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Mauro Luiz Barbosa Marques - Publicado em 04.05.2006




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1. Introdução
O presente trabalho visa relacionar de forma objetiva o contexto político internacional após a Segunda Guerra Mundial e suas conseqüência sobre o continente africano.

Será analisado como a denominada “Guerra Fria” e suas características iriam incidir fortemente nas relações colonialistas, especialmente a partir do momento em que as potências (européias) sairiam feridas deste conflito e de certa forma escanteadas no concerto do poder internacional.

As potências emergidas pós 1945, EUA e URSS, ao mesmo tempo em que criticavam o colonialismo, inseriram seus interesses no tabuleiro político dos conflitos coloniais. Estes elementos merecem forte destaque na análise histórica. Na parte final deste trabalho, será abordada a decadência colonialista em si e as conseqüências observadas nos novos Estados africanos nascidos a partir de rupturas coloniais e imersos numa verdadeira encruzilhada a partir de então. Encruzilhada na qual se inseriram e participaram ativamente.

Sem pretender esgotar o tema, as próximas páginas tentarão analisar contextos, opinar e apontar tendências para entender a realidade contemporânea do continente africano a partir dos fardos históricos que sofreu não só a partir da Guerra Fria, mas em todo contexto econômico e político da Era Moderna.

2. O cenário internacional após a 2ª Guerra Mundial
O maior conflito internacional ocorrido no século XX foi a 2ª Guerra. Dos escombros e dos cerca de 50 milhões de vidas perdidas iriam surgir duas potências que polarizariam a conjuntura internacional, levando ao ocaso antigas potências incontestáveis, especialmente no continente europeu. Os vitoriosos neste conflito, especialmente EUA e a URSS iriam dividir o mundo em áreas de influência em um sistema de “acordo conflitivo” conhecido como Guerra Fria (ou segundo Hobsbawm, “Paz Fria”) que marcaria as disputas políticas no mundo entre os anos 1945 e 1991.

2.1 As características da Guerra Fria
O período aberto após 1945, do ponto de vista do equilíbrio diplomático, se mostrou razoavelmente estável. Houve uma divisão de esferas de influências entre os países vencedores e a consolidação de blocos que apresentavam entre si, entre outras coisas, importantes diferenças na organização de sua economia e de suas sociedades a partir da dicotomia socialismo versus capitalismo.

Em geral, nas avaliações mais tradicionais se prioriza uma análise das contradições entre estes dois blocos, dos conflitos e disputas. Hobsbawm, por seu turno, tenta abordar os elementos de acordo, de colaboração e paciência entre socialistas e capitalistas. Para ele,

“(...) as duas superpotências aceitavam a divisão desigual do mundo, faziam todo esforço para resolver disputas de demarcação sem um choque aberto entre suas forças armadas que pudesse levar a uma guerra e, ao contrário da ideologia e da retórica da Guerra Fria, trabalhavam com base na suposição de que a coexistência pacífica entre elas era possível a longo prazo”.
Isso não significa minimizar as possibilidades de um choque real entre os países, algo difícil de imaginar sua concretização, mas a Guerra Fria, em suas características centrais, manteve um equilíbrio conciliatório entre URSS e EUA, evitando assim confrontos diretos.

Por outro lado, os confrontos indiretos ocorreram em várias partes do globo, destacando-se os processos de descolonização africana, abordada mais adiante. Segundo Lopez, a solução nuclear nunca foi levada a sério por ambos os lados, em que pese a corrida e os imensos investimentos neta área: “(...) soluções militares não vão além de guerras convencionais como o fizeram os americanos no Vietname ou os russos no Afeganistão”. Curiosamente, as potências conheceram derrotas nestes dois episódios citados.

Ao mesmo tempo em que soviéticos e norte americanos constituíam e ampliavam seus respectivos blocos (China seria importante reforço do bloco socialista, em que pese suas contradições com os soviéticos) a outrora poderosa Europa conheceria sua bancarrota, pelo menos momentânea.

2.2 A decadência européia
Até o início do século XX parecia impossível imaginar uma decadência dos países europeus. Autodenominados de potências, ampliavam sua influência cultural e política no mundo especialmente com o colonialismo. Na Conferência de Berlim, em 1885, bastante unidos, desenvolveram uma aventura imperialista e dividiram o mapa africano entre as 7 potências que ali detinham algum tipo de “ocupação ou mérito”.

A partilha de Berlim, seria a última centelha imperialista (em que pese muito importante) dos europeus. Estes se envolveriam a partir do século XX em conflitos mundiais que dividiriam suas forças e arrasariam suas economias e infraestruturas. Mesmo as nações vencedoras, especialmente na 2ª Guerra, seriam fortemente abaladas politicamente. Por conseqüência, o colonialismo por elas levado a cabo iria se esfumaçar.

O centro da civilização mundial, a Europa até então, passou a conviver pós 1945 com uma divisão ideológica bastante definida – parte ocidental capitalista e parte oriental comunista – e ainda necessitou dos aportes bastante bondosos dos EUA e seus planos de reconstrução, como Plano Marshall, que injetou bilhões de dólares na Europa para conter o socialismo e ter na mão, literalmente, o futuro do velho continente.

Os europeus, imersos nas tarefas de reconstrução iriam reduzir sua presença real nas áreas coloniais. Os ingleses, por exemplo, reduziriam em 50% sua participação econômica em seu próprio Império (a partir de 1950) preferindo interagir com outros parceiros numa nova lógica de conexão econômica que substituía o colonialismo.

O debilitamento do “concerto europeu” somado a outros fatores importantes como a reação organizada africana, a pressão externa dos EUA e URSS e o crescimento demográfico nos países africanos, levaria a um período intenso de rupturas coloniais a partir de 1945, em várias regiões do planeta, especialmente na África, que reagiria, 60 anos depois à colcha de retalhos fabricada na Conferência de Berlim.

3. A crise do colonialismo após 1945
As Grandes Guerras do século XX tiveram as mais variadas motivações. Especialmente as chamadas Grandes Guerras (1914-1918 e 1939-1945) mexeram fortemente no tabuleiro do poder mundial, bem como nas relações internacionais.

As tendências colonialistas não passaram ilesas aos conflitos mundiais nem às crises econômicas. Hobsbawm, já considera a crise econômica iniciada em 1929 como um dos elementos da gênese da crise colonialista afirmando que “No fim da década de 1930, a crise do colonialismo já se espalhara para outros impérios (...)”.

De qualquer forma, a Segunda Guerra Mundial viria a debilitar muito mais as antigas potências européias como “mantenedoras” das regiões africanas que viriam conquistar suas independências neste período que se abre a partir de 1945, chamado pós-guerra. Segundo Hobsbawm,

“O que prejudicou fatalmente os velhos colonialistas foi a prova de que os brancos e seus Estados podiam ser derrotados, total e vergonhosamente, e que as velhas potências se encontravam fracas demais, mesmo após uma guerra vitoriosa, para restaurar suas antigas posições.”

Contraditoriamente à sua vitória contra a Alemanha, potências como França e Inglaterra serão obrigadas a reconhecer a nova correlação de forças internacional após 1945, com a emergência de duas novas potências que iriam dividir o mundo na Guerra-Fria e determinar com força os rumos do colonialismo.

3.1 A Era das Independências
A partir do ocaso da 2ª Guerra, os europeus vão perdendo sua supremacia nos ditames políticos da geopolítica internacional. Os sacrifícios da guerra, a divisão entre eles e o dilaceramento das suas economias daria energia aos movimentos de libertação na África para radicalizar e questionar a viabilidade econômica do colonialismo no século XX. Entre os fatores da eclosão da independência das colônias africanas ainda encontramos a resistência local dos povos colonizados, as pressões externas das potências do pós-guerra e ainda a própria dúvida colonialista. Raymond Cartier, jornalista francês, estava entre aqueles que considerava “pesada demais a carga colonial, pois obrigava a metrópole a reduzir seus investimentos internos”.

As potências emergentes do pós-guerra tinham suas posições sobre isso: os EUA, ausente nas possessões africanas, tinha uma posição clara a respeito da autodeterminação dos povos a partir das idéias da Carta do Atlântico (14 de agosto de 1941) assinada também pelos ingleses. Por sua vez, a URSS se destacaria como apoiadora dos movimentos de libertação nacionais, na oposição ao “imperialismo capitalista”.

A ONU, que estava nascendo na medida da derrota alemã, se dispunha a pôr em prática um sistema internacional garantidor dos direitos humanos e da paz a partir de “meios pacíficos”. Os valores da chamada “democracia liberal” seriam hegemônicos na fundação desta entidade que teria tradição no reconhecimento de novos Estados oriundos de rupturas coloniais. Os novos Estados africanos seriam membros deste “Parlamento Mundial”, na medida que conquistavam suas independências nacionais nas décadas de 50, 60 e até meados dos anos 70.

As rupturas coloniais que não tardaram, aconteceram de duas formas básicas: a partir de lutas populares anticolonialistas ou acordos que evitavam os traumas da violência e garantiam algum tipo de vínculo com a ex-metrópole, exemplo muito visto nas colônias britânicas. Para Chaliand, a “(...) África ao sul do Saara, no essencial, exceção feita às colônias portuguesas (...), acede à independência por volta de 1960 sem disparar um tiro sequer. (...) a este processo, pode-se legitimamente empregar o termo descolonização”.

Dada a vinculação do colonialismo com o modelo capitalista de economia, os partidos e grupos com referência no socialismo tomaram o poder em várias ex-colônias africanas:

“Em várias ex-colônias, os comunistas tomaram o poder, dada a sua identificação com o anticapitalismo e, portanto, com o antiimperialismo, particularmente em países que se formaram a partir da vitória de uma insurreição popular organizada e mantida tenazmente à base da guerrilha, como na Indochina, em Moçambique e em Angola”.

Além dos exemplos citados por Lopes merece destaque o exemplo argelino de enfrentamento aos franceses, numa luta duradoura por anos que incluiu guerrilha urbana, atentados e conflitos armados. Ao mesmo tempo, Nasser no Egito comprou expressiva briga com a nacionalização do Canal de Suez.

Neste episódio, corajosamente Nasser coloca o estratégico canal sob controle do Estado egípcio em 1956. A ameaça francesa e inglesa logo chegaria e a ONU, os EUA e a URSS, cada um há seu tempo reverteram a intervenção anglo-francesa que estava por ocorrer. A partir de então, ficou claro para todos a nova relação geopolítica internacional pós-guerra.

Ainda sobre o papel da URSS, cabe ressaltar que embora com uma posição anticolonialista e antiimperialista, nem sempre apoiou incondicionalmente as independências africanas. No caso português, por exemplo, os soviéticos temiam a imaturidade das condições políticas e sociais das possessões lusas e que estas poderiam se aliar a outra potência capitalista, (os EUA) ou mesmo a própria China, que manteve suas relações com movimentos nacionalistas africanos a partir do regime de Mao.

Em síntese, a conjuntura pós-guerra (podemos localizar entre 1945-1975) foi um período de decadência do colonialismo, de emergência do chamado Terceiro Mundo (Conferência de Bandung - 1955), com uma postura independente e anticolonial, de decadência européia e de supremacia de um mundo bipolar com pouco espaço para o velho estilo colonialista, substituído por relações internacionais econômicas, políticas e culturais.

3.2 Conseqüências da Guerra Fria no continente Africano
O continente africano foi durante o período das rupturas coloniais um cenário privilegiado dos conflitos indiretos da Guerra Fria. Como já observamos anteriormente tanto a URSS como os EUA por motivos diferentes apoiavam o afastamento dos países africanos de seus colonizadores europeus.

Do ponto de vista do método, em geral, as independências coordenadas pelos EUA tiveram um perfil mais “pacífico”, sem o uso direto de armas e no caso da URSS, as rupturas foram mais traumáticas, mais violentas. Muitas vezes, os conflitos se davam em fronteiras que detinham ideologias opostas, como Senegal e Guiné, por exemplo.

Ainda houve traumas internos com disputas violentíssimas entre guerrilhas, como se destaca o exemplo de Angola, com grupos armados pelos dois blocos da Guerra-Fria. Neste período, o sentimento internacionalista do socialismo esteve presente, quando tropas cubanas agiram em Angola e tivemos a presença de Che Guevara na região do antigo Congo.

A formação do chamado “Terceiro Mundo” em Bandung somado a episódios importantes para a África como a nacionalização do Canal de Suez e a posição de Nasser estiveram também marcadas pelo signo da Guerra Fria, pois setores, mesmo chamados de “não alinhados”, simpatizavam com o socialismo, nem sempre com o perfil “soviético’.

Neste sentido, a formação da OUA (Organização das Nações Africanas) e as lutas internas desta entidade também foram influenciadas pelas posições e disputas entre socialistas e capitalistas, algo natural num mundo politicamente bipolarizado, com pouco espaço para uma espécie de “terceira vertente”. Com isso, soviéticos e norte americanos acabavam tirando vantagens e algum proveito das contradições internas entre africanos.

As potências também se tornaram espécie de modelo para os Estados recém libertados pós 1960. Segundo Iliffe:

“O nacionalismo visava imitar os estados-nação mais modernos: não os governos minimalistas das sociedades agrícolas mas os planos de desenvolvimento e os mecanismos de controlo burocrático do mundo industrializado (em especial do socialista).”

Esta compreensível ambição dos novos países libertados não se concretizou por vários limites históricos, políticos e econômicos do continente africano esgotado e arrasado por séculos de exploração capitalista.

Além disso, o chamado neocolonialismo foi um fenômeno observado a partir das independências e no contexto de Guerra Fria. Segundo Lopez, o neocolonialismo seria um “colonialismo residual, escamoteado, oculto atrás das aparências da autonomia política”.

Politicamente independentes, mas com economias limitadas, os Estados africanos sofreram as chamadas “ajudas para o desenvolvimento” dos países centrais, denunciadas por figuras exponenciais como Krumah. Estas ajudas não resolveram problemas estruturais, mas eram paliativos para se manter elos de dependência em especial nas regiões mais frágeis do continente.

Nos países africanos mais desenvolvidos economicamente, foram mantidos laços com antigas metrópoles em comunidades econômicas “de colaboração”. O longo martírio colonial e suas conseqüências ainda são sentidas no continente, especialmente nos aspectos estruturais e na limitação tecnológica, mesmo após décadas de independência política. Neste mesmo período, nações se ergueram dos escombros da guerra (Japão, Alemanha, Inglaterra, entre outros) e ao compararmos com o continente africano, este está bastante distanciado desta recuperação, independente do lado que tenha optado durante o período de Guerra Fria.

Somente uma forte reparação histórica pode reverter este quadro, o que não termina com o perdão de dívidas externas que também algemaram o continente tão rico e tão espoliado desde o século XV pelos europeus.

4. Considerações Finais
O continente africano não poderia deixar de sofrer conseqüências e participar do maior conflito em toda a história da humanidade e suas conseqüências.

O clima democrático-liberal instalado no mundo após a queda do nazifascismo abriu uma era de declínio na velha concepção colonialista de intervenção direta e de novos métodos das potências para as relações econômicas e políticas internacionais.

Com a queda do colonialismo foi passado o “bastão histórico” para as mãos dos próprios africanos, após décadas de domínio direto europeu. Em geral, a opção mais observada foi manter e almejar estruturas políticas e sociais semelhantes aos dos países “mais adiantados”.

Neste sentido, especialmente EUA e URSS eram referências para os dirigentes africanos, a maioria destes formados nas academias européias. A Guerra Fria, inaugurada após os acordos de Yalta e Potsdam, acabaria temperando todo o decurso africano a partir daí, incidindo nos novos Estado e em entidades unitárias como a OUA, por exemplo.

Parece inegável que a inserção africana neste contexto, se por um lado ajudou a libertar o continente do jogo colonialista, por outro, não deu uma resposta ao subdesenvolvimento e ao atraso tecnológico fruto da exploração histórica e problema crucial em várias regiões do continente.

É importante considerar que a bipolarização presente neste período (1945-1991) era praticamente irresistível, mesmo para aqueles chamados “não alinhados”, para quem respingava o jogo de contradições globais. Também irresistível foi o neocolonialismo, iniciativa especialmente capitalista que assolou os novos países com relações internacionais nem sempre favoráveis.

A opção africana de manter as fronteiras construídas pelos europeus na Conferência de Berlim, o papel por vezes interesseiro de EUA e URSS no pós-guerra e mesmo as práticas das elites africanas somadas ao histórico sugamento das reservas do continente são elementos que ajudam a entender a realidade contemporânea do continente.

Uma possível reversão do quadro africano se encontra na construção de uma outra lógica societal, que supere os limites econômicos do mercado e das fronteiras nacionais. A colaboração solidária ente os africanos e mesmo entre aqueles que sofreram uma carga histórica semelhante pode ser um caminho de recuperação autônoma das possibilidades econômicas e sociais de um continente berço da civilização e da humanidade, que teve suas riquezas vilipendiadas pelo sistema político europeu até 1945 e depois pelo neocolonialismo presente em suas variadas formas mesmo até nossos dias.

Referências bibliográficas
• CHALIAND, Gerard. A Luta pela África: São Paulo: Brasiliense, 1982.
• FERRO, Marc. História das Colonizações. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
• HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
• ILIFFE, John. Os africanos: história de um continente. Lisboa: Editora Terra Mar, 1995.
•LOPEZ, Luiz Roberto. História do Século XX: Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987.

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