os cabelos que perderam sua cor original.

Lembram-se da história da Branca de Neve, onde o fiel amigo e conselheiro da rainha malvada, morava dentro do espelho? Era ele quem lhe alimentava o ego. Era ele quem lhe prevenia do perigo causado pela beleza estonteante de Branca de Neve.

E Alice no País das Maravilhas, lembram-se onde ficava este país das maravilhas? Dentro do espelho. Foi entrando nele que ela pôde viver as melhores experiências de sua vida de conto de fadas!

E a lenda de Narciso, que ao ver sua beleza refletida nas espelhadas águas de um lago, ficou tão inebriado com sua própria figura que despertou-lhe um amor desmedido por si mesmo. Na ânsia de querer alcançar sua imagem atirou-se ao lago onde morreu infeliz por não ter conseguido se possuir.

Isto me lembra um conto de Machado de Assis de título “O espelho” onde Jacobina filosofa sobre termos duas almas: a externa que é como as pessoas nos enxergam e a alma interna que é como nós nos enxergamos. Uma não existe sem a outra.

...Jacobina recebe o título e a farda de alferes. A partir deste momento sua vida mudou. Transformou-se em uma pessoa ilustre. Todos se referiam a ele não mais pelo nome e sim por alferes. Passou então a ser requisitado para grandes eventos. Até mesmo seus familiares distantes passaram a exigir sua presença onde era recebido com grande pompa.

Cada vez que Jacobina colocava a farda de alferes olhava-se no espelho e via diante de si um homem ilustre, de suma importância. No decorrer da história, seus familiares são obrigados a se ausentar deixando Jacobina sozinho, numa total solidão. Este, sem ter por perto ninguém para elogiar sua farda e sua posição ilustre, cai em depressão. Ao olhar-se no espelho, sem a farda, só consegue ver uma imagem distorcida, totalmente difusa. Chega até a pensar em suicídio. Eis que, de repente, tem uma idéia salvadora. Coloca a farda de alferes e ao olhar-se no espelho, vê sua imagem nítida, austera, imponente. Então começa a se recuperar e ao longo dos dias que se seguiram, repete o ritual: coloca a farda e admirar-se ao espelho por longo tempo. Esta atitude lhe garantiu sobreviver tranqüilamente até o retorno de seus familiares...

A nossa alma interna é alimentada pela opinião dos outros, quando isso cessa é como se perdêssemos a identidade.

Hoje, o “status”, a posição social, a alma externa, tem muito mais importância do que a alma interna, os valores, a personalidade, o caráter, a honestidade.

Foi-se o tempo onde a palavra tinha o peso de uma assinatura.

Hoje vivemos numa floresta de mentiras, de acusações.

Todo mundo quer jogar areia nos olhos dos outros para que ninguém consiga enxergar a verdade.

O espelho de cada um reflete somente o que ele quer ver.

Aos 50 anos parecemos, diante do espelho, que temos 20.

Adquirimos roupas de grifes, mesmo com a carteira vazia, para que nossa imagem possa ser refletida, no espelho, como pessoas de sucesso.

Nos aeroportos encontramos Narcisos afundados em malas de dinheiro.

Outros Narcisos mais fanáticos usam roupas íntimas de “dólar”.

Há tantos Jacobinas que foram agraciados com ternos, através do voto, que todos os dias, se valem do mesmo ritual de se vestirem elegantemente e se admiraram nos espelhos das propinas, dos mensalões.

Não importa qual a filosofia, qual o partido, quais os argumentos, quais as promessas, qual... quais... qual..., o que importa é que todos se valem do mesmo espelho para enaltecer sua alma externa.

Termino citando Cecília Meireles “Mulher ao espelho”

... Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?

... Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus

Falará, coberta de luzes,
Do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
Outros, buscando-se no espelho.

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