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Eu não entendo a cabeça de jogador de futebol!
Ramana Jacques - Publicado em 03.02.2006

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Domingo, 22 de janeiro de 2006, estava eu assistindo Botafogo x Vasco, jogo que marcou a reabertura do Maracanã. Casa cheia (na medida do possível, já que parte do estádio, ainda em obras, não está disponível para os torcedores), um jogaço de bola, oito gols, sendo três do interminável e inigualável baixinho Romário, que mesmo assim não foi o suficiente para o Vasco vencer a partida, jogadas memoráveis de ambos os lados... Enfim, mesmo não sendo torcedor de nenhum dos dois times, tive a certeza de ter assistido um jogo memorável, que daqui a não sei quantos anos será lembrado como aquele Botafogo e Vasco da reabertura do "Maraca".
Tudo muito bom, tudo muito bem, mas terminado o jogo, não foi nenhum dos gols do Botafogo, nenhum dos gols do Romário, não foi a lambreta que o Morais deu em cima de dois defensores do Botafogo, nem o gol anulado de cobertura do baixinho, não foi nada disso que ficou na minha cabeça. Foi sim um lance grosseiro, que acabou me remetendo a vários outros do gênero. Que gênero é este? O que o jogador de futebol tem na cabeça? Ou então, eu não entendo cabeça de jogador de futebol (parece até nome de comunidade de Orkut).
Pois bem, 20 minutos do segundo tempo, o zagueiro Asprilla do Botafogo mete o braço na bola dentro da área, pênalti pro Vasco, convertido por Romário, Vasco 2 x 1 Botafogo. Até aí nada de mais, mas pensemos: o que geralmente um juiz de futebol mais quer após marcar um pênalti para um time? Marcar outro pro adversário, assim para ele fica 1 a 1 e todos ficam satisfeitos. É algo psicológico, acabam fazendo isso automaticamente. E não é que cinco minutos depois do gol do Vasco, o lateral vascaíno Wagner Diniz comete um pênalti totalmente desnecessário, numa bola que claramente ia sair pela linha de fundo, quando Bill, lateral esquerdo do Botafogo, ao tentar penetrar na área vascaína acabou adiantando demais a bola! Nesse momento vieram na minha mente, adjetivos depreciativos (idiota, imbecil, besta...), um atrás do outro, tudo em direção ao Wagner Diniz. Mas, sobretudo, o que me ficou martelando foi: “O que esse cara tem na cabeça pra fazer um negócio deste”. Se ele sabia (sim, porque não é possível que ele, sendo jogador de futebol, não saiba que árbitro adora dar uma compensada) que o juiz estava doido pra dar um pênalti pro Botafogo? Enfim, pênalti marcado, pênalti convertido, Botafogo empata o jogo e depois acaba marcando mais três, vencendo a partida por 5 a 3.
Mas esse lance não saiu da minha cabeça e eu comecei a buscar pela memória outros lances desse tipo, que por mais que se tente explicar, dificilmente se justifica, por exemplo:
Já mencionei a tentação compensadora que os árbitros de futebol levam consigo (podíamos até elaborar uns mandamentos a serem seguidos pelos juízes, tipo: não compensarás um erro com outro; não ajudarás o time da casa, não beneficiarás a equipe que tenha mais tradição...), mas quantas vezes não vemos, após o jogador de uma equipe ser expulso, no lance seguinte um adversário, já amarelado, fazer uma falta desnecessária, porém passível de cartão, e acabar sendo igualmente expulso por receber a segunda advertência? E faz isso apesar de saber que o árbitro está doido pra mandar alguém do outro lado pra rua!
Outro caso típico. Com o nível de tecnologia que as transmissões adquiriram, dificilmente alguma coisa passa despercebido em campo, é uma espécie de Big Brother esportivo. Mas mesmo assim, mesmo após o jogador ser flagrado pelas câmeras dando um soco, cuspindo, xingando o adversário, mesmo sabendo que as câmeras não deixam passar praticamente nada sem registrar, mesmo assim, corriqueiramente negam, negam tudo. Muitas ainda saem com essa: “eu nem encostei nele!” ou “ele se jogou!”, mesmo que o sangue ou o hematoma no corpo do seu oponente o contradiga. São sempre vítimas de alguma injustiça, seja do juiz que por ventura o tenha expulsado, seja do adversário, esse sim, causador de toda a discórdia.
Nessa mesma linha, mesmo falhando de forma clamorosa em algum lance, mesmo sabendo que todos viram, é hábito recorrente o recurso às desculpas mais esfarrapadas pra justificar o injustificável (“foi o quique da bola”, “a bola fez uma curva”, foi o “montinho artilheiro”), quando seria muito mais simples admitir o erro e acabar de vez com a história.
Certamente, se buscar pela memória, existem várias outras situações desse gênero, e eu sei lá o que acontece, vai ver que dá um branco nessas horas.
Eu só sei que eu... eu não consigo entender a cabeça de jogador de futebol.
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