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Resenha do filme Passageiro: Profissão Repórter - Da impossibilidade de ser livre Cena do dvd do filme Passageiro: Profissão Repórter de Michelangelo Antonioni - 1975 Resenha do filme Passageiro: Profissão Repórter - Da impossibilidade de ser livre Cena do dvd do filme Passageiro: Profissão Repórter de Michelangelo Antonioni - 1975 Resenha do filme Passageiro: Profissão Repórter - Da impossibilidade de ser livre Cena do dvd do filme Passageiro: Profissão Repórter de Michelangelo Antonioni - 1975 Resenha do filme Passageiro: Profissão Repórter - Da impossibilidade de ser livre Cena do dvd do filme Passageiro: Profissão Repórter de Michelangelo Antonioni - 1975 Resenha do filme Passageiro: Profissão Repórter - Da impossibilidade de ser livre Cena do dvd do filme Passageiro: Profissão Repórter de Michelangelo Antonioni - 1975 Resenha do filme Passageiro: Profissão Repórter - Da impossibilidade de ser livre Cena do dvd do filme Passageiro: Profissão Repórter de Michelangelo Antonioni - 1975 Resenha do filme Passageiro: Profissão Repórter - Da impossibilidade de ser livre Cena do dvd do filme Passageiro: Profissão Repórter de Michelangelo Antonioni - 1975  



Resenha do filme Passageiro: Profissão Repórter
Vitor Guerra e Caroline Rodrigues - Publicado em 23.08.2006




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Relançado recentemente no Brasil em DVD, Passageiro: Profissão Repórter, filme de Michelangelo Antonioni de 1975 traz um amadurecimento no repensar da liberdade, sem as investidas rebeldes, inconseqüentes e “a qualquer custo”, já filmadas pelo cinema clássico. Mas de caráter existencial, como eterno ideal humano. David Locke, vivido por Jack Nicholson é um repórter que se encontra na África com o objetivo de cobrir um conflito. Lá, em meio ao deserto, encontra o também inglês Robertson, traficante de armas que é morto sem explicação. Trocar passaportes, viver uma nova vida. Nesta, conhece a personagem de Maria Schneider, futura arquiteta que acompanha Nicholson nos novos rumos de sua vida. Nesse ponto, o filme é tão explicativo quanto este parágrafo. Nada é explicitado, interpretações mil são possíveis, como toda obra de arte que encerra em si um universo de verdade.

Robertson fala do “efeito do deserto”, o que acaba se tornando o maior convite imperativo que Antonioni faz ao espectador. Temos o tal efeito em todos os níveis de linguagem. Um som perene, suave. Uma decupagem lenta que foge de clímax narrativo. Uma arte em tons pastel, no figurino, carros, locações (Gaudi é mais conhecido por seus prédios de pastilhas poli cromáticas, e no filme é escolhida a Casa Milá, ou A pedreira, obviamente em tons de pedra). Uma fotografia lavada, iluminação pálida, quadros areia. Todo um filme construído para envolver o espectador numa atmosfera de abstrações, tornando quem assiste uma própria metonímia poeirenta do lugar onde se passam elas. E o que Maria Schneider vê da janela do quarto de hotel na última seqüência do filme se resume à poeira, muita poeira. Poeira que está em quadro, na sala de projeção, nos feixes de sol; matéria presente em cada matéria, em cada ausência de matéria, e presente na composição da essência da liberdade.

África, continente mito, flutuante na inexistência, continente onde sua identidade foi arrancada à força, nem por isso livre, talvez por isso não livre. Antonioni foge do que é feito usualmente em termos de retrato da África, a exoticidade perde espaço, o primitivismo saudosista do homem europeu fica de lado, e o que nos sobra? A falta de comunicabilidade que deriva do nada de compreensão entre África e mundo. Locke não sabe, não compreende e é impossibilitado culturalmente em compreender o que é a África; Antonioni nos dá leves esboçadas desse paradoxo continental, nos faz enxergar a ponta do iceberg, não sem mostrar que o iceberg inteiro está ali. “Nem o latino comunica sua verdadeira miséria ao homem civilizado nem o homem civilizado compreende verdadeiramente a miséria do latino”. Assim diz Glauber sobre nós, assim nos mostra Antonioni na questão africana, um tanto mais densa que a latina.

É tão fácil criar verdades em um não-lugar como este, e fazê-las ecoar pelo mundo. Um homem que observa um conflito, e um homem diretamente intromissor neste conflito. De ambos surge um novo homem sem nome a buscar ser também um homem sem espaço e sem tempo, um passageiro que viaja sem essas condições, até o limite do desapego deste tripé da identidade. Nome, espaço e tempo constituem para ele o maior obstáculo para o ser livre, cujas três variáveis devem possuir valor nulo.

E o que faz uma arquiteta no deserto? A tarefa de harmonizar e confortar, porém sem mudar a essência do objetivo final determinada por um terceiro, é missão destinada aos arquitetos. Também é o papel desempenhado por Maria Schneider, harmonizar o deserto de Jack Nicholson, sem dar rumos, decisão essa que só cabe a ele. Confortar e dar forma a esse objetivo final: a liberdade plena.

Na cidade olha-se para fora, para ela; e olha-se para dentro da construção em que vivemos. No deserto não é simples ou concreta a noção de dentro e fora. Assim sendo, para onde olhar? Neste ponto, o ato de olhar coincide com o ato de liberdade: na cidade olhamos o que nos cerca, no deserto o não-cerco nos incita ao olhar, ao “liberdadear” (curiosamente não existe verbo para definir a ação de praticar liberdade).

O deserto como marco zero, e a arquitetura como agente construtor apontam para questões que nos rodeiam há 4000 anos ou do surgimento da arte. Trata-se da liberdade inexistente enquanto completa, um lugar onde jamais estaremos. O a-lugar atemporal. O deserto de Antonioni em qualquer lugar da África é o início, criação dessa ânsia de liberdade que prorrogará como projeto inacabado durante todo o filme: só a encontraremos, só almejaremos quando a buscarmos no nosso deserto intra-pessoal, nosso mais íntimo self onde não existem amarras materiais (dificuldade nula de Locke em trocar passaportes passando-se pelo morto no deserto, mas que começa a ganhar desconfiança na Europa ao materializar sua vontade de “liberdadear”, seu passado ainda é presente, com sua esposa e problemas de negócios inacabados, tanto na nova quanto na antiga vida). O micro que é macro. A metonímia narrativa e existencial. O arquiteto que visiona o todo da construção para o bem do espaço micro. Maria Schneider amparada por Gaudí dialoga, conduz o passageiro Nicholson, único agente construtor desse deserto: cada deserto cada pessoa (perante a presença do estranho visitante, Paolo também atingirá o seu, em Teorema, filme de Pasolini).

É impossível não mencionar o antepenúltimo plano do filme: um plano seqüência que atua como sofisticada metonímia de todo o longa-metragem. Uma câmera lenta se aproxima de uma grade, a vida acontece no deserto por detrás dela, e antes dela também, no quarto de hotel em que o homem está deitado. O áudio une esses dois mundos: ouvimos os passos lá fora, a cantoria, o barulho de porta do lado de dentro. A câmera avança quase imperceptivelmente até ultrapassar a grade. Circula pela rua, passa por algumas pessoas, faz o contorno e se posiciona em frente à grade mais uma vez, focalizando o quarto com o homem agora morto. Sua liberdade está morta. Observa o seu próprio deserto de outrora separado por grades. Porém, no atravessar da grade pela câmera, observa-se a vida, um elo sonoro entre o quarto e rua, uma das poucas ligações que ainda nos torna humanos: o desejo da liberdade, que não o detém mais Locke, passado agora adiante.

Como é triste a efemeridade da liberdade de um só dia. A ânsia, a fuga, o descontrole, o retorno. Vontade de ser livre na falta de qualquer identidade, nem que fosse por um dia. Mas o que fazer com essa liberdade repentina se nunca fomos livres? Não há verbo, não há ação, não há hábito. Mas há um círculo que não se fecha, que se prolonga para um espiral, que prossegue dando essas tentativas para muitas pessoas. Assim como as crianças que brincam na rua, livres de grades, Maria Shneider terá o seu dia. Deixará para trás a arquitetura, a riqueza, preciosismo neo-gótico, o micro-universo de contradições de Gaudi, para ser uma arquiteta no seu próprio deserto. Acima de tudo, Antonioni avança no “fazer cinema moderno” atravancando a nova relação cinema/espectador. ”O fim último do cinema moderno não é o cinema, mas o espectador”. Assim disse Rogério Sganzerla, que com O bandido da luz vermelha de 1968, assim como este O passageiro, rompe as fronteiras habituais entre verdade e mentira. Ficção e documentário. Ditadura Africana ou Europa civilizada, verdade e mentira. Documentário e ficção. Um cinema que nos incita e nos encoraja a descobrir nossa alma, através desse espelho de reconhecimento imediato, que é feito de sais de prata.

Ficha do filme "Passageiro: Profissão Repórter"
Título original: The Passenger (inglês) / Professione: reporter / Profession: reporter (francês) / Reportero, El (castelhano)
País: Itália / França / EUA / Espanha
Ano: 2006
Idioma: inglês
Diretor: Michelangelo Antonioni
Roteiro: Michelangelo Antonioni e Mark Peploe
Gênero: Drama
Elenco: Jack Nicholson - David Locke | Maria Schneider | Jenny Runacre - Rachel Locke | Ian Hendry - Martin Knight | | Steven Berkoff - Stephen | Ambroise Bia - Achebe | José María Caffarel | James Campbell | | Manfred Spies | Jean-Baptiste Tiemele | Ángel del Pozo| Charles Mulvehill | Entre outros.