| |
|
|
Condicionamento humano
Janos Biro - Publicado em 24.04.2006

Publicidade

Analisando várias teorias sobre a origem da civilização, me deparei com uma idéia muito interessante, porém pouco desenvolvida.
Uma das perguntas que nós nunca conseguimos responder adequadamente é: se os homens viviam bem, por que criar um modo de vida tão trabalhoso e complexo? Culpar alguma característica humana, como o ego, não é suficiente. Levaria a pensar que a civilização é necessária e inevitável. Os argumentos salvacionistas vêem na natureza do homem, e apenas nela, algo que contradiz a própria natureza, e por isso buscam salvar o homem dele mesmo. Mas talvez já possamos indicar um caminho para explicar porque alguns homens escolheram este modo de vida sem recorrer a argumentos salvacionistas, que realmente não fazem muito sentido e dependem de fundamentos tais como a existência de seres sobrenaturais.
Primeiro vamos rever o que sabemos sobre o modo de vida das primeiras comunidades humanas: eram primariamente coletores. Organizavam-se com pouca hierarquia e pouca dependência tecnológica. No lugar de leis escritas havia a cultura oral, não havia moralidade compulsória. Era bastante igualitário entre os sexos, onde cada membro é autônomo e ao mesmo tempo interdependente, não apenas em relação aos outros membros, mas em relação aos outros seres vivos também. Era ecologicamente sustentável. A cultura de cada tribo era resultado das interações específicas do grupo com meio em que eles viviam. O grupo não precisava expandir territórios. A espécie humana como um todo tinha estabilidade populacional, mantendo-se em menos que um bilhão, assim como todos os outros mamíferos grandes. E assim como as espécies que ficaram na nossa herança genética, os seres humanos se adaptaram às mudanças das condições ambientais. A grande vantagem humana (toda espécie tem a sua) é a plasticidade do aparelho cognitivo, ou seja, a capacidade de armazenar muitas informações e lidar com elas de maneira bem mais complexa. Graças a isso o ser humano pode repassar comportamentos por educação de forma bem mais eficiente, o que o levou a poder sobreviver em diferentes ambientes e situações sem que seu corpo precisasse mudar demais. Esta pode ser uma vantagem, mas também uma armadilha.
Entre as grandes mudanças ambientais, uma das mais severas é o fenômeno da glaciação. Houve muitas glaciações de diferentes escalas, sendo que a última ocorreu provavelmente há cerca de 20 mil anos. A glaciação é um fenômeno em que a temperatura média da terra se abaixa, criando um inverno planetário intenso e duradouro. Durante as glaciações os alimentos se tornaram mais escassos, e os homens tiveram que recorrer mais à caça. Outras mudanças na organização social provavelmente foram necessárias para essas situações. A caça como principal fonte de alimento exige uma organização mais hierárquica, com aumento do poder do chefe. Uma parte da autonomia natural deve ter sido sacrificada em nome da sobrevivência do grupo, principalmente na relação sexual. Aumenta também a necessidade de criar armas e engenhos melhores para a caça. Torna-se importante manter o máximo de pessoas vivas, ter quantos filhos for possível e manter uma rígida estrutura social para unir os membros, independente de sua afinidade mútua.
Leia a seguinte experiência:
“Um grupo de cientistas e pesquisadores colocou cinco macacos numa jaula. No meio, uma escada e sobre ela um cacho de bananas. Quando um macaco subia a escada para pegar as bananas, um jato de água fria era jogado nos que estavam no chão. Depois de certo tempo, quando um macaco subia a escada para pegar as bananas, os outros que estavam no chão o pegavam e enchiam de pancada. Com mais algum tempo, nenhum macaco subia mais a escada, apesar da tentação das bananas. Então substituíram um dos macacos por um novo. A primeira coisa que ele fez foi subir a escada, dela sendo retirado pelos outros que o surraram. Depois de algumas surras, o novo integrante do grupo não subia mais a escada. Um segundo substituto foi colocado na jaula e o mesmo ocorreu com este, tendo o primeiro substituto participado com entusiasmo na surra ao novato. Um terceiro foi trocado e o mesmo ocorreu. Um quarto e afinal o último dos cinco integrantes iniciais foi substituído. Os pesquisadores então tinham na jaula um grupo de cinco macacos que, mesmo nunca tendo tomado um banho frio, continuavam batendo naquele que tentasse pegar as bananas.” - (Ubiratan D’Ambrosio, Cumprir ordens, por si só, não é suficiente como código de conduta)
O que exponho agora é uma tese sobre como as glaciações podem ter condicionado alguns grupos humanos, auxiliando-os a abandonar seu comportamento autônomo e embarcar num projeto de acúmulo e expansão. Tendo criado um trauma das glaciações, eles podem ter feito uma adaptação cultural para evitar sofrimento futuro. Esta adaptação envolve um acúmulo de recursos sem precedentes, em que o desenvolvimento da agricultura e da criação de animais foi conseqüência, não causa. Também era preciso que os instintos do modo de vida anterior fossem substituídos por uma disciplina rígida de cultivo e criação de animais. Isto poderia ser feito, por exemplo, criando o mito de que as pessoas que vivem dessa forma são “avançadas” em relação às demais, ainda que a Bíblia diga que este modo de vida é um castigo de Deus. Neste novo modo de vida não poderia haver desperdício de terras ou de pessoas. Quanto mais membros e espaço, maior a produção e maior as chances de sobreviver a uma catástrofe. Para isto foram desenvolvidas técnicas de dominação, como as guerras de aniquilação e conquista, além das religiões monoteístas de conversão. Por um lado temos tecnologias que nos permitem um alto crescimento populacional, por outro temos religiões que nos mantém com medo de uma catástrofe iminente, cuja causa é nossa própria natureza, reproduzindo o trauma necessário para manter esta estrutura social.
Deve ser notado que nem todos os seres humanos embarcaram neste plano. Assim que a última glaciação se foi, quase todos os grupos humanos voltaram a ser coletores, caçadores e horticultores; ou desenvolveram formas de agricultura sustentável e não cumulativa ou expansionista. Mas pelo menos um desses grupos permaneceu no modo de vida de escassez, em que o acúmulo de comida e a organização de ocupação são mais importantes que a espontaneidade e a autonomia. Culturalmente, criaram um modo de vida que pudesse minimizar os danos de uma nova era do gelo, que jamais chegou. Assim como os macacos do experimento, continuaram fazendo o que lhes foi passado, sem saber muito bem o motivo. Os motivos para continuar tiveram que ser inventados. Tais motivos fazem parte do que eu chamo de mitologia salvacionista, que é a crença de que o homem está condenado a um modo de vida rígido e trabalhador, e que a condição humana é de desespero e angústia pela inevitabilidade da morte e do sofrimento.
Alguns estudiosos dizem que a vida em civilização foi vital para o planeta, e que o aquecimento global foi uma forma de manter a temperatura da terra mais homogênea, evitando uma nova era do gelo que já estaria em tempo de acontecer. Podemos escolher acreditar nessa idéia de evolução planejada, mas se levarmos em consideração o ordenamento não-teleológico do mundo, reconheceremos que estamos nos condicionando a uma situação que não faz mais parte da realidade, geração após geração. Iremos procurar formas de quebrar o condicionamento e resgatar o conhecimento necessário para voltar a viver de forma autônoma. Algumas formas de fazer isso foram sugeridas. Dizem que os cães de Pavlov deixaram de responder ao condicionamento em situações extremas. É mais ou menos o que leva algumas pessoas a crer que a sociedade só mudará se houver uma grande catástrofe, como uma guerra. Outras opções já citadas pela literatura libertária incluem a conscientização da massa de sua situação, mas a abrangência dessa conscientização é sempre mínima, pois o verdadeiro desejo da massa não é se livrar deste modo de vida, mas sim viver de forma melhor nele, exatamente porque ela não reconhece o que há de tão errado na visão progressista. Reconhecem apenas os efeitos que os atingem. O fato de que nenhuma resposta satisfatória tenha sido dada até agora não significa que devamos desistir de tudo.
Com isto não pretendo defender o “mito do bom selvagem”. Rousseau não sabia que os homens viveram cerca a maior parte do tempo em comunidades sustentáveis e autônomas. Se soubesse, ele não diria que o estado de guerra e o contrato social são inevitáveis. Não faz sentido dizer que o homem vivia miseravelmente, pois ele teria sido excluído pela seleção natural se assim fosse. Se os outros animais vivem na abundância, porque não os homens? Isso é outro mito: o mito da maldição humana. O que alguns chamam de “paraíso perdido” é apenas a condição necessária para sobrevivência, nenhum modo de vida insustentável duraria tanto tempo sem destruir o ambiente ou a si mesmo. A evolução mantém as espécies capazes de conviver em equilíbrio com o ecossistema. Harmonia não significa que o homem vivia como um leão vegetariano das mitologias cristãs. Os leões e tigres extinguiram muitas espécies caçando, mas não estão em desarmonia com outras espécies. Todas são igualmente interdependentes e convivem bem entre si, mesmo que uma seja predadora da outra. Nós não agimos como meros predadores.
Há claras distinções, por exemplo, entre o sentido de territorialidade dos lobos e o nosso sentido de propriedade. Os lobos, e os homens não-civilizados irão defender a terra em que nasceram porque não estão adaptados para viver em outro lugar senão aquele. Um proprietário de terras pode vender seu terreno para comprar outro duas vezes maior em outro lugar sem pensar duas vezes.
Alguns insetos são altamente sociais, possuem castas, acumulam recursos, expandem territórios, fazem guerra, devastam regiões inteiras e até mesmo escravizam os de sua própria espécie! Como eles utilizam uma pequena parte da biomassa do planeta, não comprometem o equilíbrio do ecossistema. Não são pragas naturais, nós os transformamos em pragas interferindo no meio (com plantações gigantes) e nas suas pressões seletivas (com inseticidas). Mas se eles tivessem a taxa de crescimento populacional que nós temos e ocupassem a biomassa que nós ocupamos, certamente seu modo de vida estaria destinado ao fracasso num mundo como o nosso. Por isso é provável que a civilização esteja fadada ao fracasso. Dizer o contrário, dado os fatos, é que precisaria de uma justificação mais elaborada. Dizer que a humanidade está destinada ao fracasso também não se justifica, pois não é a humanidade e sim a cultura que tem tais princípios expansivos.
Qualquer religião que acredite no progresso humano como progresso material ou na transcendência humana de seu estado natural para um estado espiritual pleno é incompatível com a visão que apresento. Não basta que os bens, materiais ou não, sejam distribuídos para todos os humanos igualmente, se ainda houver a crença na superioridade do homem e de seu mundo ideal, em contraposição com o mundo real. Os processos da natureza não são menos criativos que os processos mentais do homem. Espero que esse esboço de tese tenha levantado questões pertinentes ao tema “origem e desenvolvimento da civilização”, e que possa auxiliar no questionamento de nossos caminhos culturais e sociais.
|
|
|