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As estigmatizações sócio-espaciais
Ramana Jacques - Publicado em 06.07.2006




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Iraque/Guerra, Europa Ocidental/Riqueza, África/Miséria. O desconhecido geralmente nos leva a buscar simplificações generalizantes da realidade, a partir de características marcantes de um determinado recorte espacial, mas que acaba por criar estereótipos, caricaturizando países, regiões e localidades.

Pois vejamos:

- O que imaginamos, o que nos vem automaticamente à mente quando pensamos em Amazônia? Florestas abundantes, vazios demográficos, remanescência de tribos indígenas, desmatamento e queimadas para a extração de madeira e implantação do pastoreio;

- E se mudarmos de estado e pensarmos no Rio de Janeiro? Certamente teremos aí, dois Rios distintos. Um do Jornal Nacional, de guerras entre facções de tráfico de drogas, de favelas sitiadas, de balas perdidas atingindo inocentes; e outro, este da novela das oito e de malhação, o Rio de Janeiro de Ipanema e Leblon, do Pão de Açúcar, do Cristo Redentor, de pessoas bonitas e malhadas de academia da geração saúde (e alienada) do século XXI.

- Se formos para o nordeste, mais precisamente, para o sertão nordestinho, é certo que nos virão imagens de pessoas passando fome e sede por conta da seca; de casas paupérrimas e isoladas uma das outras; do aproveitamento desta situação por parte da elite política local para angariar votos através do velho coronelismo/clientelismo materializado na compra de votos.

E qual é a primeira que acontece quando conhecemos de perto a realidade de cada um desses recortes espaciais? Que existem muito mais coisas do que podíamos imaginar, limitados que estávamos pelos estereótipos. Se formos à Amazônia, veremos cidades surgindo no meio do nada, a partir do desmatamento e das políticas de colonização; por outro lado, no Rio de Janeiro, teremos favelas com vida pulsante, com festivos churrascos e pagodes; e se chegarmos ao sertão nordestino, nos depararemos com paisagens como a do Parque Nacional Serra da Capivara, localizado no sudeste do Piauí (inimagináveis para os que se limitam a fazer um circuito do tipo Rio de Janeiro – Salvador – Recife - Fortaleza), com intermináveis festejos, mostrando que há muita alegria no meio de toda a pobreza mostrada nos jornais.

Constatamos então, conseqüentemente, que todas aquelas percepções que tínhamos previamente de cada um desses exemplos eram, na verdade, furadas?

Longe disso, onde há fumaça, há fogo:

A segunda coisa que constatamos quando vamos a cada um desses lugares é que todas aquelas características, de fato, são verdadeiras. Na Amazônia há as florestas, os índios etc., o Rio de Janeiro é palco de belezas únicas e de violência igualmente única, e o Sertão Nordestino é fortemente marcado pela seca, pela pobreza, pelo clientelismo.

E o que estamos fazendo aqui então, nesse chove não molha, nesse morde e assopra?

O que queremos, não é negar as características marcantes dos lugares, regiões, países, mas sim, mostrar que não devemos fazer da parte, o todo. Não é errado que as menções a cada um desses exemplos nos remetam a características que lhes são marcantes. Pelo contrário, elas são peças fundamentais para o entendimento da realidade de qualquer lugar (não se entende o cerrado hoje se não for abordada a questão das grandes propriedades do agronegócio, por exemplo). O que não é correto é limitar toda a complexidade inerente a cada realidade sócio-espacial em modelos simplificadores, tolhendo toda uma infinidade de possibilidades de leituras que são possíveis de se fazer em qualquer recorte espacial que se imagine.

Visões deste tipo acabam sendo um passo no caminho da criação de estereótipos, seguidas de estigmatizações dos tipos salientados acima, que acabam funcionando como rédeas para compreensão do mundo em que vivemos.

Ao se limitar o mundo ao preto e ao branco, perdem-se as infinitas tonalidades de cinza que existem nos seus interstícios, e lembrando Frei Betto, “a realidade é tão mais complexa e rica do que a ficção que querer limitá-la é ingenuidade” (... e burrice).