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Artigo sobre o PCC e a crise de segurança em São Paulo

Henrique Mumme - Publicado em 31.07.2006


Não é difícil fomentar o caos nos já caóticos centros urbanos. Esta possibilidade é transformada em instrumento de poder por qualquer um que se predisponha a tal.

Relativas pequenas ações refletem em grandes congestionamentos, em bombardeamento da mídia sobre os telespectadores, ouvintes e leitores, em criação e dispersão de boatos, em medo e em pânico generalizado.

Observar os resultados ou efeitos colaterais desencadeados a partir das ações de autoria de determinado grupo traz satisfação e intensa sensação de poder aos realizadores.

Há muito tempo o mundo perdeu as rédeas e são nas crises que percebemos quanto o cavalo se encontra em disparada. As viseiras opacas da ilusão se transformam em véus e, dependendo da intensidade da crise, até mesmo os véus caem bruscamente, revelando uma realidade brutal e selvagem.

O risco de crises provavelmente nunca irá acabar. A tendência é se intensificar ainda mais com os futuros colapsos ambientais (mudanças climáticas e escassez de matérias primas, como combustíveis, adubos, alimentos e recursos hídricos) e com o incremento das guerras, que se expandem ao redor do globo assimilando a todos como uma ameba englobando o alimento.

O que está por vir em um futuro próximo promete abalar as estruturas da ilusão de conforto e segurança do mundo moderno de forma irreversível. Não haverá muitos lugares seguros para se estar.

Em momentos de crise, as coisas perdem a importância na ordem das superficialidades e detalhes (incluindo vida profissional) em direção às bases fisiológicas, até que sobrem quase que somente os instintos de sobrevivência: comer, beber, ir ao banheiro, dormir, reproduzir... encontrar refúgio e conforto.

Como ainda somos selvagens e apenas estamos disfarçados de civilizados, logo ternos e gravatas tornam-se vestuários primitivos (verdadeiras tangas de homens da caverna) e as pastas executivas transformam-se em clavas.

Nestes momentos, o lado selvagem da auto-preservação aflora e as regras do jogo voltam a ser animalescas e medievais (talvez nunca o tenham deixado de ser, mas os disfarces do mundo moderno de ilusões atenuam esta visão).

Todos, com exceção das crianças que ainda não são capazes de compreender e interagir de forma eficaz no sentido de moldar o mundo em volta, são culpados pela realidade que os rodeia. O fato da maioria das pessoas ser ignorante e manipulada não as exime totalmente da culpa que possuem por inconscientemente retro-alimentarem um sistema distorcido.

Ações e reações. Reflexos. Ondas de choque das pedras atiradas na água.

Ataques terroristas e violências quaisquer são apenas tipos de ondas propagadas pela própria pedra que atiramos ao retro-alimentar a desigualdade social, a injustiça e corrupção, a pirâmide hierárquica econômica e cultural.

Não há remédios de efeito instantâneo para tais situações. Todo tipo de remediação ou idéias para tal é baseada em visões simplistas, parciais e muitas vezes interesseiras.

Alguns indivíduos de extrema visão limitada pensam se tratar de um jogo de futebol onde o placar é mensurado pelo número de mortes. “Olhe! Veja só! Os bandidos estão ganhando de 38 a 27 dos policiais!... Agora está 44 a 41 para os PM. Os policiais viraram o jogo!”

A impressão que dá é que a população está ávida por policiais que sejam júri, juízes e executores, a exemplo do personagem dos quadrinhos Juiz Dredd, que se auto-proclama como a própria lei, aplicando penalidades e executando os infratores de forma imediata, de forma similar ao que os policiais fizeram no caso de seqüestro de um ônibus no Rio de Janeiro anos atrás, quando assassinaram o seqüestrador imobilizado dentro de um furgão da polícia.

Gostaria sinceramente que entrasse na cabeça das pessoas que nenhum ser humano é capaz de tais proezas sem que violências desnecessárias ocorram e a justiça, ética, moral e bom senso sejam atropelados.

Matar pessoas de forma premeditada nada resolve, apenas retro-alimenta o problema. Um bandido morto abre espaço para mais dois da mesma forma que uma planária quando cortada ao meio dá origem a dois seres distintos.

Há um gerador infinito de criminosos chamado “sistema atual”, abastecido inclusive por execuções sumárias, as quais há indicativo de que tenham acontecido na recente crise devido ao número de corpos no IML com tiros na cabeça. Para quem não sabe, tiros na cabeça não são muito comuns em tiroteios. A cabeça é um local não muito fácil de se acertar durante o combate, mas alvo preferido em execuções após a pessoa ter sido aprisionada ou imobilizada.

O agravante é o fato de governantes, chefes de polícia e a imprensa destacarem o número de mortes de criminosos como um avanço na guerra contra o terrorismo praticado pelo grupo organizado. Muitos são os espectadores que encaram realmente o aumento no número de pretensos criminosos mortos como um progresso na luta pela paz, justiça e segurança.

Para os governantes e demais responsáveis é cômodo que a discussão gire em torno do saldo de mortes e não nas origens do problema, origens estas que abrangem assuntos extremamente distantes, porém, direta ou indiretamente relacionados, como qualidade e acesso à educação, saúde e habitação, má distribuição de renda, divisão de classes, racismo e outros preconceitos excluidores, corrupção, competitividade maquiavélica, consumismo desenfreado, alienação, ignorância, tráfico de drogas e armas, etc. Indo chegar finalmente nas permissividades de comunicação entre detentos e o mundo exterior e nas trocas de favores entre governo, polícias e criminosos, classes cada vez mais difíceis de se distinguir.

São tantos problemas que não se sabe por onde começar e, exatamente por isso, não se começa, se começa errado, ou ainda, começa-se de forma mais ou menos adequada, mas interrompe-se assim que as “medidas melhoradoras” entram em conflito com interesses políticos e econômicos (sim, miséria, ignorância, tráfico de armas e drogas, etc. Tudo isso gera e mantém poder, fazendo circular muito dinheiro).

As discussões em torno do bloqueio de celulares dentro de presídios são patéticas. Limitam-se a indicar que haverá bloqueios apenas em certos locais e por prazo limitado, quando na realidade, a meu ver, celulares nunca deveriam ser permitidos dentro de presídios quaisquer, muito menos computadores com acesso à Internet, função esta que muitos celulares hoje possuem.

Comunicações entre presidiários e seus familiares deveriam ser monitoradas e restritas. O absurdo é tal que se cogita que os prejuízos causados às operadoras de celular como TIM, Claro, Vivo e Nextel, devido ao não uso dos serviços por ocasião do bloqueio nos presídios, devam ser compensados através de indenizações, afetando a decisão por um bloqueio permanente, bem como o período de bloqueio.

Ironicamente, demonstrando a eficácia das medidas de segurança das autoridades, durante o desenrolar dos ataques, o líder do grupo que assume as ações deu uma entrevista via celular para uma emissora de TV. Atualmente diz-se que a entrevista foi falsa, mas vamos ser sinceros, a possibilidade de que já tenham ocorrido ou venham a ocorrer entrevistas via celular com detentos é altíssima. Seria engraçado se não fosse trágico.

Ao decidir quem é pior, o lobo ou o lobo disfarçado de ovelha, não preciso pensar muito para chegar a uma conclusão. Em um julgamento para se decidir quem prejudica mais a população, os governantes saem ganhando muito na frente de qualquer assassino ou ladrão tradicional. Além de receberem privilégios absurdos e quantias exorbitantes para ocuparem o cargo, são os protagonistas de desvios de verbas e aplicações de medidas equivocadas extremamente caras e prejudiciais à sociedade, matando e levando à miséria e ignorância bilhões de pessoas no Planeta Terra. Sim, bilhões, pois estas façanhas não são exclusivas do Brasil e, mesmo as ações na nossa pátria refletem em miséria na África e outros países.

Nossos governantes, suas tradicionais “maracutaias” e a impunidade servem de exemplo e motivação aos criminosos tradicionais, que ainda fazem uso de “técnicas primitivas” de roubo, utilizando-se de armas de fogo, facas e bombas, muito longe da elegância e refino das transferências bancárias irregulares, superfaturamentos, nepotismo, trocas de favores, etc.

As ações caras e paliativas não são exclusivas do governo, várias empresas e instituições fazem uso da mesma técnica para se autoludibriar e para ludibriar a população afetada. Basicamente resumem-se em passar a impressão de que os problemas estão sendo resolvidos, quando na realidade estão apenas sendo mascarados ou aliviados momentaneamente. No máximo apagam um fogo qualquer, mas sem atacar a origem dos incêndios, ou seja, não são ações de longo prazo ou duradouras, apenas aliviam a dor de cabeça como uma aspirina cara e de curto efeito e não procuram eliminar o tumor cerebral causador da encefaléia. Afinal, a indústria fabricante de aspirinas não pode sucumbir. Sem dores de cabeça ela vai à falência.

Seguem alguns trechos de conversas nas calçadas e recintos da Avenida Paulista e proximidades, colhidos por mim na segunda feira, dia 15 de maio de 2006, quando ocorreu o clímax dos ataques da organização criminosa denominada PCC:

“Porque não deram as 60 TVs de plasma de 42” para os presidiários assistirem a Copa do Mundo? Não seria muito mais barato do que o estrago causado aos ônibus e agências bancárias? Não é simples?”

“Não tenho muita pena dos policiais não. São uns folgados. Depois que eles ganharam estes carrões e motonas eles vivem esnobando. Outro dia um deles me falou que eu não catava mulher porque não usava farda.”

“Eu não vejo estes policiais catando bandido não. Estão sempre de papo no celular e cantando a mulherada na rua.”

“Mais de dois milhões e meio de pessoas sem transporte coletivo e o governo não tem planos emergenciais para este tipo de situação!?”

“Mais de 70 ônibus queimados. Quem paga por estes ônibus? Porque o governo não tira os ônibus das ruas?”

“Estes bandidos merecem morrer. Serem decapitados em praça pública”

“As penalizações têm de ser mais fortes e rígidas. Você acha que se estes crimes fossem punidos com pena de morte haveria tantos criminosos?”

“Cada detento custa R$1.500,00 por mês. Imagina! Tem tanto trabalhador que batalha pra ganhar nem metade disso!”

“Direitos humanos são para humanos e não para criminosos.”

De repente não há outro assunto sendo comentado nas ruas, restaurantes e botecos. O único variante forte o suficiente para persistir é o futebol, reforçado ainda devido às proximidades da Copa do Mundo 2006, representando no início talvez cerca de 30% dos assuntos por mim escutados, porém, cedendo espaço cada vez maior aos múltiplos ataques organizados à polícia, bombeiros, bancos, centrais de trânsito, estações de metrô, além das rebeliões nos presídios e possíveis civis baleados.

Cigarros são acesos com uma freqüência impressionante, ainda maior do que a habitual. Bebidas alcoólicas são ingeridas com velocidade e satisfação atroz. Como não há transporte público suficiente e as vias para veículos estão congestionadas, não é possível fugir fisicamente da forma desejada, portanto, a fuga mais fácil é para drogas como cigarro e álcool e outros alívios momentâneos, dentre eles, os próprios noticiários alarmistas, sensacionalistas e fomentadores do medo, que enquanto lhe prendem a atenção e hipnotizam, lhe dão a sensação de conforto por pretensamente estarem lhe colocando a par dos acontecimentos.

Boatos se espalham como labaredas no paiol, alimentando o pânico. Variações de casos ou ameaças reais aparecem aos montes. Alguns riem nervosamente de piadas não tão engraçadas, mas que soam como verdadeiras obras primas do humor.

O comércio fecha. As pessoas não mais encontram os logotipos luminosos reconfortantes e os produtos de consumo disponíveis. As tensões aumentam. A maioria se entreolha com desconfiança ao cruzarem nas ruas. Em alguns poucos casos, após a desconfiança inicial, um sentimento hoje em dia considerado estranho de solidariedade e irmandade aparece ainda incipiente, mas com esperança de se tornar mais intenso.

Não nos preocupemos, por “sorte” a população escolheu muito bem no referendo passado e todos os “cidadãos de bem” podem se defender com suas próprias armas de fogo.

Pena que medo somado a armas de fogo é igual a aumento na probabilidade de violências desnecessárias.

“Uma revolução onde as pessoas enxergam o quão são subjugadas é uma saída natural e espontânea. Porém, em sistemas como o nosso, onde as pessoas nem ao menos enxergam ou compreendem como são subjugadas, não há saída direta. O primeiro passo é acordar e enxergar a realidade ao redor.”