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Há alguma alternativa para o sistema?
Paulo Giardullo - Publicado em 06.03.2006

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Preocupa-me muito o quadro geral de desarmonia da humanidade e do planeta em geral, em que vemos a desigualdade social entre países e entre seres humanos dentro da estrutura dos estados, vemos a degradação ambiental crescente, o crescimento desordenado da população mundial, guerras, disputas étnico-religioso-nacionalistas, opressão, restrição da liberdade, ditaduras em algumas partes e democracias duvidosas em outras. Massificação, consumismo, violência, intolerância, preconceitos. Ignorância.
Paralelamente a tudo isto, pessoas continuam mandando e-mails com mensagens comoventes e superficiais de auto-ajuda, religiosos pregam versões próprias de amor universal, revolucionários acreditam na tomada do poder pela força para promover o bem coletivo, intelectuais se aprofundam em longas discussões formais que não chegam a lugar nenhum, enquanto o cidadão médio acredita na moral mesopotâmica da lei do olho por olho, dente por dente, misturada com a moral do darwinismo social e sonha com a ditadura militar para manter a ordem.
Como muito bem abordou nosso colega do dupli, Janos Biro, o “sistema” tem uma facilidade incrível de reciclar, de assimilar e “converter” a rebeldia. Foi assim com o Rock, com o movimento hippie, com as drogas e a liberação sexual. Os movimentos do tipo “contra” e “a favor” disso ou daquilo também sempre me geraram certa desconfiança. Primeiro pelo radicalismo e o tom panfletário, com a repetição de slogans. Segundo pela limitação da causa em um tópico específico, como direito dos animais, feminismo, racismo, causas ecológicas fragmentadas, desarmamento etc.
Até que li na Internet uma parábola do autor Daniel Quinn, o qual estou conhecendo agora e parece ter algumas abordagens interessantes sobre a saúde geral do planeta e da humanidade. Trata-se da parábola do navio que está afundando e ao invés de se juntarem para salvar o navio ou providenciarem o funcionamento do bote salva-vidas, os diversos grupos de interesses diversos do navio, preocupam-se primeiro em lutar pelos seus direitos ou dos seus ideais, que seriam o grupo feminista, a sociedade protetora dos animais, os anti-racistas, os socialistas, etc.
Tenho minhas dúvidas quanto ao próprio marxismo, ou seja, lá socialismo/comunismo. Sei que o meu conhecimento sobre o assunto, apenas de algumas leituras autodidatas e do meu curso de graduação em história, não me autoriza formalmente a formular uma crítica sobre essa linha de pensamento, pela vasta bibliografia e complexidade do tema, mas a grosso modo, não acredito na alternativa socialista ao capitalismo.
Acho a crítica marxista ao sistema vigente muito coerente. Tão coerente que o fato da aplicação prática do socialismo ter fracassado em alguns países e do capitalismo ter se consolidado como “inevitável” não retira a força e realismo da crítica socialista como querem aqueles que pregam o “fim da história” com a queda do muro de Berlim. Os mesmos que pregam a lei do mais forte, da meritocracia, a competição e acumulação como leis naturais e imutáveis.
Na prática mesmo, apesar de todas as teorias e lutas revolucionárias, o que o socialismo conseguiu nos séculos XIX e XX, no campo da verdadeira democracia, na promoção do ser humano, na igualdade social? Nos lugares em que venceu com muito sangue derramado, instalou ditaduras, tipo stalinismo ou maoísmo em muitos aspectos piores do que as mazelas capitalistas. Cuba fica como um talismã dos sonhadores revolucionários que ignoram a opressão ditatorial de Fidel, numa ditadura vitalícia, que já dura décadas. Por outro lado, “a Ilha” serve ao mesmo tempo, como um exemplo utilizado pelos adeptos do sistema para mostrar o fracasso comunista, quando procuram contrapor o progresso e a abastança capitalista com o abastecimento precário, os carros velhos, a economia emperrada da Ilha. Mas se esquecem de que o Tio San faz um cruel boicote ao pequeno país e não citam os avanços em saúde, educação, esportes do regime de Fidel. Maniqueísmos de lado a lado. Quando iremos parar de discutir a dicotomia capitalismo/socialismo como se fosse a discussão entre torcedores apaixonados de dois times rivais de futebol?
Nos países em que se instalaram fortes comandos revolucionários, mas que não chegaram ao poder, como na Colômbia e em alguns países da América Latina, o que se vê são guerrilhas crônicas, cíclicas, que causam inúmeras mortes e não chegam a lugar nenhum, a não ser o aquecimento da venda de armas e munições. Há em alguns casos a corrupção dos valores “revolucionários”, quando a guerrilha se alia ao plantio e tráfico de drogas.
E as conquistas quanto aos direitos trabalhistas que o socialismo conseguiu principalmente no fim do século XIX e início do século XX? Tudo bem. Foram importantes, mas dentro do esquema de assimilação capitalista, não seria um objetivo que o capitalismo queria mesmo chegar para acomodação do sistema? Alguma coisa do tipo: criar um mercado consumidor para os próprios produtos e melhorar a adesão do sujeito ao trabalho. Não é muito inteligente, nem produtivo manter uma situação de extrema penúria da mão-de-obra por muito tempo. Não foi assim com o escravismo, sobre o que aprendemos em história básica do Brasil, que os interesses dos ingleses e dos poderosos em geral, apontaram na direção da abolição, não por altruísmo, mas por interesse do sistema?
E como diz o mesmo Janos Biro em um artigo recente aqui no DUPLI, realmente parece que quase todas as rebeldias estão neutralizadas, assimiladas pelo sistema. Lembra-nos de um exemplo clássico, que é a transformação de um dos maiores ícones revolucionários, Che Guevara, numa marca de consumismo superficial, em que aquela sua foto tradicional é vendida em camisetas, bonés, bótons e tudo o mais, passando uma vaga imagem de rebeldia.
Não parece haver muito mesmo o que fazer, a impressão que se tem é que não há nada de novo a ser dito, tudo já está escrito e revertido. Tudo irá cair no ciclo vicioso da assimilação das rebeldias pelo sistema. Para muitos, o real se aproxima cada vez mais do que é ideal, o que é daquilo que deveria ser. O status quo tende cada vez mais à acomodação.
Quanto ao que Janos Biro tenta passar sobre as diversas frentes a quem se deveria dedicar aqueles que querem lutar contra o sistema, já que o monstro tem muitas faces e uma capacidade de reciclagem muito grande, nos lembra algumas lições da obra de Foucault de que o poder se articula de tal forma, em uma poderosa e vasta rede, gigantescamente ampla e ao mesmo tempo, ramificada até as mínimas relações. Portanto, uma luta contra o sistema, teria que ser uma luta em muitas frentes, quase impossível, uma tarefa deveras hercúlea. Isto é uma característica da obra de Foucault, principalmente de Vigiar e Punir, que embora realista, nos dá uma noção de sufoco, de desespero, quase um recado de que não há chance, a não ser que um fato novo, forte, macro aconteça, como uma catástrofe externa ou um colapso das próprias contradições do sistema. Uma indigestão nos próprios intestinos do monstro, ou que ele devore abruptamente todos os nutrientes do seu habitat, ou que os gases de sua digestão o sufoquem.
Mas há o risco de que essa elucidação ampla e macro de Foucault acabe nos levando para a resignação, quando ele nos mostra que o poder é tão complexo e forte, que quase não há o que fazer e que lutas fragmentadas e pontuais são tolice. Ou seja, ele próprio, Foucault acaba sendo assimilado também pelo sistema. Depende a forma como for abordado. Além disso, como ele mesmo diz, toda forma de saber é uma forma de poder. Daí, que o conhecimento de Foucault pode levar a pessoa, caso se interesse pelo poder, a aplicar a própria denúncia do filósofo para a manutenção de um poder próprio em alguma esfera. Isto porque a sua obra, se usada em sentido contrário pode significar um verdadeiro “manual de manutenção de poder”, assim como muitos usam a obra de Maquiavel. Vários líderes políticos brasileiros de ideais duvidosos, como FHC disseram ter o Príncipe como um livro de cabeceira.
Há, pois, alguma saída possível? Não sei, acho que no presente, no aqui e agora, não. Nem em um futuro recente. Por isso insisto que há alguma perspectiva, porém, mais no sentido de uma utopia, seja de lugar ou tempo. Uma transferência das condições ideais para um tempo ou lugar longínquo, distante. Acho que não é impossível, mas não vislumbro nada de concreto no horizonte, a não ser uma fumaça negra que sobe das fábricas e das explosões de bombas e que bem pode se transformar, qualquer dia, em uma nuvem atômica, dependendo do humor dos fundamentalistas (usem eles turbantes ou elegantes ternos). No entanto, acima e além desta nuvem negra, brilha o sol e há todo um universo inexplorado.
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