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A inércia inconsciente das desigualdades sociais
Ramana Jacques - Publicado em 18.01.2006

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“As idéias da classe dominante são as idéias dominantes em cada época”, já dizia o velho Marx. Se a estrutura social vigente é a capitalista, então as idéias dominantes serão as que representam essa estrutura, ou seja, valores como o sacramento da propriedade privada, as relações de trocas impessoais no cenário do chamado “livre mercado”, a competitividade a qualquer preço, são predominantes neste contexto. Todo esse ideário vem navegando sob céu de brigadeiro, sem turbulências ideológicas definitivas, capazes de por em xeque esse imaginário coletivo, sobretudo após a queda do muro de Berlim e a proclamada “fim da história”.
Se essas idéias são as dominantes, não importa a posição social do sujeito, seja o megaempresário que de dia põe o capital dele na bolsa de Nova Iorque e de noite em Tóquio, seja o pé rapado que procura de lato de lixo em lata de lixo o alimento para a sua próxima hora de existência, estes dois segmentos, majoritariamente, compartilham desses valores. E assim vai se levando a vida, um esbanjando, o outro sofrendo, um vivendo, o outro sobrevivendo, um comendo um big mac, o outro também, porém o que sobrou dele, um proprietário, o outro expropriado. É a substituição e legitimação de um novo tipo de estamento, baseado agora no poder econômico, e não mais no hereditário dos tempos feudais. E vamos vivendo sem contestar essa nova estrutura estamental, como numa matrix, vivendo como os Alfas, os Betas, os Gamas, os Deltas, ou os Ipsilones de Aldous Huxley, ou como integrantes do Partido Interno, do Partido Externo, ou da Prole de George Orwell, tudo pela estabilidade social e pela perfeita funcionalidade das engrenagens do sistema.
Daí que inconscientemente, querendo ou não, essa estrutura social faz com que todos que não contestem essa visão majoritária (burguesa), contribuam para a manutenção e ampliação das desigualdades estruturais provocadas pelo modo civilizatório capitalista. Em outras palavras, o indivíduo, ao viver de acordo com o padrão de vida que lhe foi ofertado economicamente, incorporando todos os valores estamentais capitalistas, não fará mais do que contribuir para a perpetuação do sistema. Explicitando:
O que se espera de uma pessoa nascida numa típica família de classe média?
Que ele tenha uma infância feliz, faça esportes, faça um curso de línguas, estude num bom colégio (geralmente particular), aprenda desde cedo a mexer com a tecnologia vigente, faça um cursinho pré-vestibular, curse uma boa faculdade (agora, se possível, pública), se qualifique para o famigerado mercado de trabalho, constitua família, tenha filhos, dê uma boa educação ao filho... Isso vai longe e não tem fim, seria um mais do mesmo.
Por outro lado, qual a perspectiva de alguém que não tenha a mesma sorte e não nasça virado para a lua? O descrito no parágrafo anterior? Nem em sonhos, se ele der sorte conseguirá terminar o ensino médio. O mais provável é que comece a trabalhar antes dos dez anos em algum tipo de subemprego e só termine no dia de sua morte, que viva miseravelmente com um salário mínimo toda a sua existência e que tenha como consolo a propaganda global dizendo que ele “é gente que faz” ou que ele “é brasileiro e não desiste nunca”.
Slogans muito bonitos produzidos por publicitários, porém nem tanto os que o vivenciam. Como bem disse Joãosinho Trinta, “quem gosta de miséria é intelectual”.
Essa é, então, a barreira a ser quebrada, já que as movimentações sociais não ocorrem verticalmente (ou melhor, ocorrem, verticalmente para baixo, dado que a classe média é cada vez mais jogada para o andar de baixo, e o movimento contrário é meramente residual). O indivíduo, sendo um cidadão de bem, com vagas preocupações sociais, que contribua com o Natal Sem Fome ou com o Criança Esperança, e ache que com isso, estará fazendo o seu dever, mas que tenha em si intrínseco os valores inerentes ao capitalismo, estará na verdade, fortalecendo os mecanismos produtores (e reprodutores) das desigualdades sociais.
Há que se, portanto, quebrar essa inércia social (re)produzida geração após geração. Assim, de maneira geral, penso que os favorecidos economicamente deveriam contestar o porquê desse privilégio, enquanto que os desfavorecidos deveriam se rebelar contra a estrutura engessada que os prendem a condições de vida meramente existenciais. Só dessa maneira é possível quebrar a inércia social que caracteriza a nossa sociedade e caminhar destino ao desapego relativo às posses, ao orgulho, ao ódio, à fama, a fortuna, à posição social, proposto por Aldous Huxley. A questão que se coloca é: como se chegar a esse grau de consciência nos dias de hoje, tão marcado pelo individualismo e egoísmo?
A revolução se dá, sobretudo, no interior de cada um, ela é endógena e não exógena como muitas vezes a esquerda atrasada tentou vender, e talvez por isso seja muito mais difícil realizá-la do que se supões por muito tempo.
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