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O poder das formas não marcadas
Ana Flávia L. M. Gerhardt - Publicado em 16.03.2006

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Minha porção mulher que até então se resguardara
É a porção melhor que trago em mim agora
É que me faz viver.
Gilberto Gil
As ciências da linguagem oferecem, entre outros ensinamentos, fatos e informações que buscam justificar por que na língua portuguesa usamos as palavras no masculino e no feminino, alterando apenas as suas terminações, como em “o menino - a menina”, empregando palavras diferentes para designar elementos de diferentes sexos, como “o cavalo - a égua”, ou apenas antepondo o artigo para evidenciar o gênero, como em “o presidente – a presidente”.
Com a Lingüística também aprendemos por que os falantes do português estabeleceram a distinção masculino-feminino para marcar o gênero das palavras a par de muitos outros parâmetros vigentes em certas línguas, como, no malaio, distinções entre animais com e sem cauda, entre árvores frutíferas e não-frutíferas etc., marcadas nos significados gramaticais dos nomes.
Uma das teorias que buscam explicar esse fato relaciona-o ao senso comum de alguns povos mais antigos que utilizavam uma protolíngua denominada indo-europeu, associando a maneira como enxergavam os homens e as mulheres aos elementos e forças da natureza, e compondo assim um universo em que tudo era macho ou fêmea; nesse contexto, a força, a grandeza, a superioridade eram do macho; a fraqueza, a pequenez, a inferioridade, da fêmea; os animais de grande porte e poder na cadeia alimentar eram do gênero masculino; os de tamanho e importância desprezível eram femininos.
Hoje em dia não se pode mais resgatar em grande parte dos idiomas essa correspondência completa: nas línguas que possuem distinção de gênero baseada na oposição masculino-feminino (algumas ainda com o neutro, como o alemão), apenas em poucos casos se pode estabelecer pares que se opõem quanto ao sexo, como “pato-pata”, mas na grande maioria das vezes o que se tem são definições arbitrárias para o uso dos artigos a e o, como em “a mesa”, “a cal”, “o poste”, “o problema”. Mas é interessante verificar como recuperamos os conceitos antigos ao usarmos palavras como “bichinha”, feminina e diminutiva, e “sapatão”, masculina e aumentativa.
Para a distinção de gênero e de número em línguas como o português, diz-se que a oposição entre os significados masculino-feminino e singular-plural se faz entre as formas não-marcadas – masculino e singular -, e as formas marcadas – feminino e plural. A idéia de marcação X não marcação justifica-se porque tanto o masculino quanto o singular também podem representar uma totalidade em termos de gênero e número; por isso, uma frase como “O homem é mortal” pode aplicar-se a um só homem bem como a todos os homens e também a todas as mulheres, e essa ambigüidade é permitida graças ao status não marcado das noções de masculino e singular; observe-se que o enunciado “As mulheres são mortais” aplica-se tão-somente às mulheres e a todas elas, porque as marcas –a e -s do feminino e do plural se prestam a designar apenas os significados que representam, e nada mais.
Mas a esta altura deste artigo eu preciso dizer que não estou aqui tratando de Lingüística, mas sim de homens e mulheres. E, para um lingüista, nada mais previsível que partir da linguagem para tentar entender como se dão as relações entre eles, já que podemos ver a linguagem como representação de tudo o que pensamos ser, ver e conceber, em nós e nas outras pessoas.
Assim, por força do ofício, sou compelida a materializar uma realidade das relações e dos papéis de homens e mulheres revelada pelo prisma da linguagem, o que não é pouca coisa. E, nessa realidade, a marca e a ausência de marca manifestam-se de maneira absolutamente inequívoca. Um exemplo interessante é o trabalho de uma colega lexicóloga que se dispôs a levantar, através de entrevistas, os epítetos do português relacionados às mulheres, desde os mais lisonjeiros e honrosos, como “deusa”, “rainha”, “musa”, até os mais pejorativos e de calão, como “cachorra”, “baranga”, e ela chegou a mais de cem substantivos.
Por que isso acontece? As marcas para o feminino não são casuais. A mulher é uma forma marcada. As marcas lingüísticas – as desinências, os nomes, os adjetivos etc., nada mais fazem além de representar as marcas inerentes aos indivíduos, para reiterar sua condição frente a um elemento não marcado que se lhes opõe.
Um apanágio das formas marcadas é justamente a riqueza e variedade lingüística com que as tratamos. Não pesquisei, mas tenho certeza de que os gays, as lésbicas, os negros, as pessoas especiais também terão um farto léxico à disposição, se não tão farto quanto o feminino, pelo menos bem mais diversificado que aquele referente ao homem adulto branco e heterossexual, de quem a propósito pouco se discute em artigos e teses. Realmente, o homem branco e hetero nunca esteve na moda: existem o dia da mulher, do gay, do negro, da criança, do idoso, do especial, mas o homem branco e hetero nunca teve um dia para si, porque já tem todos os outros.
E ainda mais uma vez eu pergunto: por que isso acontece? Ora, o elemento marcado sempre existirá relativamente a um determinado padrão a partir do qual se define sua identidade. Assim, os negros, os gays e as mulheres se marcam relativamente aos brancos, aos heterossexuais e aos homens. Tudo é relativizado a eles, os não-marcados, e há muito tempo tem sido assim: Aristóteles uma vez definiu a mulher como o indivíduo a quem faltam algumas qualidades, justamente as encontradas nos homens.
Também há muitas teorias que buscam explicar como se deu essa construção de mundo mediante modelos e padrões não marcados. Uma muito interessante, por sinal a minha preferida, está descrita no maravilhoso prefácio de Rose Marie Muraro ao impactante Martelo das Feiticeiras (Maleus Maleficarum), tratado de bruxaria elaborado por padres inquisidores na Idade Média e publicado no Brasil na década de 90. Em seu texto, Rose Marie nos conta como as sociedades antigas baseadas em coleta e caça se distinguiam quanto aos métodos de sobrevivência, e também quanto ao pensamento relativo às esferas masculina e feminina: para os grupos de coletores e pequenos caçadores, a divisão de trabalho equivalente entre os sexos e portanto o mesmo valor simbólico para ambos; para os grupos dos grandes caçadores, a superioridade física masculina proporcionando aos homens a supremacia na hierarquia social. Entretanto, em ambas, o desconhecimento de que o homem também participava da procriação conferia às mulheres um estatuto especial, de seres sagrados, que proporcionavam e garantiam o precioso bem da vida.
A superioridade masculina é uma idéia que começa a ser concebida em regiões onde os alimentos são escassos, e a competição por territórios valoriza os homens que se destacam por seu heroísmo, força física e coragem. Mas a mulher ainda guarda certa mitificação, porque nesse tempo ainda se supunha uma origem divina para a procriação.
O advento das sociedades sedentárias, com a domesticação dos grãos e o trato da terra realizado pelos homens, acompanha-se da compreensão de que a mulher não é a única responsável pela procriação, que conta também com o sêmen masculino para acontecer. Nasce daí a concepção do deus único e macho e da sociedade patriarcal, trazendo junto a lei masculina sobrepondo-se ao mito criador feminino. Para o homem, reservaram-se os privilégios de precedência e vontade. À mulher (e, é preciso dizer, às outras formas marcadas, como as crianças, os velhos, os escravos) restou o estatuto de propriedade, primeiro do pai, depois do marido. O esforço de conservação da propriedade acarreta para a mulher a obrigação da virgindade e da fidelidade, e a instituição do domínio da imanência, nos termos de Simone de Beauvoir: a mulher circunscrita à casa e às suas atividades de manutenção das condições para que o homem, seu senhor, alcance a transcendência - a construção do mundo sem as restrições dos afazeres do lar. Com o poder de decisão pública nas mãos do homem, resta à mulher a dependência financeira e psicológica.
Dessa forma é que, para Rose Marie Muraro, a mulher, de ser criador e símbolo da vida, aparta-se da natureza e submete-se à sociedade patriarcal e seus rígidos padrões de comportamento. Padecendo do “mal-estar da civilização” idealizado por Freud, sua identidade firma-se a partir do universo masculino e do deus coercitivo e opressor, repressor do sexo e do prazer, fundador da dicotomia entre bem e mal e da natureza pecadora da mulher, surgida a partir da costela de Adão e culpada pela expulsão do paraíso. Tem, por isso, de purgar, enquanto o mundo existir, a dor de parir e reprimir seu desejo, que agora só existe a partir do desejo do homem. “O que quer a mulher?”, pergunta Sigmund Freud; ora, a mulher quer o que o homem quer. O mesmo nos diz Rose Marie Muraro: “O homem é autônomo, e a mulher é reflexa. (...) Como o pobre se vê nos olhos do rico, a mulher se vê pelo homem”.
Por isso tudo, o homem define os papéis, impõe as marcas, para que as formas marcadas reconheçam inerentemente a sua identidade e o seu lugar, e não ameacem a hegemonia masculina. Quanto mais marcas, mais as formas não marcadas estarão seguras de que tudo funcionará a seu contento. Por isso tantos epítetos para as mulheres: para que elas saibam quem são e quem não podem ser; saibam onde podem e não podem transitar. Muitas vezes uma mesma marca lingüística traz valores diferentes para um e para outro: o homem público é indivíduo respeitado; a mulher pública é meretriz.
Evidentemente, as marcas existentes para delimitar os espaços da mulher, do negro, do homossexual etc. não se limitam à linguagem, mas integram um conjunto de atitudes estéticas e artísticas, além de muitos outros comportamentos sociais que permitem às formas marcadas serem identificadas em qualquer lugar, e muitas inclusive desejam portá-las - e este é um fato que sacramenta e consolida ainda mais a sua condição de oprimidas.
A expressão lingüística das marcas, de sua vez, nos serve para muitas reflexões, entre elas a que reconhece a manutenção, mesmo no século XXI, dos mesmos preconceitos que ao longo dos séculos mantiveram as formas marcadas em situação de inferioridade, e que têm sido denunciados todo o tempo, malgrado a suposição de que estamos, homens e mulheres, menos machistas, menos racistas, menos homófobos. A representação dos preconceitos é que vai se tornando mais sutil, ou assumindo outras faces, mas eles estão lá, resistentes.
O chamado que denuncia a discriminação é sempre dos marcados, dobrados ao peso de existir como determina o homem branco, heterossexual e agora cristão, depois dos acontecimentos que demonizaram, aos olhos do ocidental comum, as culturas do Oriente Médio e da Ásia. Esse chamado nos abre os olhos para enxergarmos que o homem também é marcado, não da mesma forma que nós mulheres somos, mas pelas obrigações que ele mesmo se impõe. Marca-se o homem pela necessidade de manter, nem que seja pelas aparências, sua suposta superioridade nas condições atuais do capitalismo, em que não há mais emprego, e as condições de sustento das famílias se tornam cada vez mais difíceis. O homem se perde na indignidade das novas formas de escravidão, que o amesquinham e envergonham no espaço público, tornando-o não raro humilhado, não raro violento, no espaço privado.
Numa sociedade em que cada trabalhador é um desempregado em potencial, está cada vez mais difícil manter-se como forma não marcada, porque, entre outros fatos, as mulheres cada vez mais ganham o espaço público, assumindo na totalidade a obrigação de criar seus filhos e minimizando a importância de seus homens em suas vidas.
Dessa maneira, as novas condições entre os sexos impostas pelas expressões do capitalismo atual tornam o homem também uma vítima da repressão sexual e afetiva imposta à mulher, e transforma a oposição entre marcados e não marcados uma falácia que não resiste à realidade, fazendo com que qualquer esforço de evidenciar na linguagem alguma desigualdade entre os sexos seja apenas uma ilusão, fruto do desejo de que as coisas voltem a ser como antes.
Contudo, alguma coisa boa se pode lucrar neste tempo de desconstruções: temos testemunhado, aqui e ali, uma gradual diluição das marcas, acompanhada do trabalho inútil de sustentá-las. Há os que detestam esse movimento, e sabemos bem quem são, mas tem havido cada vez mais pessoas dispostas a apostar e contribuir para o seu sucesso. E é dessa forma otimista que observo a eleição, como melhor texto do dupli em 2005, do artigo “O dia internacional da mulher é hoje”, brilhantemente escrito por Ricardo Boessio dos Santos, num clima confessional e de reconhecimento explícito da sua condição de forma não marcada e do incômodo que isso lhe traz. É com otimismo que me congratulo com os leitores que o elegeram, prognosticando novos tempos de convivência entre mulheres e homens, quando estaremos libertos de toda marca e todo padrão, e nos guiaremos não pelas expectativas e pela linguagem de outrem, mas por nossos próprios desejos e capacidades para fazer e acontecer, existir e partilhar, amar e se dar sem medo.
A tomar pelo artigo do Ricardo, acho que já começamos.
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O Dia Internacional da Mulher é hoje - Ricardo Boessio dos Santos
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