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Eu sou teu filho amado
Claudemar Alves de Oliveira - Publicado em 04.09.2006
Longe de casa há mais de 15 semanas. Ainda ouço o retinir das panelas. Ele está procurando o bule; a mãe acorda reclamando que ainda é de madrugada; Ele prepara a comida das galinhas e do cachorro que ficam na roça a alguns minutos de casa. Seguindo minhas recordações, escuto os gritos de Biel na varanda, que após recebe os mimos Dele, vem ate meu quarto dizer: “Acorda titio, fafado” (sic). Assim começaria o dia no meu lar doce lar.
Falar Dele ou para Ele sempre foi muito difícil pra mim. E que ainda não aprendi a expressar verbal ou através de gestos meus sentimentos às pessoas que realmente amo, como é o seu caso meu PAI Ademar. Lembro-me aqui a primeira vez que fiz isso. Missa em ação de graças pela minha aprovação no vestibular; ele, que apesar de ser um homem temente a Deus, não é muito de igreja estava sentado na primeira fila. O sacerdote pede a mim que dê uma palavrinha. O que fiz? Um show de lagrimas que enxuguei nos ombros do meu Pai. Naquele dia observei que Ele ficou sem palavras, a garganta deveria estar seca. Apenas deu-me um abraço de lado e disse algo que agora não me recordo bem, pois não ouvi direito. Imagino que tenha sido “Eu também te amo meu filho”.
Sei que não tenho sido um bom filho quando o assunto é relacionamento. Meu pai é um homem amoroso prova disso são os sobrinhos, todos o amam; Biel, o neto, não sai do colo de Pai nem por decreto papal. Então o problema está em mim. Outro dia, mãe falou-me que Ele achava que eu não o amava. Toda vez que essa frase vem aos meus ouvidos, sinto-me dilacerar por dentro. Dói muito saber que ainda não consegui externar o meu amor a meu pai. Mas amo do meu jeito, procurando ser um bom cidadão na sociedade, não que isso seja desculpa para não declarar diariamente meu amor por Ele. Sou um filho que tem buscado dar orgulho ao meu PAI. Ele nunca recebeu reclamações sobre meu comportamento quer seja na escola quer seja na rua. Isso no interior é muito valorizado. “Conhece-se a árvore pelos frutos que ele dá” já me dizia alguém.
Mesmo sendo rude no trato com Pai, ele é a minha inspiração de vida. Poucos sabem, talvez nem ele, o quanto doeu em mim ter deixado o meu lar. Guardo na memória todos os olhares tristes do meu Pai quando ia assistir à minha saída para Juazeiro. Era como se dissesse pra mim “Eu estarei sempre do teu lado meu Neguin”.
Tenho muito orgulho Seu Ademar de ser teu filho amado, fruto de tuas entranhas, gerado por ti. Eu nunca me envergonhei do nome que me deste, de ser a concepção do amor entre o senhor e minha mãe. Recordo-me das vezes, quando eu era criança, que via a mãe e o senhor discutindo e o senhor dizia que se fosse embora levaria apenas seu filho Claudemar. Ficava muito triste por vê-los brigando e não entendi bem o fato de levar a mim e deixar minhas duas irmãs, Gal e Tena, para a mãe criá-las sozinha.
Quanta alegria inunda meu coração toda vez que lembro dos momentos difíceis que passamos em casa e mesmo assim nunca nos faltou o teu amor e jamais dormimos com fome minha mãe, minhas irmãs e eu. Um desses momentos foi a humilhação perante o promotor quando dois vereadores tentaram forjar a assinatura do senhor e fazê-lo passar por mentiroso para incriminar o prefeito que o senhor apoiava. Recentemente o vi muito abatido com o problema de saúde que a mãe passou. Foi o maior susto que já tomei na minha vida e acho que ele também sentiu isso. Explico pra ti meu leitor: minha mãe ficou muito depressiva depois que perdemos uma amiga.
Não posso esquecer de relatar também o período que vive em Irecê – para fazer cursinho - quando fui morar com uma tia que nunca tinha visto e toda segunda-feira meu Pai levava a minha feirinha e quando dava tirava R$ 5 do bolso para eu “tomar algum lanche” na semana, via nos olhos dele o desejo de querer fazer mais por mim e não poder.
Hoje estou na universidade. As coisas melhoraram. Consigo me manter em Juazeiro sem o auxilio financeiro dos meus pais. Mãe conta que meu pai não se conteve ao saber que o filho dele fora selecionado para estagiar numa emissora de televisão e que conquistara o respeito e admiração de muita gente.
É isso mesmo meu Pai. Tudo isso porque meu desejo é vê-lo orgulhoso de mim e cumprir a promessa que fiz a mãe de lutar por uma vida digna para ela e o senhor...
(não pude conter as lágrimas)
E tenha certeza meu Pai que o seu filho amado será um grande homem e quando pronunciarem meu nome, lá estará também o teu Ademar (ClauDemar) porque somos a metade de uma mesma alma (com a qual escrevo este texto). Amo-te com eterno amor meu Pai e as palavras não tem força para expressarem esse sentimento por isso meu jeitão esquisito de amar. Muito obrigado seu Ademar por ser meu farol sempre que meu barco se perder em alto mar.
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