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O Chavéz e o "Porta"
Adilson Luiz Gonçalves - Publicado em 27.03.2006

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De repente, no programa de televisão, o Chávez começou a esbravejar: “Covarde! Borracho! Assessino!” e, na seqüência, chamou quem ofendia para a briga... Bem, por um momento pensei que estávamos em Brasília, mas o idioma era o castelhano... Uai, mas essa seria uma fala característica do Seu Madruga, ou do Seu Barriga, ou, até, do Kiko. Só faltou falar: “Gentalha! Gentalha! Gentalha!”. Mas não era o sempiterno programa humorístico infantil mexicano: era o presidente venezuelano descarregando sua indignação contra o relatório dos EUA, que o considerou um elemento desestabilizador na América do Sul: uma ameaça à democracia da região... No ar, ao vivo e em cores ele chamou Bush para a briga!
Chamar para a briga... Na Idade Média a “coisa” funcionava assim: quando dois reis disputavam uma cidade ou propriedade, era promovida uma “justa” entre os seus campeões. Quem vencesse selava o destino “divino” do objeto da querela, e não se falava mais nisso, ao menos até o desafio seguinte.
Olha, até que a idéia não é ruim; o Brasil se daria muito bem, se considerarmos a enorme quantidade de lutadores de jiu-jitsu tupiniquins espalhados pelo planeta. É isso aí: os destinos da humanidade seriam decididos em torneios de “vale-tudo”! Mas, e se o campeão de uma das partes resolver usar o golpe do “homem-bomba”? Não vai haver vencedor!
Por isso é que o caminho do diálogo, da diplomacia e do consenso deve ser a primeira e, se possível, a única opção; senão, teremos que chegar à triste conclusão de que milênios de evolução intelectual não foram suficientes para nos livrar da primitiva “lei do mais forte”.
Obviamente, Bush não tomará conhecimento do desafio de seu desafeto. Deixará que outros setores da “inteligência” dos EUA cuidem disso. No limite, talvez mande alguém brigar em seu lugar, por terra, céu e mar... Ainda existe a possibilidade do dirigente da maior economia mundial, da mais poderosa nação bélica do mundo, com todos os seus artefatos nucleares (cuja única e “divina” intenção é manter a paz no mundo), em sua resposta a Chávez, cante com desdém pueril: “Eu tenho, você não tem!”.
De um lado e de outro: é desse tipo de dirigentes que o mundo precisa? São eles que vão assegurar a paz na terra no terceiro milênio?
A situação poderia ser diferente se o interesse econômico fosse substituído por uma visão humanística; mas, as posições dos EUA parecem bem claras (aliás, como a de todas as potências que os antecederam): os acordos que eles assinam são para os outros cumprirem; a paz que perseguem é a de Wall Street; diplomacia praticada é a do “é assim que eu quero!”; e senão for por bem, vai por mal...
Há que se romper com esse paradigma de poder: intervencionista e violento, que tem sido responsável por fome, medo e morte; mas, infelizmente, muitos governos se rendem a ele, e muitos governantes se vendem a ele. Há os que se opõe, é verdade; mas não é com fanatismo, bravatas e martírios, individuais ou coletivos, que a ordem mundial será aprimorada. Falta-lhes pragmatismo. O máximo que esses líderes carismáticos conseguem é colocar seus povos em situação de risco (ora como aríetes, ora como escudos) pelo uso ilimitado do populismo e da doutrinação, dois poderosos inibidores da racionalidade.
É difícil, reconheço, romper com esse tipo de dominação, ou lutar contra um inimigo que não se vê, ou do qual nem se desconfia. O discurso libertário inflama; mas, normalmente, esconde o fascínio pelo poder, onde o bem do povo ocupa o último lugar, a não ser nos discursos nacionalistas e religiosos. E há tantos fatos e fatores obscuros no concerto das nações e na mente das lideranças, que primeiras intenções sempre podem esconder segundas, terceiras, quartas...
É verdade que o Governo Bush, especialmente, tem se comportado, desde o primeiro mandato, como uma “porta”! Mas, a postura do presidente venezuelano não parece ser a melhor forma de abrí-la nem, tampouco, de arrombá-la... Chávez ao menos foi prudente: escolheu Bush para a sua “justa” político-pessoal. Imaginem se o desafio fosse para o atual governador da Califórnia, Arnold Schwarzeneeger?
Houve erro de ambas as partes, e Chávez tem sua razão; mas, creio que é de outro tipo de coragem que precisamos para abrir as portas de um novo mundo!
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