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Fernanda Müller e Marcio Markendorf - Publicado em 21.08.2006




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Bruxas, lobisomens e vampiros parecem ter ficado encerrados definitivamente na Idade Média. O Romantismo ainda favoreceu a última grande aparição de temas voltados para o universo de seres fantásticos, explorando-os sistematicamente até o seu limite, quando então começam a declinar, em virtude das próprias transformações ocorridas no mundo. Ora, as fantasias do homem estão diretamente ligadas ao mundo no qual ele vive, por isso não é de se estranhar que, com o impacto causado pela tecnologia, ciência e globalização, o imaginário de hoje seja outro.

As antigas histórias de seres fantásticos eram alimentadas pelo isolamento e pela conseqüente falta de comunicação, o que dificultava a compreensão de certos eventos de forma racional. Essa sensação de vulnerabilidade era responsável então por uma espécie de fetichismo mágico que acreditavam dar conta desses fenômenos. Sobretudo, antes do surgimento das cidades, entre um povoado e outro, podemos dizer que havia uma cartografia do imaginário que pontuava a existência de seres e de lugares misteriosos, em geral malignos. O impressionismo e a imaginação tornavam-se assim as marcas dos relatos daqueles que percorriam esses territórios de ninguém, onde tudo poderia acontecer e onde o medo, seja do escuro, do exótico, do desconhecido, enfim, do inexplicável ou do invisível, eram a fonte de inspiração.

Aliado a todos esses aspectos, podemos falar ainda na existência de uma ciência em estado latente, cujas possibilidades de elucidação do mundo e cujos limites éticos, teóricos e materiais eram insuficientes. Essa própria falta de limites, talvez fosse o elemento mais aterrorizante para sua época, visto que, quando não se equiparava à lógica do pensamento, o imaginário fantástico era tido como superior. Basta pensarmos em sereias e outros monstros marinhos, dragões, ciclopes e gigantes, para constatarmos como foi criado todo um folclore a partir da ausência: seja da razão, seja da comunicação.

Com o passar dos séculos, a humanidade avançou em todos os campos do conhecimento, mas podemos apontar como ponto mais importante na derrocada daquele imaginário, o Século das Luzes e seu império da razão. Queremos dizer com isso que o antigo imaginário não desapareceu, mas houve uma migração para outras possibilidades, mais adequadas e prováveis para a época.

Como cada período possui um imaginário próprio, hoje parece piada falar em seres que se transformam nas noites de lua cheia, de mortos-vivos sugadores de sangue, de velhas que praticam a magia usando capuzes, varinhas mágicas e caldeirões fumegantes. Quando muito podemos ver uma versão intermediária disso tudo, ou melhor, mais atualizada. Basta dar uma espiada em filmes do tipo Van Helsing (2004), ou Um lobisomem americano em Paris (1997), nos quais os mitos ficam mesclados com a ciência e a tecnocracia. Em outros casos, parece que o próprio imaginário se dá conta de que pertence a um outro lugar. Assim, mesmo que o aprendiz de bruxo Harry Potter viva em uma cidade comum e em um tempo idem, ele precisa atravessar um tipo de portal dimensional para encontrar o mundo da magia. Metáfora bem apropriada para um imaginário que não tem mais lugar em nossa sociedade e em nosso tempo onde (quase) todo o mistério é revelado.

Diante da globalização das fronteiras do mundo, da potencialização da ciência - sobretudo da engenharia genética e computacional -, do império da informação e da violência desenfreada e cotidiana nos centros urbanos, qual seria o novo imaginário? Se antes a falta da ciência provocava a imaginação, agora é o excesso de descobertas e de possibilidades que norteia as mentes e histórias mais fantásticas.

Enfatizando o desenvolvimento desenfreado de descobertas e cenários do mundo contemporâneo, podemos perceber a ascensão de um imaginário distópico, voltado para o descontrole e para a radicalização daquelas experiências que nos pareciam tão familiares. Caminhando no sentido oposto ao da utopia, nos atemos a um imaginário que se projeta para o tempo futuro e não para o presente ou o passado como faziam as antigas mitologias.

Seguindo essa perspectiva, não é difícil acenar para filmes que retratam a preocupação com o devir. Minority Report - A nova lei (2002), Código 46 (2003) e a trilogia de Matrix (Matrix, 1999; Matrix Reloaded, 2003; Matrix Revolutions, 2003), por exemplo, utilizam uma fórmula de ficção científica já empregada na literatura tanto por Aldous Huxley, em Admirável Mundo Novo (1931), quanto por George Orwell, em 1984 (1948), ambas marcadas pela massificação e perda da subjetividade. Apocalípticos do mundo tecnológico, teóricos como Jean Baudrillard e Michel Foucault apontam, respectivamente, para as conseqüências da clonagem em massa de pessoas e da cultura, e assinalam para uma nova ordem social baseada na vigilância e na punição. Enquanto a distopia não se concretiza na forma de uma vigilância que tolhe a privacidade, esse imaginário se torna uma fetichizada superexposição da intimidade, levada ao ar em programas do tipo reality show, ou em filmes como Invasão de privacidade (1993) e O show de Truman (1998).

Se por um lado, fetiche está relacionado com prazer, é preciso também observar o lado desprazeroso e aterrorizante do imaginário do qual estamos tratando. Diferentemente dos tempos antigos, agora o imaginário é urbano, de modo que os terrores estão relacionados com toda ordem de violência - sexual, social, física, política. O cinema constantemente oferece essa tônica em películas como O quarto do Pânico (2002) e Irreversível (2002) onde dá mostras do medo de assaltos e seqüestros, claustrofobia e confinamento familiar que pairam sobre o cidadão de hoje.

No âmbito da engenharia genética, o desenvolvimento de pesquisas que esbarraram nos limites éticos e religiosos do ser humano, revela o horror da clonagem de pessoas. O medo é o da substituição, da perda da individualidade e da produção em série de homens, reduzidos a meros objetos de consumo. Aliado a isso, existe o fantasma do que ou de quem habita esse ser clonado, quer dizer, de qual tipo de alma ele seria dotado, como discutido no filme O clone (2004) e Gattaca - A experiência genética (1997). Se a genética pode dar origem a seres idênticos, ela poderia ainda responder por alterações genéticas induzidas ou fora de controle. Frankensteins de uma sociedade fundamentada na biologia, os mutantes invadem as histórias em quadrinho na pele de figuras como Homem-aranha e Hulk, organizando-se até em associações como a dos X-Men.

Ciborgues e andróides como os de Blade Runner - O caçador de andróides (1982) e máquinas com inteligência artificial como as de A.I. - Inteligência artificial (2001) somam-se a essa lista. A essa ordem de seres que não seriam humanos, podemos incluir também os alienígenas, cuja presença é materializada no suspense de Sinais (2002), na inocência de E.T. (1982) ou no lado facínora de Alien – O oitavo passageiro (1979). Nascidos no espaço, mas rumando a Terra, essas personagens passaram também a habitar o imaginário das pessoas, ora num contato que simboliza a comunhão com o cosmos, ora como ameaça destrutiva vinda do além.

Além de óvnis, o céu parece nos reservar outros perigos e mistérios que rondam a imaginação. Asteróides que despencam sobre a terra e importantes alterações climáticas que alteram o funcionamento do planeta dão forma ao medo de catástrofes naturais. Principalmente quando as notícias sobre tragédias têm hoje vasta amplitude e novos efeitos como os resultantes do superaquecimento dão origem a fenômenos pouco reportados no passado. Os filmes-catástrofe, em voga na década de 70, são revisitados na década de 90 representando o medo da impossibilidade de sobrevivência na terra. Tornam-se assim o mote de idéias de fim moralizante em que atitudes politicamente corretas com o meio ambiente evitariam a destruição da vida em O dia depois de amanhã (2004) ou poderiam prevê-las, tal qual em Twister (1996) ou Volcano - A fúria (1997).

Enfim, exemplos para as transformações do sentido e do sentimento do imaginário é o que não falta. O que podemos dizer com certeza através desses apontamentos é que a imaginação não pode se expressar de outra forma a não ser em sincronia com seu tempo. No mundo contemporâneo, seres de natureza fantástica foram praticamente excluídos do pensamento em prol de outros, que habitam um mundo cada vez mais urbano, científico, tecnológico e sitiado. Não é difícil notar que talvez seja o medo o maior responsável pela personificação que o homem faz, real ou imaginária, daquilo que provoca angústia e temor. O que nos dias de hoje significa dizer que a lógica da mágica foi substituída pela lógica da máquina. Antigas lendas e contos de fadas viraram artefato de museu, tornaram-se ultrapassados. Talvez o maior medo do homem seja este: ser substituído por tudo aquilo que ele próprio criou. Ataque de clones, império das máquinas.