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Antídoto ao instinto consumista?
Ramana Jacques - Publicado em 28.07.2006




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Estou a duas semanas em São Raimundo Nonato, município situado no interior do Piauí. É impressionante como o fato de estar longe de um grande centro consumidor, evidencia o quanto nós estamos condicionados a consumir. Sim, porque aqui estou afastado de principais dos instrumentos de construção do inconsciente consumista.

A televisão, que nos bombardeia e massifica a infinita variedade de produtos ávidos a serem consumidos, é algo que praticamente não faz parte do meu dia-a-dia (a não ser um jornal ou um futebol de vez em quando, porque ninguém é de ferro).

As ruas dos principais centros urbanos do Rio de Janeiro, que mais parecem ilhas cercadas de lojas por todos os lados, assim como os shopping centers, que tornam o ato de consumir mais tangível, e que agem como forças de atração, tais como buracos negros, sugando consumidores (não mais cidadão), muitas vezes pelo simples prazer de consumir, aqui praticamente inexiste, pelo menos se comparado com a magnitude das grandes cidades.

A internet, que te dá a possibilidade e a facilidade incrível de consumir sem dar um só passo, sem trocar uma só palavra com o vendedor, precisando apenas de um teclar de “enter” para resolver a questão, facilidade esta que vem fazendo crescer o número de consumidores virtuais compulsivos, pois bem, meu acesso à internet se dá somente via cybers, me servindo apenas para rápidas e práticas execuções. Portanto, mais uma tentação que está fora do meu alcance.

Estou eu, no longínquo, agradabilíssimo (apesar da seca que assola a região) e amistoso São Raimundo Nonato, sem televisão, sem lojas por todas as partes e sem internet, e devo dizer. Longe da máquina industrial do consumo, consumir pouco me faz falta.

Não que em São Raimundo as pessoas não assistam televisão, não acessem internet e não vão às lojas existentes. Pelo contrário, elas possuem tudo isso e sentem também prazer em consumir (talvez não tanto quanto um típico urbanóide). Apenas que eu, vindo de uma cidade como o Rio de Janeiro, onde a todo o momento estamos sendo levados a consumir algo, ao ser confrontado com uma realidade onde o consumo não é tão imperativo, simplesmente me rendo a esta nova situação.

Aldous Huxley escreveu que o homem ideal dos filósofos livres, místicos e fundadores de religiões é o homem desapegado. Desapegado dos desejos e das sensações próprios do corpo, do poder e das posses, isento de cólera e ódio, de amores exclusivos, de fortuna, fama e posição social.

Aqui, posso dizer que minimamente farejo pelo menos o desapego às posses, no sentido consumista do termo. Resta saber por quanto tempo continuarei farejando quando retornar a babilônia.