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Ariel Sharon: de príncipe das trevas a cavaleiro da esperança
Joe Rocha Rangel - Publicado em 10.01.2006

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Primeiro Ministro israelense dorme profundamente em um leito de hospital na Terra Santa, e trava a batalha derradeira de uma vida extraordinária, numa era em que o Grande Homem parece um gênero escasso.
São Francisco, Califórnia — Ariel Sharon tinha 21 anos de idade quando um velho sonho sionista materializou-se: o estabelecimento de uma nação independente, onde a diáspora judia pudesse se reunir longe dos pogroms da Europa Velha, e livre do estigma de bode expiatório do mundo, estava selado. Em maio de 1948, sob os auspícios da recém-criada Organização das Nações Unidas, a Palestina foi partilhada entre judeus e palestinos e o Estado de Israel oficialmente criado. Os árabes rejeitaram a partilha, e Israel foi imediatamente atacado por cinco nações árabes: Egito, Síria, Jordânia, Iraque, e Líbano. Israel prevaleceu, e no final da guerra dispunha de mais território do que originalmente lhe fora outorgado pela ONU.
O espírito do jovem Ariel já estava inteiramente possuído pelo sentimento ultranacionalista que seria sua marca pessoal ao longo da vida.
Não tinha medo da morte; desafiava as ordens de seus superiores nos campos de batalha, e odiava os árabes com todo vigor de seu temperamento. Outras guerras vieram — a Guerra dos Seis Dias, em 67, e a do Yom Kippur, em 73. Nesta última, conduziu triunfalmente as tropas sob seu comando às portas do Cairo e foi coberto de medalhas e glória, e reverenciado como um estrategista militar genial.
A malfadada invasão do Líbano, em 82, revelou um aspecto sórdido do seu instinto: centenas de palestinos inocentes foram covardemente trucidados por aliados cristãos em dois campos de concentração. O evento lhe valeu a reputação de belicista irresponsável entre os judeus, e a alcunha de “açougueiro de Beirute” entre os árabes. Em conseqüência, uma geração inteira de israelenses cresceu com a idéia de que se Ariel Sharon chegasse um dia ao poder em Israel, eles abandonariam o país.
Em setembro do ano 2000, Sharon fez uma inoportuna visita à Esplanada das Mesquitas, o bem imobiliário mais disputado do planeta, um lugar da mais sagrada significância para os mulçumanos, de onde, segundo acreditam, o profeta Maomé teria ascendido aos céus. O timing da provocação foi maquiavelicamente calculado: poucas semanas depois do colapso das negociações de paz entre judeus e palestinos em Camp David, nos EEUU. Ariel Sharon ocupava, então, o cargo de ministro das Relações Exteriores. Sua atitude deflagrou a segunda intifada palestina, ou foi, no mínimo, pretexto para ela. Mas é um fato que a onda de violência e o recrudescimento das hostilidades entre palestinos e judeus agiu como veneno político, e resultou na derrota eleitoral do Primeiro Ministro Ehud Barak, do Partido Trabalhista, cinco meses depois.
A percepção popular naquela conjuntura era de que Israel agora precisava do líder que acreditava na represália bruta, no monólogo duro dos canhões.
E assim foi. Ariel Sharon elegeu-se Primeiro Ministro com mais de 60 por cento dos votos.
Sabe-se que Sharon jamais confiou nos palestinos (nunca apertou a mão de Arafat), jamais contemplou a idéia de negociar com eles, jamais votou a favor de qualquer negociação de paz com os vizinhos árabes. No começo tentou adotar sua filosofia básica de retribuição com juro elevado, “matar dez palestinos para cada judeu assassinado”.
Mas a truculência e a força dos tanques não conseguiram estancar o banho de sangue: os ataques suicidas continuavam a incendiar o dia-a-dia israelense.
No final de 2003, Sharon decidiu desmantelar todos os assentamentos israelenses da Faixa de Gaza, promovidos por ele próprio no passado, e devolvê-los aos palestinos — unilateralmente, preterindo condições pré-fixadas em ‘mapas de paz’ elaborados por Washington e endossados pela União Européia. Apesar de veementes protestos dos extremistas de seu partido, das ameaças de morte contra sua pessoa, e de advertências alarmistas de que o processo poderia precipitar uma guerra civil em Israel, a implementação da ordem de evacuação transcorreu sem que houvesse sequer um arranhão.
Dois meses atrás, Ariel Sharon abandonou o Likud, o partido direitista que ajudara a fundar há trinta anos, e criou um outro centrista, o Kadma.
Como explicar a transformação?
Os céticos e os que desconfiam das razões humanas acham que ele simplesmente abriu mão de um território imprestável, num gesto dissimulado de boa fé, para consolidar a ocupação da Cisjordânia, ou Judéia e Samaria, como preferem os judeus fundamentalistas que se arrogam o direito bíblico àquele pedaço de terra.
Penso que suas motivações eram outras.
Ideologia x pragmatismo
Sharon estudou a demografia de seu país, e concluiu que a única forma de preservar Israel como um estado judeu seria separar-se, fisicamente, dos palestinos. A iniciativa evita o enfrentamento militar direto — que Benjamin Netanyahu, ex primeiro ministro e atual presidente do Likud, prescreve como solução —, e poupa os dois povos da miséria humana resultante das guerras; mas descarta negociações diretas com a Autoridade Nacional Palestina, como preconiza o Partido Trabalhista. Afinal de contas, tais estratégias se intercalaram ao longo dos cinqüenta e sete anos de existência do Estado de Israel. E fracassaram.
A passagem do tempo, as circunstâncias — as lições da história — criaram o Ariel Sharon dos últimos anos. O ideólogo utopista que imaginava a Grande Israel, próspera e verdejante, expandindo-se do Nilo ao Eufrates, deu lugar ao pragmatista curtido pela ânsia de um povo que deseja paz, segurança e estabilidade, mais do que qualquer rompante de orgulho e chauvinismo. Sem essas condições, tudo é supérfluo. O próximo passo em direção a esse fim seria a evacuação israelense da Cisjordânia.
A esperança repousa no político que formulara a nova doutrina sharonista de desligamento unilateral dos territórios tomados em 67. Ehud Olmert, administrador competente, ex-prefeito de Jerusalém, é um intelectual com o dom da palavra. Mas falta a ele a estatura moral de seu chefe: Ariel Sharon era capaz de carregar Israel nos ombros de seu carisma, e não tinha receio de ousar. Os interesses do Estado Judeu sempre estiveram acima de seus caprichos pessoais. Mesmo seus desafetos mais amargos confiavam que ele seria incapaz de comprometer a segurança do povo judeu, e sua popularidade reside justamente nesse fato.
Enquanto o herói maldito — e inesperado timoneiro da paz — repousa na misteriosa fronteira entre o sono e a morte, o curso natural da História encontra-se temporariamente interrompido, e o futuro da região flutua num vácuo.
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