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Governantes pela metade
Jaime Leitão - Publicado em 19.09.2006

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Cheguei a uma conclusão que talvez não seja tão original assim: os presidentes, no Brasil, incluindo o atual, governam só para uma parcela da população, o que é incompreensível porque todas as classes sociais compõem um país, e não se pode excluir nenhuma delas das decisões de governo, sob pena de se governar de forma fragmentada e injusta.
Collor foi eleito com um discurso populista da pior qualidade, assumiu a condição de caçador de marajás e acabou caçando os pequenos poupadores, que tiveram o dinheiro confiscado da forma mais autoritária possível. Dizia governar para o povo, mas agia de maneira contrária. Na verdade, governou com muita corrupção, para uma elite que sempre foi beneficiada. Via o Brasil injusto de sempre e focava nele, esquecendo a miséria, como se ela estivesse em um país à parte, em outra geografia, que ele preferia ignorar.
Com FHC, não mudou muito. Ele favoreceu ilusoriamente a classe média, com aquele câmbio artificial, de um real por um dólar, que no final explodiu, criou programas assistencialistas, e manteve os pobres tão pobres quanto antes, dando força para os bancos e para empresas que participaram das macabras privatizações, que ainda não foram investigadas como deveriam. De novo, um presidente pela metade, para a elite e distribuindo migalhas para os miseráveis.
Entra Lula no poder, e quando se espera dele uma visão totalizante, abrangente, mais uma vez vem à tona uma visão distorcida e fragmentada. No discurso e nos comícios, Lula se autodenominou o presidente do povo e dos pobres. No horário político, Mercadante, candidato a governador pelo PT, reitera o discurso de Lula, dizendo que o presidente governa para os pobres. Essa redução é insuportável. Primeiro porque um país não tem uma classe só e, outra, essa afirmação é muito mais eleitoreira do que verossímil.
A política econômica de Lula segue a de FHC, favorece as elites, os banqueiros, que nunca lucraram tanto, e deixa para os pobres um programa Bolsa-Família recauchutado de FHC, mas não mexe na estrutura da saúde, não melhora o atendimento na Previdência e a qualidade do ensino. Exibe números, não conteúdo. O fílósofo Benedito Nunes tem razão quando afirma que nossos governantes não se empenham em governar de fato.
Quando teremos um presidente que melhore as condições de vida da população carente de verdade, sem assistencialismo que só adia a solução do problema? Um presidente deve governar para todos, favorecendo mais quem precisa mais, mas sem esquecer do conjunto do país, da infra-estrutura das estradas, da sociedade como um todo.
Essa de cortar o Brasil ao meio para governar não tem sentido nenhum e só provoca distorções.
Sem projetos consistentes, o Brasil será governado por espasmos, longe do bom senso.
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