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Wolf Borges - Publicado em 16.08.2006




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A afirmação acima aparece estampada nos classificados de bares da “Vejinha” São Paulo (Encarte da revista Veja nos estados), indicando os bares que não possuem música ao vivo e parece com isso, indicar os locais onde se leva vantagem de não se pagar o tão custoso “Couvert Artístico”, que, saibam, muitas vezes e em muitos lugares, não fica integralmente para o artista que está fazendo o show da noite, contrariando a lei e o objetivo de tal arrecadação.

Curiosamente tenho observado, como espectador e como produtor de música, uma mudança de relação do público para com o artista. Existem muitos lugares em que se estabelece uma relação de consumo com o músico. Assim como a casa noturna tem de estampar o pôster da nova garota de biquíni da cerveja X, tem de manter também, uma música ao vivo de fundo, de preferência “o mais de fundo possível...” Em alguns lugares que bons músicos tocam pelo Brasil, mesmo que este cuspa fogo e vire cambalhotas no intuito de chamar a atenção do público - não atinge resultados! Muitas vezes, não consegue arrancar nenhum aplauso numa noite inteira de apresentação. Para uma fatia bastante representante de público de casas noturnas no país, parece que não basta fazer uma música com muito cuidado e talento, elaborando arranjos próprios e dando um tratamento musical e estético ao trabalho.

O fato que venho sentindo, é que o público tem se tornado cada vez mais apático à arte. Digo isto, pois já tive experiências de grande “proximidade” com o público e ainda acredito nesta gostosa relação que se cria entre o artista e seu público, essa “magia” acontece, felizmente, pois é esse o combustível do artista, o que o motiva e dá vazão a sua criação e sua fé no trabalho com a arte.

Portanto tais circunstâncias me fazem refletir sobre quais os motivos que levam o público a esse tipo de atitude com a arte. Que deveria ser a expressão simbólica do povo, deveria ser uma forma de aproximar e entreter as pessoas, encontrando mais prazer, mais diversão e até respostas diferentes para os problemas da vida, já que a arte propõe uma vivência simbólica, substituindo e possibilitando uma nova significação do concreto. Através da arte, o indivíduo tem a oportunidade de viver e sentir como o personagem, por exemplo, um bom livro onde um assassino descreve os motivos e sentimentos de um assassinato. Quem o lê consegue entender, “viajar” nessa realidade, sem necessariamente, sair matando alguém por aí para ver como é. Tais vivências “simbólicas” são oferecidas pela arte, como ver um bom filme, ouvir uma música que trata sobre um problema amoroso, que mesmo o ouvinte não o possuindo, vai poder enxergar esta realidade e aprender com ela. Acredito que a arte seja uma das mais acessíveis formas de educação de um povo, que obviamente tem um potencial cultural mais rico do que chamar uma mulher de “égüinha”. Arte é como ar que respiramos, é a expressão estética de um povo que retrata sua história, seus sentimentos e seus sonhos. Um dia desses participando de um show em uma casa noturna que tem um sistema de som que distribui com muito cuidado o som por todo o ambiente, notei que entre uma música e outra se ouvia um som pesado que insistentemente avançava. Fui verificar e vi que havia uma mesa para fora da casa onde havia estacionado um veículo, com um possante sistema de altos falantes, onde seu vaidoso proprietário estava demonstrando aos amigos seu trio elétrico particular, e, mesmo com as mesas a sua volta que aparentemente, estavam ali para ouvir o som que nós, os músicos, fazíamos, ninguém parecia se incomodar com esta postura, nem com a poluição sonora resultante. Talvez isso pudesse ser até um argumento para pechinchar o tão sofrido “couvert artístico” da noite.

Teria nestas atitudes descritas, um reflexo dos nossos tempos, de uma postura capitalista e utilitária que estabelecemos hoje em todas as relações? Onde cada um se isola no seu mundinho e não quer ampliar horizontes “pouco seguros”? Por medo da invasão da realidade do outro? Por medo ou costume com a violência? Por medo de qualquer coisa diferente e ameaçadora fora de sua tribo? Por competição? Por egoísmo institucionalizado? Ou por falta de educação mesmo?